A Fórmula 1 em peso deseja outro presidente para a FIA

liviooricchio

03 de abril de 2008 | 13h37

Olá amigos:

Escrevo da sala de imprensa do circuito de Sakhir. Passei parte da tarde no paddock conversando com todo tipo de profissional da Fórmula 1 a fim de obter informações para montar o meu quebra-cabeça sobre o episódio Max Mosley.

Do que pude compreender, a coisa é mais ou menos assim:
Em setembro do ano passado, o jornal britânico Sunday Times passou a publicar reportagens criticando a postura do presidente da FIA, Max Mosley, claramente interessado em destruir Ron Dennis e atingir a McLaren. A equipe seria julgada por espionar a Ferrari.

Mosley considerou a crítica desmedida, sentiu-se atingido e entrou com uma ação legal contra a publicação. A direção do jornal, por sua vez, viu-se cerceada no seu direito de expressar o que seus articulistas pensam, no caso o ex-piloto Martin Brundle, e chamou os responsáveis por outro periódico do grupo, especializado nessas questões de escândalo, News of the World, e expôs a situação. O presidente da FIA deve ter um ponto fraco a ser explorado.

Há quem acredite que tudo foi minuciosamente planejado, haja vista que há imagens de Mosley antes mesmo de ele chegar na casa onde participou da orgia sadomasoquista. Se isso é verdade, a orientação de expor uma situação profundamente embaraçante para o dirigente foi cumprida com perfeição extrema.

Amigos, depois do que ouvi ainda há pouco não vejo por onde Mosley permanecer na presidência da FIA. Já existe uma guerra aberta entre as montadoras donas de equipe e o inglês. Hoje os dois lados trocaram acusações. Leia no site da revista autosport, por exemplo, o comunicado conjunto de Mercedes e BMW, da Toyota e da Honda. Há, também, a dura resposta de Mosley.

No início da noite aqui, estamos seis horas adiante em relação ao horário de Brasília, recebemos um comunicado da FIA para informar que Mosley convocou uma reunião extraordinária da Assembléia da entidade. Mas ao ler o segundo parágrafo vi o verdadeiro motivo da convocação: a sua invasão da privacidade. Não é para anunciar nada ou antecipar a eleição programada para outubro de 2009.

Está claro que Mosley não deseja ceder à pressão de tirá-lo do cargo. Mas não há como enfrentar grupos como Mercedes, BMW, Toyota, Honda e de quase todos na Fórmula 1. O comunicado da Honda é o mais duro por exigir uma postura dos demais integrantes da FIA em relação ao seu presidente.

Existem indícios de que Bernie Ecclestone também dá como perdida a tentativa de Mosley prosseguir na função. Paolo Bombara, amigo jornalista do semanal italiano AutoMotorSport, teria sido ameaçado por membro da FIA de retirada da credencial por ter republicado a capa da edição de domingo do News of the World, onde há imagens de Mosley na orgia. Em contrapartida, um integrante da Formula One Management (FOM), dirigida por Ecclestone, lhe teria garantido outra credecial se, de fato, for punido pela FIA de Mosley.

Mais importante do que quem irá substituir Mosley, já que sua saída parece ser questão de tempo, é qual será o rumo da Fórmula 1. Nunca é demais lembrar que decisões como congelamento dos motores, obrigação de eles resistirem a dois GPs e o câmbio a quatro, central única de gerenciamento eletrônico, monomarca de pneus, dentre outras medidas que padronizam equipamentos foram bancadas por Mosley. Contra os interesses, na maioria dos casos, das montadoras.

Um novo presidente na FIA, de maior representatividade dessas montadoras, deve levar a uma revisão do que viria aí no futuro e até do que já está em uso. Parece possível uma volta ao que existia antes dessas alterações conceituais. Em outras palavras, haver um pouco mais de liberdade para as equipes. As montadoras desejam isso. Dependendo que quem for assumir a FIA, as montadoras devem voltar a ter mais força na competição.

Por enquanto, é isso, mas há muito mais para conversarmos.

Abraços!

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