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liviooricchio

26 de junho de 2013 | 21h19

26/VI/13
Silverstone

Nos aproximamos da meia noite desta quarta-feira, dia 26, aqui em Wood Burcote, na Inglaterra. Cheguei no fim da tarde, procedente de São Paulo. Domingo tem o GP da Grã-Bretanha, do lado de onde estou, no circuito de Silverstone. Permaneci uma semana no Brasil e deparei com cenas, nem todas, por favor, que realmente me encheram de alegria. Por vezes, me sensibilizaram em extremos.

Para quem vive fora do País há bons anos, o que primeiro vem à mente ao nos deparamos com casos como a insensibilidade do senado, pode-se dizer da classe política, no episódio de Renan Calheiros, é quando a nação vai despertar.

Quero dizer, mostrar sua força, deixar claro a senadores, deputados federais, estaduais, vereadores e os cargos do executivo que não podem fazer o que bem entendem, na grande maioria das vezes para defender seus próprios interesses que quase sempre não são os da sociedade que, teoricamente, deveriam representar.

Uma abaixo assinado extensíssimo contra um indivíduo que tem todo tipo de crime nas costas provavelmente nem foi apreciado pelo senado. E assim Calheiros assumiu a presidência do senado. Está lá, o terceiro homem na hierarquia do Brasil, depois da presidenta e do vice.

Observei atento esses dias no Brasil o teor dos cartazes nas manifestações. Eles abordam de tudo: saúde, educação, transporte, combate à corrupção, dentre outros. Infelizmente não vi muita coisa que atingisse um dos pontos básicos a serem atacados para transformar a sociedade brasileira em algo mais justo: a excrescência do poder judiciário.

O que dá para perceber disso tudo? O brasileiro estava acostumado a conviver com todos os tipos de desmandos e, triste agora, achava engraçado, como se ele não tivesse poder para mudar essa realidade que assola a nação e faz com que uma econômia de números impressionantes não se reverta em melhor qualidade de vida do cidadão.

Há uma profunda distância entre os interesses da classe política e os do povo brasileiro, como ficou evidente na eleição de Calheiros no senado. A maioria desses supostos representantes é eleita por
grupos empresarias que os colocam lá para defender os seus interesses. Esqueçam nacionalismo. E esse contingente de políticos age de forma a satisfazer os que investiram na sua eleição. Obviamente eles tiram a parte deles nessa história, e não é pouca.

O que é melhor para a nação não entra em jogo. A maior parte de suas decisões é perniciosa ao povo. E você acha que isso os sensibiliza? Inocência.

Entra em cena nesse momento o judiciário. Não há dúvida de que existem homens de grande senso de justiça e elevada intelectualidade. Mas é a minoria. Trata-se de um sistema viciado que funciona de forma a, claro, defender primeiro seus interesses, como na incrível greve para exigir aposentadoria especial, afinal são deuses, não?, e de forma quase subliminar estar bem atento aos interesses desses grupos que detêm o capital no Brasil, responsáveis por eleger a maioria da classe política.

Estamos falando em corporativismo. A sociedade brasileira é pródiga nisso. Um juiz vende sentença para traficantes e, como pena, é afastado do cargo pelos colegas e ainda passa a receber uma pensão milionária. E as pessoas contam essas passagens trágicas da vida brasileira rindo, como se isso fosse parte do folclore da nação e não tivesse interferência direta nas dificuldades do dia a dia desse indivíduo que apenas ri.

Minha leitura do instante histórico do Brasil é essa: o povo disse “chega” a esse estado de coisas em que a classe política e o executivo agem de acordo com seus interesses sem dar a menor satisfação à nação, como se fossem duas sociedades distintas: dos que têm o poder, uma minoria inescrupulosa, para dizer o mínimo, e dos que devem simplesmente obedecer, a massa do País.

Considero a presidenta Dilma Rousseff uma idealista, bem intencionada. No seu discurso em rede de TV, na semana passada, ficou claro como ela odeia depender da classe política para aprovar seus projetos. Sabe com que tipo de gente está lidando.

Não foi por outra razão, para mim, que sugeriu um plebiscito para saber se a reforma política deveria ser feita por uma Constituinte ou venha a ser o fruto de discussões de projetos avaliados pelos atuais senadores e deputados. A tentativa inconstitucional de sugerir uma Constituinte representou uma maneira de expressar sua insatisfação com o grupo, colcha de retalhos, que bem ou mal forma a base governista e a pseudo oposição.

Ao mesmo tempo, a presidenta me pareceu estar assumindo agora o cargo. Seus pactos sugerem que até o momento não governou, apesar dos dois anos e meio já de mandato. Só agora detectou essas necessidades básicas urgentes do País, como o descaso com a saúde e educação?

Aliás, nesse sentido, li uma nota outro dia que expressa com precisão a confiança que o governo tem no governo: no caso de algum incidente com os integrantes da comissão da Fifa presente no Brasil nesses dias de Copa das Confederações, os necessitados devem recorrer a uma lista de hospitais credenciados pelo governo: nenhum deles é público!

É como saber que o que você oferece não pode servir a alguém com um pouco mais de discernimento. Seria uma forma de mostrar a inconsequência dos responsáveis por conduzir o País, estabelecer a escala de prioridades da nação.

Vou ficando por aqui, embora nesse campo da macrovisão do que choca no Brasil, para quem tem a oportunidade de ter contato com outras sociedades, mais e menos evoluídas, a lista de temas seja vasta. Seria inocência e despreparo acreditar que em uma ou duas legislaturas um presidente seria capaz de resolver problemas estruturais do País, como os que atingem as áreas de saúde, educação, transporte etc.

Mas é verdade também que numa administração mais corajosa do executivo, para enfrentar esse poder mesquinho e maléfico da classe política, se preciso até mesmo expor ao povo a realidade desastrosa dessa relação com senadores e deputados, como eles funcionam, o que defendem, seria capaz de definir um elenco de prioridades mais coerente com as reais necessidades da sociedade.

Não creio que transformaria o caos existente em áreas essenciais em modelos de serviço, mas com toda certeza o cidadão que sabe que o caminho é longo sentiria que o Brasil estaria avançando na melhoria da qualidade de vida de modo geral. Criaria o que não existe hoje: perspectiva. E isso depende, essencialmente, de decisão política. De gente compromissada com interesses maiores, mais elevados, capazes de atingir 180 milhões de indivíduos, e não uma minoria privilegiada que se imagina acima dessa massa.

Mas que deve, daqui para a frente, estar bem atenta. Até agora as manifestações ganharam apenas as ruas. O próximo passo pode ser uma vigília mais próxima das atividades de cidadãos cujos interesses são os mais lesivos ao povo, como por exemplo os campeões da corrupção.

E alguns manifestantes podem achar que, por vezes, já que nada acontece a esses criminosos, a justiça deve ser feita com as próprias mãos. Não estranharia se esse também for um dos capítulos seguintes do que estamos assistindo. A história da humanidade é rica de exemplos dessa natureza, nem sempre necessariamente maléficos ao destino das sociedades.

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