Ronda Rousey, a Mike Tyson do MMA, luta no UFC 193

Ronda Rousey, a Mike Tyson do MMA, luta no UFC 193

A exemplo do ex-pugilista, a campeã peso galo do Ultimate pulveriza rivais e entra para lutar com aquela sensação de que a vitória é questão de tempo

Fernando Arbex

13 de novembro de 2015 | 13h20

“Rowdy” Ronda Rousey vai entrar neste sábado para competir no UFC 193, que acontecerá em um estádio de futebol, em busca de defender seu título do Ultimate pela sétima vez e sua invencibilidade de 12 lutas na carreira. A campeã peso galo vai atuar para um público de quase 70 mil pessoas em Melbourne, na Austrália, e de novo encabeçará um evento transmitido em pay-per-view nos Estados Unidos – da última vez, em agosto, atingiu a respeitável marca de 900 mil vendas. Tudo isso enquanto concilia sua carreira de atleta com participações em filmes de Hollywood e em outras diversas aparições na mídia. Não é difícil notar que a norte-americana é uma estrela.

Crédito: Adriana Spaca/Brazil Photo Press

Crédito: Adriana Spaca/Brazil Photo Press

Rainha Sol. Também não é difícil entender a razão. Ronda é um ótimo produto comercial porque é bonita, comunicativa e… luta muito bem, obviamente. Mas José Aldo também luta muito bem – aliás, hoje, não há ninguém melhor do que ele – e suas vendas de PPV são fracas. A próxima, em dezembro, provavelmente vai passar de um milhão de pacotes comercializados apenas porque seu adversário será Conor McGregor, que eu já disse aqui ser o pote de ouro do UFC. Diferentemente da norte-americana, Aldo não fala bem inglês e não faz o tipo galã.

A verdade é que, tirando um ou outro exagero, Ronda merece estar nesse pedestal. Não há mulher em sua divisão que esteja próxima de seu nível técnico, por isso ela é tão dominante. A campeã é realmente especial, mas é de se avaliar que a evolução do MMA feminino engatinha a passos lentos. Alguns combates parecem os dos homens há 20 anos, só que eles tinham capacidade de nocautear os adversários com um soco sortudo que fosse, o que tornava as coisas mais interessantes. As combatentes atuais carecem de força bruta mesmo, mas também falta qualidade técnica.

A rival. Não é o caso de Holly Holm, a próxima desafiante ao título peso galo. Oriunda do boxe e com uma boa base de kickboxing, aí está uma competidora com capacidade de colocar uma oponente para dormir, não por ser mais forte do que as outras, mas porque ela entende os fundamentos básicos da luta em pé. Não adianta ligar o ventilador e torcer para um soco pegar em cheio no queixo do adversário, um atleta de verdade sabe se movimentar, procurar ângulos, disparar ataques preparatórios e, aí sim, desferir o golpe nocauteador.

O chute na cabeça foi escondido por outros golpes

Holm é muito melhor em pé do que Ronda, me arisco a dizer que nem boa nessa área a campeã é, apesar do sucesso que teve em alguns confrontos anteriores. Acontece que a desafiante não foi testada o suficiente para saber se ela conseguirá defender-se das quedas de judô e das chaves de braço daquela que foi medalhista de bronze na Olimpíada de 2008. Já restam tão poucos desafios para “Rowdy” que esse combate foi apressado em vez de dar outra chance a Miesha Tate – que já perdeu duas vezes da detentora do cinturão.

Tate faz o pivô e acerta a descuidada Ronda com a mão esquerda

Basicamente, Holm não pode cair na tentação de tentar nocautear a campeã nos primeiros segundos de luta, nos quais Ronda corre de forma até grosseira para buscar o clinch e daí conseguir a queda. A desafiante deve circular e usar sua especialidade, que é atacar o corpo, o que vai cansar a oponente e abrir caminho para os golpes mais fortes. Esse deve ser o plano, só que, como diria Mike Tyson, “todo mundo tem um plano, até tomar um soco na boca”.

De ferro? No caso, Ronda é Mike Tyson, e é por várias razões. É porque ela é capaz de terminar seus combates em poucos segundos. É porque a mídia a trata como invencível. É porque ela comete falhas técnicas que não serão comentadas até que alguém a vença. A campeã peso galo não é o melhor atleta de MMA em atividade, pelo menos não se contarem os homens, e nada impede que um “Buster” Douglas apareça em seu caminho como aconteceu com “Iron Mike”.

Será chocante? Com certeza, como foi chocante quando aconteceu com Tyson, mas Ronda já cometeu o erro de não entrar para derrubar Bethe Correia – a brasileira foi liquidada em 34 segundos, mas não havia o porquê de adotar a estratégia de lutar em pé. A norte-americana acredita piamente que tem um boxe de alto nível e parece ser daquelas que gostam de provar um ponto. Repetir isso contra Holm resultará em sua derrota, mas o provável é que a campeã siga seu plano padrão e finalize a desafiante.

Demais lutas. A canadense Valérie Létorneau vai disputar o título peso palha feminino por mera questão de timing, as opções mais óbvias não estavam disponíveis para competir em novembro e abriram espaço para uma defesa de cinturão relativamente fácil para a polonesa Joanna Jedrzejczyk (tratemos-na por Joanna, ok?). A campeã é uma striker especialista em golpear por volume e é sempre divertido vê-la no octógono. Falando em diversão, Antônio “Pezão” Silva e Mark Hunt vão reeditar épico confronto que terminou empatado há dois anos, enquanto Robert Whittaker tentará escalar algumas posições no ranking do UFC às custas da boa fase de Uriah Hall. Que os fãs aproveitem um card principal muito bem montado.

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