A Fórmula 3 precisa de ajuda. Tomara que nossos dirigentes compreendam sua necessidade.

liviooricchio

28 de janeiro de 2008 | 17h58

28/I/08

Apesar de não ter mais a força que já fez muita gente que gosta de automobilismo ir a Interlagos, ou outros autódromos do País, para assistir às corridas – enquadro-me nessa classe -, a Fórmula 3 ainda existe e é ou foi para vários pilotos brasieliros o primeiro contato com um verdadeiro veículo de competição.

Hoje recebi um e-mail com o calendário da temporada de 2008. Conversei, também, com Dárcio Santos, dono de uma equipe na categoria. Dárcio é tio de Rubens Barrichello. Foi através dele que Rubinho começou a correr de kart e, daí, evoluiu para a Fórmula Ford, Fórmula Opel Européia, chegou a disputar duas etapas da Fórmula 3 Sul-Americana, Fórmula 3 Britânica, Fómula 3000 e Fórmula 1.

Nunca contei isso. Comecei a viajar para o exterior como jornalista ao mesmo tempo em que Rubinho se transferiu para a Itália, em 1990, para viver na casa de Adriano Morini, da Draco, e correr na Fórmula Opel. Assim, o vi competir em todos esses campeonatos.

Voltando. Já reparou que sou mestre nesses “voltando”? Há novidades na Fórmula 3 este ano. A Vicar, por exemplo, empresa que promove, organiza e gerencia a Stock Car, não é mais a responsável pelo evento. Darcio me disse que os donos de equipes têm se reunido para encontrar os caminhos para levar a Fórmula 3 ser grande de novo.

Em 2008 serão 10 times e 17 carros, todos Dallara modelo 2001, equipados com motor Berta, argentino, de 2,3 litros, com capacidade de potência de 270 cavalos. É um pouco diferente do padrão mundial da Fórmula 3, cujos motores têm 2.0 litros e, com o limitador de admissão de ar, desenvolvem cerca de 240 cavalos.

Responda rápido: o Brasil, de pilotos como o campeão mundial de 1972 e 1974 na Fórmula 1, Emerson Fittipaldi, além do título na Cart, em 1989 e das duas vitórias nas 500 Milhas de Indianápolis, o Brasil de Nelson Piquet, campeão do mundo em 1981, 1983 e 1987, o Brasil de Ayton Senna, também campeão em 1988, 1990 e 1991, só para resumir, tem uma categoria de monopostos, em nível nacional, para receber quem sai do kart?

Resposta: Não!

Nessas horas me pergunto se a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) não pode, com investimento mesmo, por que não?, viabilizar a criação de uma competição que atenda a esses interesses. O que é feito com as taxas cobradas dos promotores de corridas de carro no Brasil? E olha que nãó é pouco.

Não estou colocando em dúvida o destino desse dinheiro, mas que outra prioridade pode haver no automobilismo se não a criação de uma competição para dar o País a chance de manter sua tradição de revelar pilotos, em especial pilotos de monopostos?

Sempre considerei excessivamente grande o salto do kart para a Fórmula 3. É muita potência e o ideal é que os meninos aprendam numa categoria um pouco mais lenta antes de terem contato com um monoposto tão refinado como o da Fórmula 3, onde um milímetro a mais ou a menos na altura do assoalho significa modificar drasticamente o comportamento do carro.

Mas a Fórmula 3 está aí. É só apagar a luz de largada que 17 monopostos podem realizar uma prova. Diante das dificuldades experimentadas este ano, sem uma empresa para promovê-la, a CBA poderia, por exemplo, arcar com algumas despesas operacionais: não cobrar taxa e bancar o trabalho de bandeirinhas, direção de prova, equipe de resgate, atendimento médico, digamos.

Não tenho procuração de ninguém tampouco me foi solicitado coisa alguma. A iniciativa de ver a CBA envolvida no projeto de facilitar a continuação da Fórmula 3 este ano é minha. Seria, sem dúvida, um grande bem para o automobilismo. E para o que é que existe uma entidade como a CBA se não, em essência, esse fim? Mais: não estamos falando em valores fora da realidade. A promoção fica por conta de seus participantes, agora reunidos.

Já que não temos uma categoria-escola, já que não temos um cidadão com capacidade para conciliar interesses e responsabilizar-se pela criação dessa competição-escola que necessitamos urgente, então no mínimo que se dê força para a Fórmula 3. Tomara que eu esteja errado: sem uma empresa profissional para promovê-la, os riscos de enfraquecer ainda mais são reais.

Se esse for o destino da Fórmula 3, os meninos que saem do kart só terão à disposição os campeonatos regionais de monopostos, sem a força, o apelo e capacidade de formação de pilotos de uma competição mais evoluída, ampla, nacional, de maior apelo na mídia.

Para o bem do automobilismo, torçamos para uma Fórmula 3 mais próxima do que já foi por aqui, de onde vieram Rubinho, Christian Fittipaldi, Ricardo Zonta, Helio Castro Neves, Lucas Di Grassi, Nelsinho Piquet, dentre tantos outros.

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