Meryl Streep foi 99% coerente, mas teve aquele 1% preconceituoso

Meryl Streep foi 99% coerente, mas teve aquele 1% preconceituoso

No Globo de Ouro, atriz derrapou em seu discurso contra a xenofobia ao mencionar MMA e mostrou desconhecimento

Fernando Arbex

10 de janeiro de 2017 | 17h33

Meryl Streep recebeu na 74ª edição do Globo de Ouro o Prêmio Cecil B. DeMille graças a sua brilhante carreira no cinema e fez um inflamado discurso contra a xenofobia e, por que não, também contra o próximo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A repercussão foi imediata de lado a lado e admito que eu aprovei a mensagem passada pela atriz, mas este é um blog de MMA e aqui é meu dever tratar do esporte, mencionado por ela de forma pejorativa.

Esther Lin/MMA Fighting

Aspas para Streep: “Hollywood está cheio de deslocados e estrangeiros. Se você expulsar todos eles, não vai ter nada para ver, a não ser futebol americano e artes marciais mistas (MMA), que não são artes”. Achei curioso ela pregar conciliação e atacar a paixão de uma série de pessoas que acompanham essas modalidades, mais curioso ainda foi a demonstração de desconhecimento por parte dela.

Por exemplo, o brasileiro Cairo Santos é peça chave do Kansas City Chiefs, time da NFL que venceu a divisão do oeste da AFC e, portanto, classificou-se para os playoffs desta temporada. Ok, os 38 estrangeiros da liga representam 2% de todos os jogadores registrados neste ano, mas vá dizer para um torcedor dos Chiefs que vão substituir o kicker dele. Streep talvez tenha perdido a mensagem política transmitida por Beyoncé no último Super Bowl, só para mencionar uma manifestação contra o racismo que ganhou força graças à NFL. Aliás, um dos mais relevantes protestos recentes contra o racismo nos Estados Unidos foi feito por Colin Kaepernick, jogador de futebol americano que se recusou a levantar enquanto era tocado o hino do país.

Mas eu deixo para os especialistas em futebol americano defender o esporte deles, falemos de MMA. A modalidade de artes marciais mistas, ainda quando se chamava Vale Tudo, foi criada pela família Gracie, que desejava provar a superioridade do jiu-jitsu sobre as demais formas de combate, por isso imigrou para os Estados Unidos e criou o UFC em 1993. Patriarcas do clã, Carlos e Hélio Gracie foram apresentados ao judô pelo japonês Mitsuyo Maeda, no início do século XX, e adaptaram as técnicas de solo da luta para criar o que o mundo conhece por brazilian jiu-jitsu. Notem que três nações foram citadas neste parágrafo.

Tem muito exemplo que contradiz o discurso de Streep, basta olhar na Wikipédia a lista de lutadores contratados pelo UFC, a maior organização de MMA do mundo. Dos 11 campeões atuais, seis são norte-americanos, mas Stipe Miocic é filho de croatas e Max Holloway nasceu no Havaí, ilha do Oceano Pacífico que foi anexada ao território dos Estados Unidos. Amanda Nunes e José Aldo são brasileiros, Conor McGregor é irlandês, Joanna Jedrzejczyk é polonesa e Michael Bisping é inglês.

Também é bom lembrar que Fedor Emelianenko é russo, Anderson Silva é brasileiro e Georges Saint-Pierre é canadense, três dos quatro atletas que competem com Jon Jones pelo posto de maior da história do esporte. Por fim, o Ultimate já realizou eventos em 15 países diferentes, espalhados por América do Norte, América do Sul, Ásia, Oceania e Europa, portanto não dá pra dizer que só nos Estados Unidos que se assiste a modalidade. De 2000 a 2007, o Pride FC reinou no Japão como a maior organização de MMA do mundo e até hoje há fãs fiéis no país, bem como a promoção de competições.

Não vou entrar no mérito se artes marciais se qualificam como arte, porque acho essa uma discussão vazia. Abaixo primeira coisa que aparece no Google para a pesquisa do vocábulo “arte”:

arte

De novo, eu não quero convencer ninguém que luta se qualifica como arte e tenho certeza que não está na mesma categoria que o cinema, por exemplo. Mas é ignorância achar que dois brutamontes sobem em uma jaula para trocar socos aleatoriamente até que um caia no chão. Artes marciais demandam disciplina, treino, repetição, estratégia e sacrifício. E é sempre bom lembrar que ninguém é obrigado a assistir.

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