16/III/13. Melbourne. Diário de Bordo. Capítulo 1.

liviooricchio

16 de março de 2013 | 13h44

16/III/13
Melbourne

Olá amigos.

Passa da meia noite para mim, aqui em Melbourne. Não chove nesse momento. Há uma claraboia no meu quarto no hotel, no bairro Saint Kilda. Até há pouco podia ver o vidro molhado. Ontem na sala de imprensa colocaram no mural o comunicado da meteorologia. Dizia 80% de chance de chover durante a classificação e a corrida. Mas hoje mudou: 90% de possibilidades de não chover ao longo das 58 voltas da prova.

Não entendi nada. Mas gostei da notícia. Portanto, a definição do grid, às 11 horas daqui, 21 de sábado aí, pode ainda ser com pista molhada, mas a corrida, bem pouco provável. Ótimo. Se for mesmo assim teremos uma visão mais precisa de como estão as equipes. Coloquei no ar hoje um post abordando a superioridade da Red Bull nos treinos livres de sexta-feira. Não creio que será como ouvi amigos afirmar aqui, que o campeonato já acabou antes de começar.

Faz tempo que não chego ao meu quarto no hotel, tomo um gostoso banho, sento na cama com o travesseiro nas costas, estendo as pernas, apoio o laptop e escrevo para o blog. Para mim, o blog é um instante de lazer, não uma atividade profissional, e nos fins de semana de competição as pessoas não têm ideia de como nossa vida é regrada. Há hora para tudo. E cronometrada!

Temos de planejar a hora de estar no circuito, contando com o importante tempo necessário para chegar. Escolher as coletivas nas agendas das equipes, por vezes as entrevistas são pessoais, a programação do evento, o horário para se alimentar, onde, o tempo destinado a conversar com integrantes das equipes no paddock, contatar a redação, planejar a pauta e, depois, no meu caso, hoje apenas imprensa escrita, redigir.

Saí mais cedo da sala de imprensa do circuito Albert Park. Passo por uma pequena parte do paddock, atravesso uma área do parque e atinjo o portão 1, na Canterbury road. Paralela a essa avenida passa uma linha de bonde, quase um trem, separada por uma tela, pois as distâncias entre as estações são grandes. Espero o bonde Saint Kilda e por conta da credencial permanente da FIA não preciso pagar.

É um deslocamento rápido, uns 8 minutos, apenas. E na própria estação onde desço, com as plataformas totalmente descobertas, há um grande supermercado. Amo visitar mercados. Mas como estou sem tempo para ir ao mercado de Melbourne, localizado longe daqui, satisfaço-me com o supermercado. Os mercados costumam revelar muito da cultura de um povo.

Aprende-se com o que eles comem, a qualidade e como apresentam seus alimentos, os preços, podemos ver como seus cidadões reagem ao analisar um produto, qual a natureza do consumidor, limpeza, organização, aparência e tantas outras coisas.

Ah, claro, o destaque que dão ao setor de chocolate. É o meu primeiro parâmetro para dizer a mim mesmo se gosto ou não daquele povo. Já cheguei a ficar com bronca de uma nação por causa do descaso a esse setor essencial à sobrevivência dos homens. Se vocês fossem dependentes químicos de chocolate entenderiam melhor minha escala de prioridades.

E o que o faz pensar que não trago comigo no mínimo um pequeno estoque de chocolate para me garantir? Aqui mesmo, neste mesmo hotel, há alguns anos, terminei de escrever tarde da noite quando, de repente, os componentes do chocolate já haviam sido metabolizados pelo fígado e os sensores do sistema nervoso central se manifestaram. Como num vício.

Não tive alternativa a não ser vestir calça, camiseta e ir a uma loja de conveniência num posto de combustível, a uns 12 minutos de caminhada do hotel, apenas e tão somente para admirar lentamente sua coleção de chocolates numa prateleira, ainda que insignificante na variedade, mas grandiosa como uma plantação de cacau para mim por conta do meu estado. Regressei lentamente ao hotel saboreando um Cadbury ao leite, o mais simples dos chocolates, dos mais importantes naquele instante. O céu descera à Terra.

Já havia me impressionado quarta-feira quando cheguei e fui a outro supermercado, maior, 15 minutos distante do hotel, para criar o meu kit de sobrevivência. Tenho o hábito. Compro pequenas garrafas de água para manter no quarto de hotel, bem como alguns biscoitos, de preferência os de trigo e sem açúcar, apenas para não deixar o estômago vazio muitas horas, como é comum numa cobertura da Fórmula 1.

Entre almoçarmos nas equipes ou na nova referência de alimentação do evento, o motorhome da Pirelli, do artista cozinheiro Fabrizio, já estrategicamente meu amigo, e bem mais tarde jantarmos, quando possível, nem sempre dá, muitas horas vão se passar. Lembre-se que preventivamente tenho comigo um estoque de chocolate.

Hoje almocei na Ferrari, junto da Ana e do Titonio, mãe e pai de Felipe Massa, mais Galvão Bueno e Reginaldo Leme. Tudo muito rápido. Massa veio conversar rapidamente conosco porque sua agenda em fins de semana de corrida é ainda mais apertada que a dos jornalistas. Os pilotos têm reunião para tudo. A última começa, imagine, às 19 horas.

Comi uma bela pasta, como sempre, orecchietti, com molho de tomate, produzida pelo grande Vincenzo, cozinheiro chefe da Ferrari. Que competência! Das pastas às carnes, passando pelos doces. Ainda vou ter tempo para crescer nesse hobby. Você já deve ter reparado os meus ídolos maiores na Fórmula 1, não? O Fabrizio da Pirelli, o Vincenzo da Ferrari… todos cozinheiros.

Mas eu falava do supermercado. Amigos, se quando regressei ao Brasil, em novembro, fiquei assustado com os preços de quase tudo, aqui em Melbourne causaram-me pânico. Para um cidadão que reside na França fazer uma afirmação dessas é porque a coisa é feia. E é mesmo. Venho a este país desde 1991, já passei férias aqui, e é adorável. Mas a cada edição do GP que para cá me desloco, nos últimos anos, impressiona-me mais e mais a escalada dos preços.

Posso dar nome aos bois. A Austrália tem o segundo maior rebanho ovino do mundo, 100 milhões de ovelhas e carneiros, perde apenas para a China, 160 milhões. Mas sabe quanto custa um quilo e carne de primeira de carneiro aqui? A bagatela de 39 dólares australianos (AD), ou 32 euros (E) ou 75 reais (R$). Não há erro algum, meu senhor, 75 reais. Isso por estar na terra da ovelha.

Aliás, as sheep skin (pele de carneiro) que você pode comprar aqui são absolutamente extraordinárias. Mas custam também, pode ficar tranquilo. No aeroporto não é referência, verdade, mas começam com AD 120 ou 100 euros, 275 reais, as mais simples.

Podemos ir adiante. Água, é água. Uma embalagem de 1,5 litro, como é padrão mundial, hoje, varia de 1,5 AD, a mais simples, a 4,80 AD algumas mais sofisticadas. Um produto médio, 2,3 AD, ou 2 euros ou 5,4 reais. Cada garrafa. Em Nice, uma embalagem com seis unidades de 1,5 litro, da marca Evian, Vittel, Badois, por exemplo, de excepcional qualidade, pago entre 4 e 4,50 euros, ou 11 Reais. Repito, seis garrafas, senhores.

Outros exemplos: 1 kg de azeitona a granel, de aparência bonita, 33,99 AD. Um kg de salame, 22,99 AD, um kg de salsicha, 8,99 AD. Ah, os queijos. Esses são para você chamar as pessoas ao redor da geladeira e promover uns minutos de meditação. Variam de 40 a 60 AD o quilo. Mas o que é isso, produzidos com leite de vacas da criação do presidente do Senado brasileiro?

De manhã saio do hotel e caminho cerca de 12 minutos até a estação de bonde para ir ao circuito. Na mesma calçada que tangencia o Albert Park, onde está meu hotel, há o que chamamos na França de Boulangerie, onde adquirimos pães e doces. Não pense, por favor, que na França toda boulangerie é a dos sonhos. É um mito que não confere com a realidade. Boas mesmo são poucas. Diria excelentes.

Um parêntese. Na França, como em toda a Europa, a mão de obra é impensavelmente cara. Há poucos funcionários nas lojas, postos, restaurantes, boulangeries. A mesma pessoa que lhe pergunta o que deseja é a que vai cobrar. Pois as mesmas mãos que antes manusearam o dinheiro do cliente anterior serão as que vão abraçar o seu pão. Sem a menor cerimônia e consciência do que fazem, com toda cultura e escolaridade que possuem.

E depois de receber o meu dinheiro atenderão o freguês seguinte, dando sequência ao ciclo de contaminação.

Eu dizia da boulangerie próxima do meu hotel. Um croisant, bem feito, verdade, sem ser excepcional, eu os aprecio e apurei meu paladar, custa 3,5 AD ou 3 euros ou 8 reais. OK, período do GP da Austrália e eles aproveitam. Digamos, então, 3 AD, não é menos que isso, ou 2,4 euros ou 6 reais. Na França, sempre a minha referência, 1 euro a unidade. Quase sempre de qualidade elevada.

Mas você será servido pelas mãos polivalentes do balconista, lembre-se para não se chocar. Uma ocasião não me pareceram tão frescos e a senhora, para comprovar sua produção recente, o apertou nas mãos. E orgulhosa colocou num saquinho para me entregar. Você acredita que dei uma mordida, encostei minha bicicleta e joguei num lixo da Promenade des Anglais, a avenida da praia de Nice.

Criei todas as minhas referência de quilometragem na orla com o odômetro do carro para saber com precisão, depois, quanto andei a pé ou pedalei. Meu nível é baixo, por favor, hein? Não vai pensar que sou um atleta que seria uma mentira tão extensa como muitas das contadas pelo presidente do Senado brasileiro. Para se ter uma ideia da dimensão. A diferença é que as minhas serias inócuas e as do gângster compromete programas de saúde e educação.

Sabe o que seria necessário para um indivíduo como esse e o presidente da Câmara Federal, dentre tantos outros da classe politica, agentes de extrema virulência para os verdadeiros interesses do Brasil? O destino dos líderes franceses em 1789. Não há outra saída para essa gente. Soluções moderadas, diante do canceroso corporativismo brasileiro, não levam a nada. A história está aí para demonstrar. Aliás, o presente, afinal se mantêm no cargo contra o desejo de quase 180 milhões de cidadãos, a maioria esmagadora de homens do bem.

Está ficando tarde. Vou ler um pouco antes de dormir. O que estou lendo? Primeiro, relendo: Big Bang, de Simon Singh. Na realidade é um livro de Física, a ciência Física. O autor explica com excelente didática como se chegou à teoria do Big Bang, desde as primeiras teorias a respeito do universo na Grécia antiga. Essa é uma área que me interesso. Há capítulos do livro, como o da espectroscopia, que preciso reler.

Quando regressar à Europa deverei ir a Cascina, próxima a Pisa, na Itália, onde está a base do projeto ítalo-francês Virgo. Trata-se de um ramo novo da astrofísica, destinada a estudar as ondas gravitacionais que chegam à Terra, decorrente do deslocamento de corpos, principalmente de elevada massa, no espaço. A análise dessas ondas pode ajudar a responder muitas perguntas da cosmologia.

Hoje você pode se informar sobre o universo de várias maneiras. A começar pela simples observação a olho nu, único recurso de nossos antepassados. Podemos usar telescópios óticos. Agora vai começar a ficar diferente: como os corpos emitem radiação eletromagnética não apenas na forma de luz visível, podemos captar emissões na faixa do comprimento das ondas de rádio, os radiotelescópios, na faixa das variações do infravermelho, da luz visível, claro, nos telescópios óticos, e nas faixas de menor comprimento de onda, raios X e os temidos raios gama.

Os buracos negros e explosões estelares, por exemplo, emitem radiação de alta energia, principalmente nessas duas últimas faixas, captadas pelos observatórios espaciais específicos, como do projeto Chandra, da Nasa, destinado a estudos de emissões em raio X. Esse é outro capítulo. Os observatórios de ondas gravitacionais representam nova e poderosa janela para entender o universo. Mas até hoje ainda não conseguimos detectá-las, apesar de sabermos da sua existência desde Albert Einstein.

Por isso o projeto está sendo revisto e entrará em operação de novo em 2015. É esse centro de estudos que desejo visitar. Você viu de quantas maneiras podemos extrair informações do espaço?

Para produzir a reportagem que desejo preciso me instruir mais. Meu conhecimento tem de se estender para além do domínio de conceitos, apenas.

Amigos, a classificação para o grid do GP da Austrália amanhã, ou melhor, daqui a pouco deve nos revelar importantes informações. Estou bastante curioso, em especial porque acompanhei de perto toda a pré-temporada. Necessito estar no autódromo, ou no circuito, às 9 horas e já nos aproximamos das 3 horas. Boa noite. Vamos nos falar novamente de Bandar Baru Salak Tinggi? Descubra onde é para o nosso próximo encontro, pode ser?
Vamos ver como anda a sua capacidade investigativa.

Superabraço!

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