Vitor Belfort luta contra Dan Henderson e a mancha do doping

Vitor Belfort luta contra Dan Henderson e a mancha do doping

'O Fenômeno' tem significativo histórico de problemas com o controle antidoping e o caso mais recente foi revelado em setembro

Fernando Arbex

06 de novembro de 2015 | 13h20

Vitor Belfort e doping são assuntos que já foram abordados neste blog, por isso fica aqui a bibliografia necessária para esta leitura: “O enigma Vitor Belfort” e “Anderson Silva come espinafre“. Para quem está ansioso para ver neste sábado, na atração principal do UFC Fight Night 77, o terceiro confronto do atleta carioca contra Dan Henderson, o que vai desempatar o placar de 1×1 entre os dois, dá para traçar um rápido panorama do combate que será realizado no Ginásio do Ibirapuera.

Belfort no início do tratamento do TRT e depois

Belfort na época do começo do TRT, em fevereiro de 2011, e dois anos depois de ter iniciado o tratamento

“O Fenômeno” é um lutador explosivo e muito perigoso no primeiro assalto; ele gosta de atacar com sequência de socos em linha reta e de uns anos para cá vem nocauteando rivais com chutes na cabeça; tem deficiências em defender quedas e quando está de costas para o chão, também é comum vê-lo cansar rapidamente nos combates; acredito que ele vá vencer “Hendo” porque o norte-americano caminha para se aposentar (tem 45 anos contra 38 do oponente), já não apresenta ter um wrestling de ponta (principal fator que lhe garantiu a vitória contra o brasileiro em 2007), não é mais considerado impossível de nocautear (como Belfort mostrou em 2013) e costuma ter problemas contra strikers canhotos. Basicamente, só a “H-Bomb” salva – e ela não pode ser descartada, como vimos no post anterior.

“Hendo” é imprudente e não mais “inocauteável”

Esteroides. Essas considerações feitas, vamos ao que interessa. Não que Belfort vs. Henderson III seja uma luta irrelevante – bem, para o quadro atual da categoria dos médios ela de fato é, mas provavelmente será divertida de se assistir e é sempre bom ver o desfecho de uma trilogia entre duas lendas do esporte. O ponto é que provavelmente ambos vão se aposentar sem disputar de novo um título do Ultimate e eu prefiro tocar em outro assunto: a dificuldade que o Belfort tem em não ser pego em exames antidoping.

Eu já disse nesse blog a minha opinião sobre o uso de anabolizantes em esportes de alto rendimento (o link do post está no primeiro parágrafo). Acredito, sim, que a maioria burla o sistema e que a porcentagem é maior no MMA, assim como também acho que há uma campanha de desinformação quanto a esse tema. Não, essas substâncias não levam uma pessoa à morte certa, na verdade, no último levantamento que o DATASUS fez, em 2012, apenas três haviam falecido em razão do consumo de hormônios e derivados – porque é óbvio que o abuso é prejudicial à saúde, mas três óbitos anuais não é um problema em um país que libera que se fume cigarro.

Vitor Belfort, Anderson Silva e outros muitos foram pegos em exames antidoping porque… eles se doparam. Wanderlei Silva, por exemplo, fugiu de um teste surpresa, agora ele enfrenta problemas em voltar a atuar porque a Comissão Atlética de Nevada o baniu do esporte para fazê-lo de exemplo – o curitibano recorreu da sentença. O MMA caminha – pelo menos nos Estados Unidos – para aumentar o rigor contra o uso de esteroides, o que por um lado é bom, porque coíbe o abuso indiscriminado, mas o problema da hipocrisia em torno do assunto continuará existindo e a maioria dos competidores seguirá conseguindo burlar o sistema de alguma forma, como os regulados pela Wada conseguem.

Belfort na época do TRT e depois da proibição

Belfort na época do TRT e depois da proibição

Fichado. Se atualmente até testes surpresa são feitos, Belfort conseguiu ser flagrado em 2007, época em que atletas só eram examinados nos Estados Unidos nos dias dos eventos. Tudo bem (?) que “O Fenômeno” fazia a transição do Japão, onde havia zero controle, para os EUA, é possível que ele estivesse “desacostumado”. Ele ignorou a punição e foi competir no Reino Unido, voltou para o Ultimate só em 2009. Só que em 2011 ele começou a fazer o TRT, tratamento de reposição de testosterona que supostamente era proibido para quem já havia apresentado resultado positivo para anabolizantes. Por que o UFC proibiu a prática para todos? Porque o carioca, em fevereiro de 2014, mostrou estar com índices da substância acima do que era permitido. Coincidência ou não, durante o período em que o TRT era liberado, o lutador ostentou um físico impressionante e colecionou nocautes.

O item mais inacreditável da extensa ficha corrida de Belfort foi revelado pelo site Deadspin em setembro: ele atuou com seu nível de testosterona acima do permitido no UFC 152, em Toronto. Para quem não se lembra, foi nessa luta que o brasileiro quase derrotou Jon Jones com uma chave de braço, mas acabou tomando uma surra na sequência e perdeu por finalização. O mais curioso é que esse combate foi em setembro de 2012, para o qual o carioca foi escalado em cima da hora após lesão de Dan Henderson. O Ultimate e o órgão regulador do Canadá guardaram esse segredo durante três anos e a verdade só foi revelada por causa de um e-mail enviado para um destinatário errado. As partes envolvidas não comentam o caso, talvez porque não haja o que comentar.

Físico de Belfort contra Jones impressionava

Físico de Belfort contra Jones impressionava

Vença ou perca no sábado, ganhe ou não de novo um cinturão, Belfort tem manchas em sua carreira. Não se trata de um pobre atleta que desafia um sistema de fato hipócrita, mas de alguém que deliberadamente burlou em várias ocasiões regras estabelecidas para que pudesse levar vantagem. É triste que “O Fenômeno” e Anderson Silva, os dois representantes mais midiáticos do MMA no Brasil, tenham lidado tão mal com essa questão e prejudicado a imagem do esporte.

Belfort em seu início de carreira, quando não havia antidoping

Belfort em seu início de carreira, quando não havia antidoping

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