Frank Mir troca a base e vira o jogo

Frank Mir troca a base e vira o jogo

Peso pesado norte-americano demonstra evolução técnica em vitória sobre Antônio "Pezão" Silva

Fernando Arbex

24 de fevereiro de 2015 | 11h52

Confirmando o ditado que diz que o rei jamais perde a majestade, Frank Mir nocauteou Antônio “Pezão” Silva no domingo e deu à sua carreira uma sobrevida ao encerrar sequência de quatro derrotas consecutivas. Mais do que isso, o norte-americano não dependeu de um lampejo de brilhantismo no UFC Fight Night 61, ele de fato teve uma ótima atuação e demonstrou evolução na sua técnica de boxe. Excetuando rápida vitória sobre Cheick Kongo no UFC 107, Mir não tinha um desempenho tão bom desde dezembro de 2008, quando atropelou Rodrigo “Minotauro” no primeiro combate entre eles.

miranda

Mir venceu pela primeira vez de dezembro de 2011

Evolução. Eu posso estar me empolgando muito, uma vez que Mir venceu em apenas 1:40 minuto, mas o atleta realmente aparentou estar em uma melhor forma física e técnica, demonstrando velocidade e perícia ao desferir jabs. Canhoto, ele entrou no duelo de base trocada para ter sua mão forte mais próxima possível do rosto do adversário, estratégia até certo ponto sofisticada e que deu muito certo. O norte-americano achou a distância com relativa facilidade e impôs knockdown ao oponente ao conectar uma sequência 1-3, aplicando um jab seguido de um *cruzado de esquerda. Mais uma saraivada de socos e cotoveladas no caído rival e o combate terminou.

De base trocada, Frank Mir vence com um “left hook”

Se Mir apresentou melhora significativa, o mesmo não pode ser dito de “Pezão”. Como escrito aqui na semana passada, o brasileiro não poderia ficar estático em frente ao adversário como tanto fizera antes e pagara o preço. Ele mais uma vez foi acertado por sua previsibilidade e falta de mobilidade, era questão de tempo até que um derradeiro golpe entrasse – e entrou.

Mas, além das falhas técnicas, é sintomático que Silva tenha aguentado a quantidade de ataques que levou de Mark Hunt e caído quase sem consciência com um só soco de Mir. Por ter acromegalia – doença vulgarmente conhecida como gigantismo -, “Pezão” provavelmente era o único caso de comprovada necessidade do uso de TRT, em razão da natural baixa produção de hormônios que sua condição impõe ao corpo. Não sou médico, mas acharia prudente ele investigar essa queda de rendimento físico e eventualmente abandonar a carreira, se for determinante para seu bem estar.

Notícia velha. Edson Barboza surgiu no UFC em 2010 com grande habilidade para desferir chutes e fraco desempenho na troca de socos na curta distância. Alguns anos depois, é possível notar pouca evolução. Até em dois triunfos específicos, em contestadas decisões contra Ross Pearson e Danny Castillo, o friburguense sofreu quando o combate foi para área do boxe. Não foi diferente nos reveses para Jamie Varner, Donald Cerrone e agora para Michael Johnson.

MJ, aliás, avança na categoria dos leves e pode vir a conquistar uma disputa de título. Não é fácil acompanhar a boa movimentação de Barboza e o norte-americano esteve em cima de seu rival o tempo todo, inclusive absorvendo agressivos chutes no tronco. O problema de Johnson historicamente é o jogo de chão e faz tempo que ele não é testado na área. Ao menos ele tem qualidade no wrestling para evitar ser derrubado, mas numa categoria tão completa seria conveniente que ele tenha evoluído nesse quesito.

Zebras. Das 11 lutas do evento em Porto Alegre, dez azarões nas casas de apostas venceram – a única exceção foi Ivan Jorge, o “Batman”. Apesar do dado curioso, só houve duas grandes surpresas, as vitórias do manauara Adriano Martins, que mesmo oriundo do jiu-jitsu conseguiu anular o gabaritado jogo de quedas do russo Rustam Khabilov, e do norte-americano Frankie Saenz sobre o marajoara Iuri Alcântara, o “Marajó”.

*Obs.: o que Mir acertou para derrubar “Pezão” foi um gancho. A origem da nomenclatura dos golpes de boxe é da língua inglesa e aquilo chama “hook”, palavra inglesa para gancho. O problema é que alguém traduziu muito mal os nomes dos socos, há quem ache que o ataque usado pelo norte-americano tenha sido um cruzado e que gancho é o que na verdade se chama upper. Abaixo, por partes:

Golpe que o Mir usou é o hookou gancho. Como o nome diz, o movimento do soco faz um arco na forma de gancho.

Upper, o soco sai de baixo e sobe:

Tyson aplica um upper, não um gancho

No cross, ou cruzado, o soco cruza o ataque adversário, no caso o jab:

A mão direita de Mark Hunt cruza o jab de Stefan Struve

Espero ter ajudado 🙂

 

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