O velho (?) ‘Cro Cop’ e a falha da Matrix

O velho (?) ‘Cro Cop’ e a falha da Matrix

Mirko Filipovic está prestes a iniciar sua quarta passagem pelo UFC justamente contra Gabriel "Napão", um antigo algoz do croata

Fernando Arbex

10 de abril de 2015 | 11h22

O MMA é um esporte que em 2013 completou apenas 20 anos e mesmo assim seus fãs se enchem de saudosismo. Esse sentimento consta principalmente no coração daqueles que presenciaram os eventos do Pride, extinta organização japonesa que liberava o uso de golpes como tiro de meta e mata barata – sem falar na ausência completa de testes antidoping. Eu, como não sou moralista ou ingênuo (porque o UFC está longe de ter uma política eficaz contra o uso de drogas, idem a Wada), prefiro não questionar qualidade de um atleta de alto desempenho que nunca foi pego em um exame, por isso falemos das razões objetivas para os altos e baixos da carreira do venerado veterano Mirko Filipovic, o “Cro Cop”, que neste sábado encara pela segunda vez o carioca Gabriel “Napão” Gonzaga, no UFC Fight Night 64.

mirko

Sabia que “Cro Cop” é uma abreviação de “Croatian Cop” (policial croata, em inglês)? Há quem já tinha esse conhecimento e quem possa achar essa uma curiosidade tão interessante quanto irrelevante, mas questiono-se quantos lutadores por aí têm 75 lutas profissionais – somando kickboxing e MMA – no currículo? Praticar um esporte de combate é fácil para quem nos anos 90 esteve envolvido em atividades militares de uma ex-república iugoslava. Competir em torneios que exigiam dois ou três duelos na mesma noite também pode parecer assustador, mas para combater pela independência da Croácia é que é preciso ser “durão” (guarde esse termo) de verdade.

De 1996 até 2006, Mirko atuou em alto nível em duas frentes. Foi um kickboxer de sucesso até decidir migrar para o MMA, mais especificamente trocando o K-1 pelo Pride. O intrigante é que ele sabia se defender de quedas sem mal ter treinado para isso. É como se Floyd Mayweather Jr. se tornasse repentinamente um lutador de alto escalão do UFC. Não, é até mais surpreendente, considerando que o Ultimate protege suas opções midiáticas de combates desfavoráveis, haja vista que Conor McGregor vai disputar o título dos penas sem nunca ter enfrentado um wrestler.

Era lindo. Em um momento em que o grappling dominava, Mirko conseguia se manter em pé para acertar golpes cirurgicamente colocados. “Perna direita, hospital, perna esquerda, cemitério”, ele dizia. “Cro Cop” chutava indiscriminadamente e pouco era derrubado. Circulava pelo ringue como se caçasse o adversário, esperava a menor abertura para um chute de canhota na cabeça. Se o oponente se precavia disso, o croata chutava no corpo ou acertava seu soco direto com a mão esquerda, que ficou famoso por quebrar o osso orbital de uma série de rivais.

Chute de esquerda, direto de esquerda e defesa de queda

Em suas primeiras nove lutas, “Cro Cop” venceu Kazuyuki Fujita duas vezes, Kazushi Sakuraba e Heath Herring, todos capacitados e desesperados para derrubá-lo o quanto antes. Também derrotou o competente striker Igor Vovchanchyn com seu conhecido chute de perna esquerda na cabeça, marca registrada do croata. Quem o pararia? Só dois homens eram capacitados àquela altura: Rodrigo “Minotauro” Nogueira e Fedor Emelianenko.

Preocupado com a mão esquerda de “Cro Cop”, Vovchanchyn foi nocauteado com um chute

Sim, “Cro Cop” no Pride foi nocauteado por Kevin Randleman – derrota devidamente vingada pouco depois – e perdeu para Mark Hunt por decisão dividida dos jurados – quase que em uma revanche com regras de kickboxing do duelo que o neozelandês perdeu no K-1. Dois reveses que não alteram um fato: só Fedor e Nogueira eram pesos pesados superiores. Cada um deles derrotou Mirko uma vez, mas o russo não participou do GP sem limite de peso organizado em 2006 e o brasileiro foi eliminado por Josh Barnett na semifinal.

Vencedor desse prestigiado torneio (de uma organização que pouco depois acabaria), “Cro Cop” foi contratado pelo UFC com seu passe valorizado, mas não correspondeu às expectativas. Muitas razões são especuladas, mas há poucas certezas. Ele alega que iniciou sua trajetória no Ultimate com uma lesão, mas raramente lutadores atuam 100%. Os maiores problemas físicos do croata vieram depois de ele ser nocauteado (com um chute na cabeça, ironicamente) por Gabriel “Napão” em 2007, em uma das maiores zebras da história desse breve esporte.

No meu diagnóstico, Mirko foi arrogante, seu comportamento foi típico de um cara “durão” (lembra?) que se acha bom o suficiente. Recusou-se a treinar em um octógono antes de sua estreia, não se adaptou às novas regras que encontraria. Dois meses depois de fácil vitória em debute contra Eddie Sanchez, “Napão” quedou o croata e o acertou com fortes cotoveladas, golpes que curiosamente não eram permitidos no Pride. Atordoado quando se levantou, “Cro Cop” não viu o chute que o derrubou sem consciência e fez com que ele caísse de um jeito que rompeu ligamentos do joelho. Avariado física e psicologicamente, sua sequência de carreira foi melancólica, ele nunca mais impressionou como antes, saiu do UFC e foi recontratado em 2009 apenas para ser dispensado em 2011.

É duro acreditar que o Mirko de agora seja muito melhor do que o de quatro anos atrás, inclusive já naquela época ele parecia um peso pesado pequeno para a categoria atualmente. Sim, ele venceu combates no MMA e no kickboxing desde então (perdeu uma vez em cada modalidade, ressalte-se). A questão é que, aos 40 anos, dificilmente veremos o velho “Cro Cop” e sim um “Cro Cop” velho e não há nada que sua legião de fãs possa fazer. A boa notícia para ele é que “Napão” vem em uma má fase e há tempos não demostra ser aquele lutador que disputou título do UFC (sem contar que estrategicamente o carioca sempre foi falho, pergunto-me sempre por que um campeão mundial de jiu-jitsu passa tanto tempo lutando em pé).

Não quero parecer anti-patriota, mas ficaria feliz se o croata se vingasse daquela derrota de oito anos atrás, da falha da Matrix que desencadeou uma série de eventos negativos na carreira de um ídolo meu. Mesmo sabendo que a sequência dele não deve ser animadora, uma dose de saudosismo não faz mal.

 

 

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