Michael Bisping cumpre seu ‘destino’ e é campeão do UFC

Michael Bisping cumpre seu ‘destino’ e é campeão do UFC

Lutador inglês superou desconfiança generalizada e nocauteou Luke Rockhold para conquistar o título peso médio do Ultimate

Fernando Arbex

06 de junho de 2016 | 18h31

Dominick Cruz desempatou sua disputa pessoal com Urijah Faber e manteve seu cinturão peso galo do Ultimate. Em sua segunda vitória sobre o rival, o campeão demonstrou de novo que está sempre um ou dois passos à frente – não só do desafiante da ocasião, mas de qualquer um da categoria. O fato mais legal do fim de semana, porém, foi que a divisão dos médios tem um rei improvável: Michael Bisping nocauteou um arrogante Luke Rockhold no UFC 199 e conquistou um título do Ultimate.

Crédito: Josh Hedges/Zuffa LLC

Crédito: Josh Hedges/Zuffa LLC

Destino. Há anos que Bisping diz que se tornaria campeão do UFC e ninguém lhe dava ouvidos – com razão, diria eu até a luta com Anderson Silva. Mesmo depois do improvável triunfo contra o brasileiro, o atleta britânico não era cotado para disputar o título, mas Chris Weidman se machucou e Ronaldo “Jacaré” tinha que passar por uma cirurgia e não poderia entrar como substituto.

Mas por que tanta descrença em um lutador que agora se tornou o recordista de vitórias no Ultimate (19, empatado com Georges Saint-Pierre)? Porque sempre faltou aquele algo mais ao inglês. São dez anos de UFC, oito deles na categoria, e vitórias contra adversários medianos alternavam com derrotas para medalhões. De nada adiantava vencer Dan Miller, Yoshihiro Akiyama, Jorge Rivera e Jason Miller se essa sequência seria quebrada com um revés para Chael Sonnen.

Nocauteado de forma brutal por Dan Henderson e Vitor Belfort, superado por um decadente Wanderlei Silva, amarrado por um limitado Tim Kennedy e, finalmente, finalizado por Rockhold, o acúmulo de derrotas fez Bisping cair em descrédito. O britânico não conseguiu se credenciar a disputar o título mesmo em um período horrível da divisão, quando até Anderson Silva se entediava com seus adversários. Yushin Okami, antes do UFC 90, e Sonnen, antes do UFC 112, sofreram lesões e foram substitídos, mas Bisping não foi escolhido para enfrentar “Spider”.

Dizia-se que o inglês era só um produto comercial valioso para o UFC, interessado no mercado europeu. Que ele batia fraco – de fato não é um nocauteador. Que ele ficava com medo em grandes lutas. E todas as críticas foram superadas no sábado. Bisping teve apenas 17 dias para se preparar para o maior combate de sua vida e ganhou por nocaute, em um evento de pouco interesse para a maioria dos fãs, ansiosos pelo UFC 200.

Rockhold é mais lutador? No geral, sim, e era favorito com razão. Mas o agora ex-campeão pareceu estar certo da vitória e jogou no lixo sua maior envergadura para dar um jab com muita profundidade. Bisping absorveu o golpe e contra-atacou com um gancho de direita (right hook) no corpo e um de esquerda (left hook) na ponta do queixo do norte-americano – mão de trás no corpo e mão da frente por cima é uma combinação muito usada por Rafael dos Anjos (gif). O britânico sentiu o momento e foi para definir, o que ele conseguiu com outro gancho de esquerda na saída do clinch.

Rockhold era melhor na luta até aquele momento. Ele controlava a distância como sempre fez, chutando de longe com sua perna esquerda e acertando seu gancho de direita quando o adversário tentava se aproximar. Bisping tentava imprimir seu volume de golpes característico, apesar da dificuldade que existe em impor o jab em um rival canhoto e de maior envergadura. O inglês protegia a cabeça das caneladas de Rockhold, mas tinha problemas quando era chutado no tronco. Talvez em uma luta mais longa ele se cansasse por causa disso ou passasse a bloquear ataques ali e acabasse atingido na cabeça, mas nunca saberemos o que aconteceria além do primeiro round. Arrogância é um conceito abstrato e difícil de medir, mas o norte-americano pareceu estar cheio dela e pagou o preço.

Bisping não é um James Braddock, mas sua trajetória no esporte cabe no rol de roteiros de “Homem Cinderela”. O inglês é um lutador com habilidades comuns e era desacreditado, mas realizou seu sonho. Ele próprio disse que esse era seu destino e, pelo menos eu, não me sinto mais em posição de duvidar.

Demais lutas. O destaque foi o nocaute espetacular de um cada vez pior Dan Henderson. “Hendo” é uma lenda do MMA, inclusive eu já escrevi um artigo sobre ele, mas sua lentidão está evidente e seu queixo já não é lá essas coisas. Aos 45 anos, seria bom para a saúde dele que se aposentasse o mais rápido possível, mas foi divertido vê-lo acertar o primeiro chute na cabeça de alguém e liquidar a fatura com uma cotevelada exótica.

Minhas críticas a Henderson deixam ainda pior a situação de Hector Lombard, que conseguiu perder para um oponente que beira a aposentadoria. O cubano chegou ao UFC como candidato a ser campeão, e até teve uma boa fase quando competiu como meio-médio, mas já sofreu sua terceira derrota na divisão dos médios, a quarta no total, e há o agravante de já ter sido flagrado em exame antidoping. Ele corre risco de demissão por já ter 38 anos e ganhar um salário alto, mas sua importância para o mercado da Austrália, onde é radicado, deve mantê-lo no Ultimate.

Por fim, Max Holloway aumentou para nove seu número de vitórias seguidas, desta vez contra Ricardo Lamas, um oponente do top 5. Depois que o nó da divisão dos penas for desatado – o que só ocorrerá quando finalmente Conor McGregor defender seu cinturão -, o havaiano se colocará como sério candidato a disputar o título.

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