20 anos do bizarro GP do Canadá de 1991. Por seus personagens.

liviooricchio

09 de junho de 2011 | 23h51

10/VI/11

Livio Oricchio, de Montreal

Amigos, esse é o texto original que enviei ao Estadão. Mas, vocês sabem, na mídia impressa há severas limitações de espaço. O elevado custo do papel é um dos fatores limitantes. E hoje, claro, existe a concorrência da Internet. Mas esse é outro assunto. O que quero dizer é que me diverti com os personagens da história a seguir. Começa logo depois de eu falar de Hamilton. Espero que vocês aproveitem, como eu.

  Lewis Hamilton, da McLaren, entra no circuito Gilles Villeneuve, hoje, nos primeiros treinos livres do GP do Canadá, em paz. Consigo próprio, com seus colegas e os comissários desportivos da prova, dentre eles Emerson Fittipaldi, convidado da FIA. “Liguei para o Felipe (Massa) e pedi desculpas pelo ocorrido em Mônaco. Assim como conversei pessoalmente com Pastor (Maldonado).”

  O arrojo excessivo de Hamilton aos ultrapassá-los no principado, dia 29, fez com que ambos sofressem acidentes, enquanto ele próprio terminou em sexto. Agora, o que Hamilton, Massa e Maldonado desconhecem em detalhes, por serem bem jovens, é o que aconteceu na mesma pista, há 20 anos, no dia 2 de junho: o GP do Canadá de 1991 entrou para a história da Fórmula 1.

  Personagens daquele episódio no mínimo bizarro, senão engraçado, mas de conseqüências desastrosas para a equipe Williams, atuam ainda na Fórmula 1. É o caso do diretor-técnico da Toro Rosso, Giorgio Ascanelli, na época engenheiro de Nelson Piquet, na Benetton, e do então chefe dos mecânicos da Williams, Dickie Stanford, hoje coordenador da escuderia.

 Em rápidas palavras o que se passou: Nigel Mansell possuía um carro tão eficiente quanto o atual da Red Bull, do líder do Mundial, Sebastian Vettel. Não por coincidência foi concebido pelo mesmo genial projetista da Red Bull, Adrian Newey. Como Mansell tinha 50 segundos de vantagem para o segundo colocado, Piquet, o inglês percorreu os 4.430 metros (extensão do traçado em 1991) tão devagar que, de repente, depois do hairpin, a um quilômetro da bandeirada, o motor desligou.

  “Como poderia me esquecer, Nigel acenava para a torcida, na arquibancada, já se sentia o vencedor”, diz Ascanelli, rindo. O lado de Stanford: “Nós saímos dos boxes com a bandeira da Inglaterra, da Williams, e da França, do motor Renault, para celebrar a vitória, no muro dos boxes”, conta. “Estávamos a espera de Nigel e quem passou foi Nelson”, disse.

 “Olhamos um para a cara do outro. Disse ao rapaz do meu lado que não havia visto Nigel passar e perguntei se ele viu”, lembra Stanford. “Estávamos confusos. Quem, afinal, havia vencido? Poucas pessoas do time dispunham do rádio. Como chefe dos mecânicos eu não tinha.” Apenas Frank Williams, sócio da equipe, Patrick Head, sócio e diretor-técnico, e Peter Windsor, diretor esportivo, estavam na escuta de Mansell. “Foi vergonhoso para nós enrolar as bandeiras e regressar aos boxes. Senti uma sensação horrível de derrota humilhante”, conta, com expressão ressentida, Stanford.

  Ascanelli retira dos arquivos da mente mais dados: “Eu comecei a gritar no rádio, vai Nelson, vai Nelson, Mansell ficou no hairpin. E Nelson me pediu para parar de gritar porque já havia visto a Williams”. Na saída do hairpin os carros estão a 60 km/h, em primeira marcha. “Fizemos uma festa. Nelson nos fez rir muito. Não dá para falar tudo o que disse sobre Mansell e sua esposa. Deixou claro que ganhar daquela forma, em cima de Mansell, era especial.”

  O tema Piquet parece entusiasmar Ascanelli. “Eu estava começando na Fórmula 1, ou ao menos não tinha a experiência de Nelson, já três vezes campeão do mundo. Aprendi muito com ele. Nos meus 27 anos de automobilismo nunca convivi com alguém da sua capacidade técnica, inteligência. Dizíamos dele hard worker, hard player. Nelson trabalhava duro e ao mesmo tempo era possível se divertir muito. Não tinha papas na língua.”

  O motivo do abandono de Mansell no GP do Canadá de 1991 só poderia acontecer com ele mesmo, piloto tão veloz e espetacular quanto responsável por cenas até jocosas. Patrick Head, hoje diretor de engenharia da Williams, explica: “Nós o avisamos de que o FW14 (carro daquele ano) incorporava muitos sistemas eletrônicos e a bateria era muito pequena. Portanto, a função do alternador era essencial para mantê-lo ativo.”

  Não adiantou. Stanford comenta: “Os giros do motor foram tão baixos na última volta que quando pegamos o carro, depois, não havia a mínima carga na bateria”.

  O clima dentro da Williams era funesto. “Ninguém conversava com ninguém. Apenas Mansell procurou animar o grupo, dizendo que essas coisas acontecem… mas ninguém o ouviu. Como vencemos as quatro corridas seguintes, teríamos boa chance de sermos campeões com aqueles 10 pontos”, comenta Stanford. “Para não dizer que ganhávamos £ 25 por ponto por integrante e um prêmio especial pelo título”, recordou ontem. “Para aquele tempo era um bom dinheiro.”

  Ayrton Senna, com McLaren, abandonou o GP do Canadá de 1991. Curiosamente, com pane no alternador. Em Suzuka, Senna conquistaria o campeonato, seu terceiro, em cima de Mansell. A vitória de Piquet foi a última na carreira, assim como o título de Senna.

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