UFC 182: Daniel Cormier é o homem a bater Jon Jones

O campeão meio-pesado do UFC terá em sua oitava defesa de cinturão o desafio de lidar com um wrestler superior.

Fernando Arbex

29 de dezembro de 2014 | 10h43

O título do texto é em parte provocativo e é insensato afirmar que o desafiante da luta principal do UFC 182 é o favorito a vencê-la. Jon “Bones” Jones é atualmente, peso por peso, o melhor lutador do mundo por uma série de razões e a lógica sempre será de ele sair com o braço levantado ao fim de qualquer combate contra um meio-pesado. A questão é que estilos fazem lutas e possivelmente um elemento do jogo de Daniel “DC” Cormier será a chave para que o cinturão mude de mãos no dia 3 de janeiro de 2015.

Esse elemento é o wrestling. Jones tem sua anômala envergadura de 2m15 e é perfeito no modo de usá-la por méritos. Há lutadores em outras divisões incapazes de colocar em prática esse tipo de vantagem física, portanto o campeão da LHW merece aplausos, não questionamentos. Mas o ponto é que não é impossível encurtar a distância contra Jones, o problema é quando isso acontece.

Jones se esquiva do overhand de Shogun e o derruba na sequência

“Bones” foi capaz de derrubar quem quis dentro do UFC, fosse tomando a iniciativa ou utilizando alguma técnica de contra-ataque quando tentaram golpeá-lo. Para ser justo, Alexander Gustafsson defendeu dez de 11 entradas de quedas no UFC 165, segundo as estatísticas oficiais, e só deitou contra o tablado no quinto round, já exaurido e machucado pela dura batalha. Coincidência ou não, o sueco foi o páreo mais duro do campeão até aqui, evidentemente também porque se valia de uma envergadura respeitável (2m01), ótima movimentação lateral dentro do octógono e extrema habilidade em encurtar a distância para desferir socos.

Cormier tem boa técnica de boxe, mas não tanto quanto Gustafsson, e apresenta uma envergadura limitada (1m84). Porém, o desafiante ao título foi um atleta olímpico do mais alto gabarito no wrestling e aparentemente é o único na categoria a levar vantagem nesse aspecto contra o campeão. Quarto colocado na divisão até 96 Kg nos Jogos de Atenas de 2004, “DC” capitaneava a equipe norte-americana quatro anos depois, mas não disputou a Olimpíada de Pequim porque foi hospitalizado com falha renal às vésperas da competição. Tivesse nascido 20 anos antes e competido quando ainda existia a União Soviética – que em 1991 se dividiu em 15 países, muitos deles potências da modalidade atualmente -, é provável que Cormier conquistasse uma medalha, inclusive a de ouro em 1984, quando o bloco soviético boicotou a edição em Los Angeles.

Slam aplicado por Cormier em competição de freestyle wrestling

“DC” é forte, é ágil, usa muito bem seu striking para fintar antes de tentar a queda e passou de passagem pela concorrência que enfrentou na HW do UFC e do Strikeforce, derrotando atletas altos e com grande envergadura, como Josh Barnett e Antônio “Pezão” Silva. Nenhum deles hábeis em utilizar seus respectivos alcances com a destreza de Jones e essa é exatamente a questão. Se conseguir encurtar a distância, o que não é fácil, Cormier é em tese capaz de derrubar o oponente ou até controlá-lo contra a grade, como fez contra Frank Mir, e Cain Velásquez (parceiro de treino na academia AKA) fez duas vezes contra Junior dos Santos.

Cormier encurta a distância combinando jab e direto, depois arremessa Barnett no chão

Também por nunca ter enfrentado um wrestler desse gabarito, não se sabe quais medidas preventivas serão tomadas por Jones para esse duelo e elas podem deixar buracos. Se mostrar receio em chutar, o campeão terá anulado sua maior virtude, e pelo menos desde que o wrestler Kevin Randleman nocauteou o kickboxer Mirko Cro Cop, em abril de 2004, sabe-se que a ameaça das quedas abre espaço para golpes, inclusive Anderson Silva já sofreu desse mal contra Chael Sonnen e Chris Weidman. Como visto no gif anterior, Cormier encurtou a distância com muita eficácia. Contra Barnett, os golpes fintaram a entrada nas pernas, enquanto contra “Pezão” foi o contrário. É bom que Jones não brinque com o boxe e o peso das mãos de seu oponente – e que o árbitro da disputa coíba as já tradicionais dedadas no olho por parte de “Bones”.

Cormier combina jab com left hook e termina o serviço com o upper

 

 

Jon Jones é o homem a bater Daniel Cormier

Como dito antes, “Bones” utiliza sua envergadura como ninguém. Seu arsenal apresenta todo tipo de chute, entre eles aquele pisão que força a articulação do joelho.

Jones chuta o joelho a mantém Belfort distante

 

O agravante é que o pouco trabalho que Cormier teve contra Mir foi quando este chutava. O ex-campeão dos pesos pesados do UFC treinava com Jones na academia Jackson MMA quando aquele combate aconteceu, em abril de 2013, e é mínima a chance de os treinadores Greg Jackson, estrategista nato, e Mike Winkeljohn, mestre de exímios chutadores (como Donald Cerrone, Carlos Condit e o próprio Jones), não terem notado.

Mir ataca o corpo de Cormier com um chute e uma joelhada

 

A própria suposta vantagem de “DC” no wrestling é duvidosa. Apesar de existir no papel, MMA é um esporte diferente e nele a prática não necessariamente respeita a teoria. Jones levou vantagem na disputa por quedas e no clinch contra lutadores fortes nessas áreas (Matt Hamill, Vladimir Matyushenko, Ryan Bader, Rampage Jackson, Rashad Evans, Chael Sonnen e Glover Teixeira). É mais prudente que mantenha a distância, mas “Bones” é muito bom wrestler e isso não deve ser ignorado, inclusive porque ele combina takedowns clássicos com rasteiras e técnicas pouco comuns.

Jones controla Rashad no clinch e o derruba com uma rasteira

 

Outro fator é que o campeão é criativo em todos os setores do combate e muito mais capaz de terminá-lo do que seu rival, numa luta de cinco rounds isso é sempre uma vantagem. Quando tudo parecia perdido contra Gustafsson, Jones tirou da manga uma cotovelada giratória, virou o quarto assalto e em seguida venceu o duelo nos pontos ao levar a última parcial. Por fim, imaginando um cenário em que a luta vá até o final, Cormier terá de usar suas habilidades para vencer pelo menos três rounds, talvez só o wrestling não seja suficiente. Repito, o boxe do desafiante é bom, o difícil será usá-lo com eficiência.

A cotovelada giratória de Jones foi determinante para que ele vencesse Gustafsson

 

Aproveitem

O vale-tudo (hoje conhecido como MMA) em sua forma moderna existe desde 1993, portanto estamos tratando de um esporte ainda em desenvolvimento. Mesmo no card principal de eventos vendidos em PPV pelo UFC, aqueles que deveriam oferecer a nata do que há disponível no mercado, assistimos combates medíocres e lutadores dependentes de conceitos já ultrapassados. Porém, Jones vs. Cormier projeta o embate de dois atletas capazes de misturar artes marciais com excelência. Em qualquer período histórico e local, nenhum homem desarmado teria chance contra um desses dois em um confronto direto, com exceção de Gustafsson e dos pesos pesados Velásquez, Cigano e Fabrício Werdum, além do hoje aposentado Fedor Emelianenko em seu auge. Aproveitem o que pode ser o início de uma trilogia épica, que deve ser acelerada se o meu palpite estiver correto: Daniel Cormier vence na decisão dos juízes.

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