18 de março de 1977 – 18 de março de 2007: 30 anos sem o inesquecível José Carlos Pace

liviooricchio

17 de março de 2007 | 16h08

Há um ponto em comum dentre todos que falam, e se emocionam, ao lembrar José Carlos Pace: “Um grande piloto, mas, essencialmente, um grande homem.” Pace corria na mesma época que outro ídolo de milhões de brasileiros fazia enorme sucesso na Fórmula 1, Emerson Fittipaldi.

Mas havia uma relação especial entre Pace e a torcida. Era tão forte, tão única, que amanhã, 18 de março, 30 anos depois da sua morte, num acidente aéreo na serra da Cantareira, uma iniciativa tentará perpetuar, no autódromo que leva o seu nome, embora mais conhecido como Interlagos, parte de sua rica história.

“Temos muito material, o acervo de troféus, capacetes, macacões, nove volumes encadernados de publicações sobre sua vida profissional de 1972 a 1977”, diz Patrícia Pace, filha do piloto que competiu para Frank Williams, num March alugado, em 1972, John Surtees e depois para Bernie Ecclestone, de 1974 até falecer, em 1977, pela Brabham.

“Uma pesquisa está em curso para registrar em livro a trajetória de meu pai, patrocinada pela empresa Mahle, a ser lançado em outubro, data do aniversário dele (nasceu em 6 de outubro de 1944).”

Os dados obtidos nesse levantamento que busca aprofundar-se em tudo o que cerca a vida de um campeão como José Carlos Pace talvez possam ser disponibilizados à população que for Interlagos, sob a forma de uma exposição permanente. Os fãs do automobilismo poderiam conhecer, de perto, um pouco mais sobre a carreira de um herói.

“Esse material todo e alguns de seus carros, num local seguro, concebido para isso, no autódromo, seria a melhor forma de manter viva a sua obra”, explica Patrícia, disposta a conduzir o projeto. “Estamos tentando viabilizá-lo”, explica.

“O que assisti em Interlagos, em 1975, me impressinou. Depois de vencer o GP do Brasil, pela Brabham, arrancaram Pace do pódio e o carregaram nos ombros. Havia uma euforia capaz de colocá-lo em risco, tanto que foram obrigados a tirá-lo do povo e, às pressas, o isolarem num box, com as portas fechadas”, descreveu ontem, no circuito Albert Park, em Melbourne, Mike Doodson, jornalista inglês.

Foi a única vitória de Pace na Fórmula 1 nos 72 GPs que disputou. Mas quando corria parecia levar consigo um pouquinho de cada brasileiro. Cidadão de trato fácil, despojado, espontâneo, expressava-se com desarmante sinceridade. Esse carinho com a torcida o fez inesquecível.

“Bernie Ecclestone e sua esposa não me deixaram ir sozinha ao apartamento que eu vivia com o Zé, em Londres. Ele havia sido o último a estar lá, antes de viajar para o Brasil”, conta Elda Pace, ex-esposa. “Foi muito difícil para todos nós entrar lá e encontrar tudo como ele havia deixado.”

Apesar de não competir mais pela equipe de Frank Williams, o dirigente inglês não escondia sua admiração pelo piloto e o amigo. “Frank programou uma missa, na Inglaterra, e chamou quem podia. Mandou fazer um livro, com capa de couro, e deixou para que todos o assinassem na saída da igreja. Eu o tenho até hoje.”

Elda recorda em detalhes tudo o que envolveu a perda de Pace. “Voamos para Araraquara, na fazenda de um grande amigo do Zé, o Marivaldo Fernandes, outro grande piloto de automóveis. O Zé acabara de comprar seu avião. Como faltavam alguns documentos, não pudemos ir para lá como nosso avião.”

O piloto que levou Pace, a esposa e os filhos – além de Patrícia, hoje com 35 anos, há Rodrigo, de 32 – num dos aviões de Marivaldo teria de voltar para São Paulo. “Se conheciam há muito, eram próximos, não quiseram que ele regressasse de carro e o Zé o Marivaldo decidiram levá-lo com o mesmo avião para, em seguida, regressar à fazenda.”

Pousaram no Campo de Marte e como nem Marivaldo nem Pace tinham ainda brevê, os dois estavam estudando aviação, contrataram, na hora, um dos pilotos do aeroclube, Carlos Roberto de Oliveira, como é comum, para levá-los para Araraquara.

“Uma tempestade se formava e o Zé, me contaram, não queria decolar. Mas acabaram por convencê-lo”, diz Elda. Apenas 10 minutos depois de iniciado o vôo, em meio a densas nuvens, sem visibilidade para o piloto, o monomotor chocou-se contra as montanhas, em Mairiporã. “Hoje, 30 anos depois, ainda falamos no Zé, o que me deixa muito feliz”, diz Elda.

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