Patrício ‘Pitbull’ vs. Daniel Straus II e os dois gumes da kimura

Patrício ‘Pitbull’ vs. Daniel Straus II e os dois gumes da kimura

O lutador potiguar se aproveitou de uma tentativa infeliz do rival para vencê-lo pela segunda vez

Fernando Arbex

19 de janeiro de 2015 | 15h38

Conor McGregor confirmou as expectativas e venceu Dennis Siver com facilidade na madrugada de domingo para esta segunda-feira, dia 19. O irlandês será o próximo desafiante do campeão peso-pena José Aldo, mas isso já era praticamente certo, inclusive foi tratado por este blog no post anterior. O resto do UFC Fight Night 59 foi desinteressante, inclusive a luta em que Ben Henderson provou do próprio veneno e perdeu para Donald Cerrone em uma decisão contestável. Bendo mostrou boa variedade de golpes e eu achei que ele fizera o suficiente para vencer um combate chato, mas os jurados garantiram que o Caubói estendesse para sete sua série de vitórias consecutivas (conquistadas em um espaço de 14 meses!).

Mas falemos do segundo duelo entre Patrício Freire e Daniel Straus, realizado na última sexta-feira, dia 16, em que o potiguar defendeu pela primeira vez com sucesso seu título peso-pena do Bellator. Sempre muito agressivo e exposto a golpes adversários (inclusive se movimentando em alguns momentos para o lado da mão forte do rival, a esquerda), “Pitbull” perdia a revanche até derrubar o norte-americano no final do quarto round e finalizá-lo com um mata-leão. Bem, isso é notícia velha, o que eu quero tratar mesmo é do golpe que o Straus tentou aplicar antes de ceder à submissão: a kimura.

Frank Mir finaliza Rodrigo Minotauro com uma kimura

Origem. Como quase todos os elementos do brazilian jiu-jitsu (BJJ), a kimura é oriunda do judô, mas do judô tradicional, não aquele visto nas Olimpíadas em que o combate acaba quando o sujeito sofre um ippon. Obviamente que um confronto físico não necessariamente termina quando se derruba seu adversário de costas para o chão, mas tê-lo por baixo pode ser uma vantagem se você é capaz de forçar alguma articulação com uma chave ou pegá-lo com um estrangulamento.

Um dos maiores judocas da história, Masahiko Kimura (1917 – 1993) se notabilizou por usar o ude-garami (conhecido como americana) de forma reversa, assim seu sobrenome acabou batizando o movimento. O lutador inclusive veio ao Brasil em 1951 e utilizou o golpe para vencer Hélio Gracie (1913 – 2009) – o cofundador do BJJ tinha notável desvantagem física, sejamos justos.

Divulgação

Masahiko Kimura

Uso. Para se aplicar a kimura, o ideal é sempre ter o controle do corpo do adversário, seja por baixo ou por cima. O melhor jeito é o do com a guarda passada e sentado em cima da cabeça do rival. Quando se está fazendo guarda, ele também pode ser bem efetivo, embora o mesmo não possa ser dito da meia-guarda. No Bellator 132, Straus caiu de lado e tentou executar o ataque enquanto o atleta potiguar já tinha o domínio de suas costas, Patrício só teve o trabalho de esticar o braço e anular o efeito, uma vez que se trata de uma chave que força a articulação do ombro, e depois liquidou a fatura com um estrangulamento.

Como visto no caso de Straus, a kimura é uma faca de dois gumes, se não utilizada da forma correta, é muito provável que a tentativa frustrada termine na perda da posição. Georges Saint-Pierre percebeu no começo da carreira dele que nem sempre se tem uma segunda chance em uma luta de MMA. O canadense estava na meia-guarda quando tentou o movimento contra Matt Hughes, que conseguiu a passagem e aproveitou a exposição de GSP para finalizá-lo no UFC 50. Carlos Newton já havia feito o mesmo anos antes em uma luta do Shooto.

Posteriormente, GSP tentou uma kimura menos arriscada quando eles se enfrentaram pela terceira vez. O canadense fez a transição do golpe para uma chave de braço e finalizou Hughes no UFC 79, virando o placar pessoal entre eles para 2×1 (St-Pierre havia nocauteado o norte-americano no segundo confronto). A kimura não necessariamente precisa ser um fim, mas pode também ser um meio.

Carlos Condit parece nem tentar mais defender quedas de tão ruim que ele é nesse fundamento, mas felizmente ele desenvolveu um sistema de tentar aplicar o golpe enquanto seus adversários buscam a derrubada. Nem sempre dá certo, mas Condit perdia sua luta no UFC 115 até contra-atacar uma queda com a kimura. Ele não finalizou Rory MacDonald com o ataque, mas caiu por cima ao fim do movimento e se valeu dessa posição para minutos depois vencer por nocaute técnico.

condit

Condit acabaria essa transição por cima de MacDonald

Caçando Gracies. Condit, Nick Diaz e Karo Parysian talvez tenham se inspirado em Kasushi Sakuraba, o homem que consagrou o uso da kimura em pé. Curiosamente, o japonês não veio do judô ou do BJJ, mas do catch-wrestling, modalidade de luta agarrada com maior foco nas quedas, mas também versada em submissões. E foi justamente o jiu-jitsu o maior alvo do ícone nipônico, que quebrou os braços dos primos Royler e Renzo Gracie com o mesmo ataque utilizado contra Hélio quase meio século antes. No Pride 10, Renzo abraçou Sakuraba por trás, mas o wrestler encaixou a kimura, conseguiu desalinhar o corpo com o do rival para ter espaço de giro e aplicou a submissão (abaixo o vídeo, alerta para cena forte).

Este vídeo na sequência explica as diferenças básicas do grappling de Sakuraba para o BJJ e como o japonês se tornou “O Caçador de Gracies”. Clicando para assisti-lo no Youtube, é possível ativar as legendas em um ícone no canto inferior direito.

Freire vs. Straus II. Mais do que um erro técnico, Straus cometeu um erro estratégico. Faltavam poucos segundos para o fim do quarto round, ele entraria na quinta parcial liderando o placar (provavelmente) e estaria um assalto longe de reconquistar o título. Não havia necessidade de se expor tentando uma submissão improvável. Para você que não viu a luta, segue abaixo o vídeo de um duelo de alto nível. O Bellator não tem o material humano do UFC, mas Patrício e Straus são atletas que seriam competitivos em qualquer organização.

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