Dos Anjos se consolida no topo e ‘Cigano’ confirma queda

Dos Anjos se consolida no topo e ‘Cigano’ confirma queda

Ex-campeão peso pesado, Junior dos Santos segue sem sucesso em sua busca por evolução e piora no que era bom

Fernando Arbex

22 de dezembro de 2015 | 13h46

Rafael dos Anjos liquidou Donald Cerrone em apenas 66 segundos e manteve no sábado o título peso leve do Ultimate, na atração principal do UFC on FOX 17. Os atropelos em sequência sobre “Cowboy”, Anthony Pettis, Nate Diaz e Ben Henderson solidificam o campeão como um dos melhores lutadores da atualidade e os elogios acabam sendo até redundantes. O brasileiro aplicou sua blitz habitual (gif) e com boa variedade de golpes se aproveitou da incapacidade que o desafiante tem de aguentar pressão. Vitória sem falhas.

Como eu já dediquei a maior parte do meu último post para expor as qualidades de Dos Anjos, vou usar esse de agora para tratar de um atleta que vem decepcionando. Quem assiste o atual Junior dos Santos não reconhece sombra daquele que se tornou campeão peso pesado do UFC depois de atropelar vários adversários de qualidade. A derrota para Alistair Overeem no sábado deve doer ainda mais em “Cigano” porque no papel era um combate que favorecia ao brasileiro.

'Cigano' tinha entre suas principais virtudes os golpes no corpo dos rivais. Crédito: Josh Hedges/Zuffa LLC via Getty Images

‘Cigano’ tinha entre suas principais virtudes os golpes no corpo dos rivais. Crédito: Josh Hedges/Zuffa LLC via Getty Images

Não sei ao certo o que acontece com Dos Santos, mas é justo dizer que ele não peca por falta de tentativa. Depois das duas derrotas para Cain Velásquez, ficou claro que o ex-campeão carecia de evolução em determinadas áreas – o que não é nenhum demérito, ele chegou ao topo com seu jogo de boxe muito bem adaptado para o MMA. “Cigano” apresentava problemas quando era pressionado porque ele andava para trás em vez de circular e em dado momento era prensado contra a grade, onde wrestlers competentes conseguiam travá-lo. Além disso, seu jiu-jitsu não inspirava muita confiança, principalmente o trabalho na guarda.

Velásquez pressiona e grampeia ‘Cigano’ contra a grade

A mudança da Champion de Luiz Dórea, instrutor de boxe de comprovado sucesso no Brasil, para a Nova União de Dedé Pederneiras não surtiu efeito. Contra Stipe Miocic, há um ano, “Cigano” venceu, mas demonstrou as mesmas vulnerabilidades das lutas com Velásquez. Pior ainda porque os treinadores pareciam bater cabeça entre si na hora de passar as orientações entre um round e outro.

A Nova União carecia de gente do tamanho de Dos Santos para treinar e não se viu ganho na execução da estratégia de combate, portanto foi compreensível a decisão do ex-campeão de se mudar para a American Top Team, academia fundada por brasileiros na Flórida, EUA. A escolha em um primeiro momento foi vista como correta porque a ATT tem sido representada por atletas de ponta e não haveria problemas de ambientação para “Cigano”. Na prática, pelo menos do que se viu no sábado, foi um desastre.

Dos Santos aparentava estar descaracterizado, de um lutador que tomava a iniciativa e apostava em seu volume de golpes para abrir espaço para o ataque nocauteador, apareceu no octógono um competidor passivo, sem confiança. Overeem – assim como Cerrone – é conhecido por não saber lidar com pressão, o holandês teve sucesso no kickboxing se aproveitando de luvas maiores que protegiam melhor seu frágil queixo, sem contar a notável ausência de gana para virar um combate quando preciso. Porém, quando está confortável, “The Reem” é perigosíssimo pelo seu repertório e suas fintas. Trocou de base quando quis, minou o brasileiro com chutes nas pernas e no corpo e nocauteou depois de engatilhar a mão direita, mas disparar com a esquerda. Coisa fina, diga-se.

“Cigano” deve abandonar a busca por evolução e reativar seu estilo antigo? A verdade é que é difícil dizer. Fabrício Werdum, o atual campeão da categoria, foi demonstrar ter se tornado um lutador completo já depois dos 34 anos. Dos Santos tem só 31, mas cada caso é um caso. Quem pega seu vídeo de melhores momentos nota uma variedade interessante: upper nocauteou Werdum (gif); gancho de esquerda (left hook) derrubou Gilbert Yvel (gif) e Gabriel “Napão” (gif), combinação jab-direto liquidou Frank Mir; overhand lhe garantiu o título contra Velásquez (gif), além de exemplos mais pontuais, como a cotovelada curta que deixou tonto o mesmo Velásquez na terceira luta entre dois (gif) e o chute rodado que terminou o confronto contra Mark Hunt (gif).

A maioria dos golpes de impacto de “Cigano” vinham depois do trabalho de movimentação e volume, ele tirava o rival dos eixos com ataques no corpo, principalmente jabs e diretos, os quais abriam caminho para as investidas mais poderosas – contra Overeem, o brasileiro até o acuou e disparou ataques no corpo em dado momento, mas foi pouco. O ex-campeão piorou nesse aspecto e no sábado ele não foi testado nas áreas que diz se esforçar para evoluir.

Velásquez e Miocic adotaram a tática do abafa para anular um adversário impotente contra essa estratégia, diferentemente do Overeem, que preferiu dar espaço e ter espaço. Plano até surpreendente, porque se trata de um lutador que gosta bastante de buscar o clinch, mas é provável que ele tenha temido entrar no raio de ação de Dos Santos. Talvez o ex-campeão tenha apenas escolhido o oponente errado para apresentar sua nova versão, mas o que se viu contra o holandês não só não empolga como preocupa.

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