Ronda Rousey vs. Bethe Correia, a guerra psicológica do UFC Rio

Ronda Rousey vs. Bethe Correia, a guerra psicológica do UFC Rio

Superior à rival paraibana, a campeã peso galo do Ultimate ameaça abandonar sua estratégia tradicional e colocar em risco seu título

Fernando Arbex

31 de julho de 2015 | 09h50

Animosidade declarada entre adversários costuma ser um elemento comum no mundo da luta – sejamos francos, é muito mais legal entrar em um combate para socar na cara alguém de quem você não gosta. É verdade que o antigo Vale Tudo passou a se chamar MMA, o esporte se profissionalizou e ganhou popularidade, não há mais espaço para que atletas tratem o emprego deles como uma mera briga de rua. Porém, há competidores que realmente gostam de odiar seus oponentes e esse parece ser o caso de Ronda Rousey, que defende seu título feminino dos galos neste sábado contra Bethe “Pitbull” Correia, na atração principal do UFC 190, no Rio de Janeiro.

Bethe prometeu nocautear Ronda. Crédito: Alexandre Loureiro/Inovafoto

Bethe prometeu nocautear Ronda. Crédito: Alexandre Loureiro/Inovafoto

Meninas más. Não aparenta ser muito difícil tirar do sério Ronda, ela aliás pediu para enfrentar sua próxima adversária após ser alvo de uma série de provocações infantis. Bethe derrotou duas amigas da norte-americana e disse que a dona do título seria a próxima – o suficiente para dar ao combate o apelo comercial que o Ultimate precisava, ignorando o fato de que a desafiante não venceu nenhuma top 5 da categoria. Para ser justo, a divisão feminina dos galos não tem muita profundidade e a próxima a ter chance de disputar o cinturão será Miesha Tate, que já perdeu duas vezes da campeã, portanto não faz mal marcar uma luta que tinha potencial para ser bem promovida – e foi.

Bethe falou poucas e boas da rival, inclusive mencionou o fato de que Ronda já teve depressão e disse que a norte-americana poderia se matar depois de ser derrotada. O problema é que o pai da campeã cometeu suicídio e o pedido de desculpas da atleta paraibana não foi aceito. E esse é o ponto. Quanto o ódio atrapalha e quanto ele ajuda?

Odiar ou não odiar? É possível que John McEnroe se tornasse um tenista melhor quando quebrava raquetes e xingava árbitros e era evidente a vantagem psicológica que jogadores cubanos de vôlei tinham sobre seus rivais na década de 1990. É ótimo que um competidor encontre uma motivação a mais para vencer, mas excesso de vontade pode resultar em carência de estratégia. No MMA isso é propriamente nítido, há lutadores que optam por sair trocando socos totalmente expostos para se provar mais corajosos e jogam no lixo a chance mais segura que tinham de ganhar.

Bethe Correia tem chance de vencer Ronda Rousey? Em condições normais, muito pouca. A paraibana foi derrubada e quase finalizada por Shanya Baszler, lutadora de nível bem abaixo da campeã, esta uma especialista em quedas de judô e chaves de braço. Ronda começa a luta, anda para frente, toma um soco na cara de uma oponente que tinha alguma esperança de nocauteá-la com um só golpe, pega a rival no clinch, derruba de guarda passada e vence por submissão. MMA feminino ainda engatinha e não é “Pitbull” a atleta capacitada para impedir que isso aconteça.

Tate falha em nocautear e é derrubada por Ronda

Mas só acontecerá se Ronda quiser. A norte-americana é meio lunática, ela acha que conseguiria bater em lutadores homens, que seria capaz de enfrentar Jon Jones e Cain Velásquez, que tem a melhor técnica de boxe e de jiu-jitsu do mundo. A verdade é que eu não acho uma boa ideia que ela entre para enfrentar Bethe em pé, mas não duvido que a campeã queira dar essa demonstração tola de valentia.

À “Pitbull” resta rezar para que a adversária troque golpes em pé, assim a paraibana poderá colocar em prática seu intenso volume de golpes. Bethe alterna muito bem ataques na cabeça e no corpo, estratégia ideal para confrontos longos. É bom também que ela esteja sempre circulando e não caia na tentação de tentar nocautear a campeã com um só golpe, evitar o clinch deve ser principal objetivo. Por fim, Ronda nunca foi chutada na perna seguidamente, algumas lambadas efetivas podem tirar a mobilidade da norte-americana, o que ajudaria no plano de mantê-la longe.

Bater no corpo de Ronda pode render frutos

Por fim, se eu fosse a Bethe, não pensaria muito antes de desistir caso fosse pego em uma chave de braço. Ronda não é das pessoas mais equilibradas e não acho improvável que ela tente quebrar o braço da brasileira.

Demais lutas. Para começar, acho estranho que Demian Maia vs. Neil Magny esteja no card preliminar, enquanto o card principal terá Antônio “Pezão” Silva vs. Soa Palelei. Dica para quem curte MMA feminino, a vencedora do confronto entre Cláudia Gadelha e Jessica Aguilar deve ser a próxima desafiante ao título peso palha, que hoje é da polonesa Joanna J?drzejczyk (Joanna para os íntimos, porque escrever esse sobrenome é quase impossível, imagina falar). O gigante holandês Stefan Struve tenta recolocar a carreira nos trilhos contra o quase aposentado Rodrigo “Minotauro”, enquanto os muito longe de seus auges Maurício “Shogun” e Rogério “Minotouro vão reeditar batalha épica que aconteceu no Pride em 2005 – seria bom que o perdedor pendurasse as luvas.

O evento no Rio de Janeiro também terá dois combates válidos pelas finais do TUF Brasil 4, edição que foi gravada em Las Vegas. Pelos leves se enfrentarão Glaico França e Fernando Bruno, enquanto pelo galos Dileno Lopes encara Reginaldo Vieira. O campeão do TUF 3 Warlley Alves tenta deslanchar em confronto contra Nordine Taleb. Outros ex-integrantes de TUFs Brasil, Hugo Wolverine Viana e Vitor Miranda estão escalados, eles lutam contra Guido Canetti e Clint Hester.

P.S.: Como não poderia deixar de ser, Iuri “Marajó” vai participar desse UFC Rio, ele enfrentará Leandro Issa.

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