Rafael dos Anjos e Donald Cerrone fazem luta de funcionários padrão

Rafael dos Anjos e Donald Cerrone fazem luta de funcionários padrão

Dois dos lutadores mais ativos do Ultimate duelam no UFC on FOX 17 neste sábado pelo título peso leve

Fernando Arbex

18 de dezembro de 2015 | 13h41

Há em muitos fãs de esportes de combate a ideia de buscar a perfeição em competidores, cultuar aquele atleta ainda invencível e elegê-lo seu favorito como se ele fosse um super-herói. Os casos de Rafael dos Anjos, campeão peso leve do Ultimate, e Donald Cerrone, desafiante ao título do niteroiense neste sábado, são menos utópicos, somados eles já têm 13 derrotas no MMA – e não há razão para desmerecê-los por isso. Os rivais da atração principal do UFC on FOX 17 trabalharam duro para evoluir e não sem razão estão no topo da categoria atualmente.

Dos Anjos ralou para se tornar o número 1. Crédito: UFC/Reprodução

Dos Anjos ralou para se tornar o número 1. Crédito: UFC/Reprodução

A realidade é menos romântica do que os puristas supõem, todo lutador apresenta falhas a serem exploradas e a derrota geralmente é questão de tempo. Mesmo carreiras “perfeitas” como as de Rocky Marciano e Floyd Mayweather Jr. têm suas controvérsias: há quem diga que o peso pesado não pegou seus maiores rivais no auge, enquanto o recém-aposentado pugilista era criticado por quem acreditava que ele escolhia rivais a dedo e foi beneficiado por jurados em alguns combates. “Sugar” Ray Robinson, Joe Louis e Muhammed Ali, os ditos maiores boxeadores da história, têm reveses no currículo.

Dos Anjos perdeu sete vezes antes de se tornar campeão do UFC e até o fim de 2011 ninguém o cotava como um possível futuro campeão. A partir daí, luta a luta o jiu-jiteiro de origem passou a apresentar notável evolução nas demais áreas do MMA, seu jogo de quedas se mostrou eficaz ofensiva e defensivamente, já seu striking se tornou fluído e perigoso. Mais do que ser bom em todos os setores, o niteroiense passou a misturar os fundamentos com assustadora naturalidade – embora o esporte por nomenclatura exija a mistura das artes marciais, a transição de uma modalidade para a outra não é fácil para todo mundo.

A tutela de Rafael Cordeiro e o intensivo treinamento na Evolve MMA, academia em Cingapura cujo foco é a luta em pé, transformaram Dos Anjos. É uma aula assistir a vitória dele sobre Anthony Pettis, que garantiu ao niteroiense o título peso leve em março. Eu me arrependo amargamente de ter escrito neste blog que o agora campeão tinha menos capacidade de fazer o jogo de abafa do que Gilbert Melendez, desafiante vencido por Pettis em disputa de título há um ano.

Como é característico de um atleta de Cordeiro, Dos Anjos exerceu pressão sufocante sobre o ex-campeão no UFC 185 e venceu os cinco rounds. O detalhe de se enfrentar Pettis é que é praticamente inevitável se tomar um chute na cabeça em algum momento – o que de fato aconteceu -, por isso há o temor de atacá-lo e sofrer um contra-golpe nocauteador. Mas correr esse risco é o correto a se fazer, porque dar-lhe espaço é um cenário ainda pior. O niteroiense obrigou o adversário a estar sempre com as costas próximas à grade, o que limitou a capacidade inventiva do norte-americano.

Dos Anjos não deu descanso a Pettis

Postura ofensiva assumida – como um legítimo herdeiro da Chute Boxe de Curitiba, academia que projetou Cordeiro -, Dos Anjos combinou golpes e neles escondeu suas entradas de queda. Uma virtude do campeão, diferentemente da maioria dos canhotos, é que ele sabe atacar para qualquer lado que seu oponente circule. Seja com caneladas de encontro contra quem se movimenta para a sua esquerda, seja com sua sequência de soco com a mão esquerda na linha de cintura seguida de um gancho de direita (right hook) em quem tenta fugir pela direita.

 

Agressividade de Dos Anjos

Esse combo descrito foi visto contra Pettis e deu knockdown em Cerrone, quando o niteroiense o enfrentou em agosto de 2013. Nessa época, o norte-americano apresentava claras falhas no seu boxe, o “Cowboy” jogava os socos de forma muito aberta e era facilmente acertado. Se nesse ponto ele melhorou muito, seus chutes e joelhadas continuam perigosíssimas, sempre alternando a altura dos ataques. É difícil proteger o corpo e a cabeça ao mesmo tempo.

Cerrone castigou o corpo de Alvarez

Muito alto para a divisão dos leves (1,85 m), Cerrone sabe se aproveitar disso para pegar adversários com joelhadas de encontro. O soco de um lutador 10 cm mais baixo do que o oponente percorre um longo caminho, o qual pode ser interceptado no percurso. O interessante desse duelo é que ambos sabem como poucos minar o corpo rival, característica rara no MMA. Em um combate tão parelho, o que pode fazer a diferença é o fator psicológico. O “Cowboy” já admitiu anteriormente ter sentido a pressão por estar em uma grande luta, vejamos se ele evoluiu nesse aspecto também.

Defesa de Cerrone melhorou. E o psicológico?

Amado pelos fãs, o norte-americano bebe cerveja, pratica esportes radicais, admite que está no esporte apenas para ganhar dinheiro e disputou o incrível número de 18 combates em quase cinco anos de UFC – por sua vez, o campeão competiu 12 vezes nesse tempo, marca também elogiável. Vivemos em um período em que lutadores se apresentam com um frequência baixa e comumente desmarcam compromissos por causa de lesões, o legal de ver esse confronto entre Dos Anjos e Cerrone é que ele opõe dois dos atletas mais esforçados e trabalhadores da organização.

Dos Santos vs. Overeem. A aguardada luta que em 2012 deveria valer pelo título peso pesado do Ultimate, então em posse de Junior dos Santos, vai acontecer neste sábado sem tanta pompa. Ambos estão em baixa se comparado àquele momento e precisam dessa vitória que garante auto-afirmação. Dos dois, “Cigano” nem vive de fato uma fase ruim, um triunfo provavelmente o garante uma nova chance de disputar o título da categoria, isso se Fabrício Werdum derrotar Cain Velásquez de novo.

O problema para o brasileiro é que o outrora eficaz jogo dele está manjado. Contra Velásquez duas vezes e Stipe Miocic, “Cigano” foi muito acertado e controlado contra a grade contra wrestlers superiores. A defesa de quedas de Dos Santos é ótima, o problema é que ela depende da manutenção de sua guarda baixa. Esse nem chega a ser uma questão tão grave, no MMA esse é um risco comum que strikers têm de correr, o que deixa a situação perigosa é a mania dele se movimentar sempre para trás e não lateralmente, como seria o certo, nesse caso ele acaba de costas para a grade e exposto a socos no rosto.

Não só isso, o ex-campeão já demonstrou ter uma variedade maior de golpes do que vem apresentando. Ultimamente ele parece viciado em acertar ser overhand de direita, o que é pouco para alguém que nocauteou Werdum com um upper, castigou o corpo de Mirko “Cro Cop” com socos e joelhadas vindas do clinch, derrubou Gabriel “Nappão” e Gilber Yvel com um gancho de esquerda, deu knockdown em Frank Mir com uma combinação de jab e direto e liquidou Mark Hunt com um chute rodado de esquerda. Além da movimentação lateral, seria bom ver Dos Santos menos afobado e trabalhando com seus conhecidos jabs no tronco do oponente antes de tentar definir o combate.

E Overeem? Bem, o Overeem de 2012 não existe mais, porque o antidoping existe. Esse é um caso claro de quem abusava do uso de anabolizantes e acabou se tornando dependente disso. É um ótimo lutador tecnicamente, mas o banimento das substâncias que usava aparentemente afetaram inclusive seu psicológico. Contra “Cigano”, Overeem tem armas para fazer um duelo equilibrado, inclusive leva muita vantagem no clinch – sua especialidade – e no jogo de chão, o problema é que seu boxe defensivo é falho, seu queixo é duvidoso e ele é conhecido pela falta de gana. O normal é que em algum momento a mão de Dos Santos entre e nocauteie o adversário

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