UFC 187 parte 2: Chris Weidman, o caçador de brasileiros

UFC 187 parte 2: Chris Weidman, o caçador de brasileiros

O lutador campeão dos médios do Ultimate é subestimado no Brasil, apesar de já ter provado sua qualidade

Fernando Arbex

21 de maio de 2015 | 11h20

Leu a primeira parte dessa série de posts sobre o UFC 187, quando projetamos o que devemos ver na disputa pelo título meio-pesado entre Anthony Johnson e Daniel Cormier? Espero que sim. Vamos agora para o segundo capítulo, no qual começaremos a falar da contenda pelo cinturão peso médio, entre o campeão Chris Weidman e o desafiante Vitor Belfort. O texto de hoje será mais especificamente sobre o atleta norte-americano, que neste sábado tentará fazer nova vítima brasileira.

Chris Weidman é o homem a ser batido na divisão dos médios do UFC. Crédito da foto: David Becker/AP

Chris Weidman é o homem a ser batido na divisão dos médios do UFC. Crédito da foto: David Becker/AP

Perigo. Longe de mim querer ensinar como os outros devem trabalhar, o relato que farei a seguir é desprovido qualquer de juízo de valor. É característico do público brasileiro torcer pela nação, não pelo indivíduo, por isso a cobertura esportiva é pautada em cima do patriotismo. A construção de ídolos atrai a atenção da audiência. No nosso futebolístico País, outras modalidades só interessam em caso de vitórias, títulos e medalhas olímpicas. Exemplo muito claro disso é o automobilismo, a F-1 gradativamente deixou de ser febre quando ficou claro que não haveria piloto à altura de Ayrton Senna (o que não é demérito de seus sucessores, ninguém é obrigado a ser gênio).

Essa abordagem de parte da mídia, porém, nem sempre é saudável. Em 2007, o nadador Thiago Pereira tinha o quarto melhor tempo do mundo em sua melhor prova, os 200 metros medley. O volta-redondense ganhou seis medalhas de ouro nos Jogos Pan-Americanos daquele ano, no Rio, transformando-se imediatamente em ídolo nacional. Mas pouco foi explicado que não havia parâmetro nenhum para supor que ele conquistaria uma medalha olímpica um ano depois, já que seus rivais diretos não participaram da edição do torneio que o consagrou. Nos jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, Thiago Pereira não conseguiu mais do que um quarto lugar. Fracassou? É claro que não.

Ufanismo cego esconde erros e dificulta a identificação de perigos em potencial. E em julho de 2013 nenhum peso médio representava mais perigo a Anderson Silva do que Chris Weidman. O norte-americano era inexperiente? Sem dúvida. O “Spider” era o favorito? Sim, com justiça. O desfecho da luta principal do UFC 162 foi inesperado? Com certeza. Mas a maior parte da mídia especializada, brasileira ou não. que analisou com isenção aquele combate sabia previamente que o cinturão podia mudar de mãos.

Mudou porque Weidman é um competidor formidável. Ele é um wrestler muito gabaritado, tem um jiu-jitsu de alto nível, é forte fisicamente para a categoria, é alto, tem uma envergadura respeitável e ótimos timing e noção de distância, tanto para buscar a queda quanto para trocar golpes em pé (Mark Muñoz que o diga). Era possível imaginá-lo derrubando e finalizando Anderson, as defesas de queda e de finalização eram a brechas a serem exploradas contra o ex-campeão. Que o brasileiro seria nocauteado era difícil de prever, mas é sabido que strikers com medo de serem derrubados ficam vulneráveis pelo menos desde que Kevin Randleman colocou Mirko “Cro Cop” para dormir em 2004, em uma luta do Pride.

“Gracinhas”. Não, Anderson Silva não menosprezou seu rival naquela oportunidade. Atuar de guarda baixa era um recurso que o “Spider” necessitava utilizar para evitar que Weidman o levasse para o chão repetidamente, foi assim que ele aprendeu com sucesso a se defender de entradas de queda. O ex-campeão precisava confiar em suas esquivas e em seu poder de absorção de golpes, não era questão de escolha. Por fim, as provocações também faziam parte de seu jogo de contra-ataque, era conveniente para ele que o adversário tomasse a iniciativa, por isso os chutes nas pernas e as brincadeiras.

O previsível Griffin não foi páreo para Anderson Silva

Mas Weidman era melhor do que Forrest Griffin, que falhou miseravelmente em acertar Anderson no UFC 101, em 2009, tentando alternar socos telegrafados com as mãos esquerda e direita. Reparem no gif abaixo, o algoz do brasileiro em um determinado momento erra um soco de direita, mas tenta logo em seguida um ataque com o verso da mesma mão. Esse movimento quebrou a esquiva do “Spider” e o deixou exposto ao nocaute.

Nocaute de Weidman em Anderson não foi fruto de sorte

Weidman ganhou o primeiro round e nocauteou Anderson no segundo. Derrubou, tentou a finalização e não correu perigo quando se levantou. Seu único problema foi ter sofrido muitos chutes nas pernas. Na revanche marcada para o UFC 168, o norte-americano mais uma vez venceu o assalto inicial, ele conseguiu de novo quedar o brasileiro, inesperadamente aplicou um knockdown de um golpe que veio do clinch (especialidade do “Spider”) e machucou o campeão no ground and pound. No segundo round, a única falha que Weidman havia apresentado cinco meses antes não existia mais: bloqueou dois chutes do oponente, em um deles aconteceu a grave lesão de Anderson.

Antes do bloqueio que quebrou a perna de Anderson, Weidman já havia evitado ser chutado na perna

O novo campeão bateu o antigo duas vezes porque mereceu. Ganhou os quatro rounds que eles disputaram. Também mereceu vencer Lyoto Machida, na primeira vez em que o carateca não achou espaços para se movimentar livremente pelo octógono. “O Dragão” se viu repetidamente enquadrado contra a grade, fosse para sofrer socos, chutes ou entradas de quedas. Antes de ser campeão, Weidman venceu outro brasileiro, no caso Demian Maia, em uma das poucas lutas em que um adversário teve coragem de levar o paulistano para o chão  – sempre nos fins dos rounds, é verdade, mas ainda assim impressionante. Também vale lembrar que o norte-americano aceitou fazer esse combate com apenas 11 dias de aviso prévio, inclusive ele foi para o hospital depois da pesagem oficial do evento, por causa do brusco processo de desidratação no pouco tempo disponível.

Belfort. É claro que o campeão dos médios tem buracos em seu jogo. Por ser um atleta de grande porte para a categoria e ter que cortar muito peso para atingir o limite de 83,9 Kg dos médios, o gás dele costuma acabar antes do fim dos combates. Além disso, ele se expõe ao tentar vencer no ponto forte de seus rivais – não é a ideia mais prudente do mundo aceitar lutar em pé com Anderson e Machida. Como falaremos disso com mais calma nesta sexta-feira, Belfort terá nos rounds iniciais sua chance de vitória, se o campeão optar pela área do striking.

Volte e leia o capítulo final, sobre o enigma Vitor Belfort.

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