Rodrigo ‘Minotauro’ personificou a superação no esporte

Rodrigo ‘Minotauro’ personificou a superação no esporte

Ex-campeão peso pesado do Pride pendura as luvas aos 39 anos e deixa legado de que nunca se deve desistir

Fernando Arbex

02 de setembro de 2015 | 18h42

Aos 39 anos e após um relativo atraso, Antônio Rodrigo Nogueira, o “Minotauro”, anunciou nesta terça-feira sua aposentadoria do MMA, dando fim a uma das carreiras mais vitoriosas desse breve esporte. O baiano radicado no Rio de Janeiro pendura as luvas depois de já ter ostentado o título peso pesado do Pride e o cinturão interino da mesma categoria do UFC, e, apesar de seus tempos de glória estarem distantes, o saldo competitivo do agora ex-atleta é amplamente positivo.

O que fez um lutador apenas especialista no jiu-jitsu ir tão longe no MMA? Capacidade de absorver golpes, perseverança e senso de oportunidade. Basicamente, “Minotauro” em muitas lutas sabia que teria pouca oportunidade de utilizar seu jogo de chão e ele teria que aproveitar quando a chance aparecesse – mesmo que tivesse de aguentar uma surra antes disso, mas nada impossível para quem foi atropelado por um caminhão quando criança, sobreviveu e se tornou um atleta de alto nível.

Três combates foram emblemáticos na carreira de Nogueira; contra o gigante Bob Sapp, o letal Mirko “Cro Cop” e bruto Tim Sylvia, o brasileiro sofreu por falta de capacidade de levar oponentes para o solo. Porém, contra esses três adversários, o jiu-jitsu de alto nível de “Minotauro” apareceu.

É bom frisar que o brasileiro não foi um jiu-jiteiro de grandes resultados em competições com e sem quimono – talvez até porque lhe tenha faltado foco, “Minotauro” migrou muito cedo para o então chamado Vale-Tudo. No MMA, ele muitas vezes se utilizava de técnicas bem simples, por exemplo, depois de ter derrubado “Cro Cop”, Nogueira fez o básico do básico para um faixa preta ao passar a guarda, montar e se aproveitar das costas expostas do rival para encaixar uma chave de braço.

“Minotauro” finaliza “Cro Cop”. Crédito: Pride

Foi fácil conseguir aquilo? Com certeza não foi. Em 45 lutas de MMA, “Cro Cop” só foi finalizado uma vez mais. É claro que o corata melhorou muito a técnica de solo dele após aquele combate, mas o ponto é que era muito difícil derrubá-lo e que “Minotauro” levou uma surra no primeiro round – que no Pride tinha 10 minutos – inclusive suportando o lendário chute alto de esquerda na cabeça. Havia um enorme cansaço físico e absurda pressão mental para aproveitar aquela que seria a única chance de Nogueira – e ele aproveitou.

Ao contrário de “Cro Cop”, Sapp deu muitas brechas ao brasileiro, o problema era tirar proveito contra um rival cerca de 40 Kg de músculos mais pesado. “Minotauro” cansou o norte-americano com todo seu repertório e o finalizou com uma chave de braço. Detalhe para as falhas tentativas de derrubar Sapp seguidas de uma raspagem característica de Nogueira que o fizeram ficar por cima em duas ocasiões, aos 55 segundos e aos 3,00 minutos deste vídeo. Por baixo do corpo do gigante, o então campeão do Pride pegava um braço do rival e passava a perna do outro lado pelo vão aberto, em seguida ele sentava e completava o movimento ao ficar por cima e passar a guarda. Lindo!

Outra marca registrada de “Minotauro” era sua raspagem de meia-guarda. Depois de dois rounds e meio de surra sofrida contra Sylvia, Nogueira travou o norte-americano nessa posição e abraçou a perna esquerda do rival, tirando-lhe o equilíbrio e invertendo a posição. Uma vez por cima, como contra “Cro Cop”, o brasileiro aproveitou a única chance que teve: passou a guarda e finalizou com uma guilhotina (aos 14:20 minutos deste vídeo).

A carreira de “Minotauro” se estendeu por longos 16 anos e 46 lutas, mas infelizmente as últimas não foram nada prazerosas de se assistir – foi triste vê-lo não conseguir nem ser competitivo contra adversário do nível de Roy Nelson e Stefan Struve. Nogueira foi um lutador limitado, sem dúvida, suas tentativas de melhorar seu boxe demoraram para apresentar resultado e este foi pouco satisfatório. Muitas cirurgias limitaram seu jiu-jitsu e o obrigaram a buscar essa evolução na luta em pé para continuar sendo competitivo – em alguns de seus últimos combates, ele até apresentou alguma capacidade de enquadrar rivais contra a grade e travá-los com um braço por baixo de um dos sovacos para golpear com a outra mão, mas ainda assim era pouco.

Nessa revisitação, é importante dizer que “Minotauro” teve suas pedras no sapato, principalmente Fedor Emelianenko, que conseguiu anular completamente o jiu-jitsu do brasileiro, algo impensável em 2003, e Frank Mir, o primeiro homem a nocautear alguém que julgavam “inocauteável” e finalizar aquele que confiavam ser “infinalizável”. Porém, independentemente dos tropeços, das desculpas para justificar derrotas e de supostamente tratar mal alguns fãs, Nogueira se aposenta com uma carreira invejável para ostentar e como exemplo de perseverança.

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