A McLaren de 1993 de Senna, o carro favorito de Vettel. O fantástico desempenho de Senna deve ter influenciado a escolha.

liviooricchio

13 de agosto de 2013 | 18h49

13/VIII/13
São Paulo

Amigos, o texto a seguir, bem como outros de Fórmula 1, estão disponíveis também na seção Esportes-Velocidade do Portal www.estadao.com.br

O jornal esportivo alemão Sport Bild publicou na sua última edição os dez carros de Fórmula 1 favoritos do tricampeão do mundo, Sebastian Vettel, da Red Bull. Curiosamente, o modelo que mais encantou o extraordinário piloto alemão não é nenhum dos que conduziu na sua equipe, nem mesmo o do título de 2011, RB07-Renault, em que quebrou vários recordes, mas o monoposto que Ayrton Senna pilotou em 1993, a McLaren Mp4/8-Ford. Senna foi vice-campeão naquele ano.

“Absolutamente o meu carro favorito”, disse Vettel. “Foi a minha primeira miniatura. A McLaren não tinha o melhor equipamento da temporada, mas mesmo assim Senna conseguiu vencer cinco corridas.”
O que chama a atenção na escolha de Vettel é o fato de aquele modelo da McLaren ter disputado o Mundial contra o mais sofisticado carro já produzido na história da Fórmula 1, a Williams FW15C-Renault, concebida por Adrian Newey e Patrick Head e pilotada por Alain Prost, campeã do mundo. O FW15C tinha um supereficiente sistema de suspensão ativa, câmbio semi-automático, controle de tração, acelerador eletrônico, freios ABS, dentre outros recursos.

A McLaren MP4/8 também os possuía, mas não no mesmo nível de perfeição. O principal responsável por integrar todos esses complexos sistemas eletrônicos foi o inglês Paddy Lowe, hoje diretor de engenharia da Mercedes.

É provável que Vettel tenha se deixado levar pelo desempenho de Senna naquele ano para escolher o modelo MP4/8. A linha do carro não tinha nada que chamasse a atenção, nenhum refinamento maior. Para muitos profissionais da Fórmula 1 e da imprensa, 1993 foi a melhor das dez temporadas que Senna disputou, de 1984 ao início de 1994, apesar de ter sido vice-campeão e não ter conquistado o título, como em 1988, 1990 e 1991.

Para se ter uma ideia do que Senna superou em 1993, Ron Dennis não encontrou quem fornecesse motores para a McLaren. A Honda o avisou em meados de 1992 que a parceria, iniciada em 1988, seria interrompida. A montadora japonesa deixaria a competição no fim do ano. Dennis tentou convencer os franceses da Renault a lhe fornecer seu ótimo V-10 de 3,5 litros. Mas o contrato com a Williams não permitia a associação com um concorrente direto. A Ford também disse não a Dennis porque tinha compromisso com a Benetton, de Michael Schumacher e Flavio Briatore.

Dennis teve de ir ao mercado e tornar-se cliente da Ford para utilizar o seu V-8 de 3,5 litros, como qualquer outro time que desejasse. E a versão disponível não era a mesma destinada a sua escuderia oficial, a Benetton.

É possível quantificar a diferença entre o motor que Senna acelerava e Alain Prost e Damon Hill, na Williams-Renault, e Michael Schumacher e Riccardo Patrese, na Benetton. O motor V-8 Ford versão cliente de Senna desenvolvia cerca de 640 cavalos de potência. O Ford V-8 oficial da Benetton, 680 cavalos, e o Renault da Williams, com 20% a mais de volume, era um V-10 diante de um V-8, algo como 720 cavalos. São diferenças impressionantemente grandes para os padrões da Fórmula 1.

A McLaren teve a possibilidade de assinar com a Lamborghini para usar sua unidade V-12. O regulamento estabelecia o volume máximo, 3,5 litros, mas não o fracionamento do motor. Assim, alinhavam no grid carros com motor V-8,V-10 e V-12. Senna chegou a testar o modelo da McLaren de 1992, MP4/7, adaptado para o Lamborghini V-12 e por ele essa seria a escolha da equipe. Mas Dennis não confiava na resistência do V-12 italiano e negociava com a Peugeot para se tornar seu time oficial a partir de 1994, como viria a acontecer. Assim, Senna foi de Ford versão cliente.

O engenheiro inglês Neil Oatley assinou o projeto. Adorava trabalhar com Senna. Até hoje Oatley é técnico ativo no grupo McLaren. O modelo do ano que vem vai incorporar muitas soluções estudadas pelo grupo coordenado por Oatley na área de pesquisa avançada, diante das mudanças profundas no regulamento.

Em conversa com o Estado, anos mais tarde, Oatley disse: “Sabíamos que a Williams com um motor V-10 oficial seria a grande concorrente ao título. Tínhamos consciência de que só poderíamos pensar em vencer se fizéssemos algo diferente e funcionasse”. Uma das saídas foi aproveitar as dimensões reduzidas do motor V-8 para projetar um carro com reduzida distância entre eixos, contou. O MP4/8 era visivelmente mais curto que os concorrentes.

Senna explicou em Interlagos, segunda etapa da temporada, o que esperava daquele ano. “Tenho de tentar fazer alguma coisa já porque depois, quando vierem as pistas rápidas, não terei a menor chance. Nosso carro é curto (não ideal para circuitos mais velozes)e não temos potência. Vou ver o baixinho apenas de binóculo”. Referia-se a Prost com seu Williams-Renault. “Ele tem uns 100 cavalos a mais que nós.” Na Fórmula 1 falava-se em 80 cavalos.

Outra característica daquele ano de Senna foi a relação única que tinha com a McLaren. Correu como free lance. Seu contrato era prova a prova. Quis de todas as formas, em 1992, transferir-se para a Williams. Mas o contrato que Prost assinou, naquele ano, com Frank Williams, e apoiado pela Renault, lhe garantia a prerrogativa de aceitar ou não o companheiro indicado.
Frank Williams não escondeu da imprensa ter insistido para Prost aceitar Senna como companheiro em 1993.

No GP da Bélgica, em Spa-Francorchamps, contudo, Senna disse, irritado, aos jornalistas brasileiros, onde estava o Estado: “A minha eventual ida para a Williams furou. Não deu em nada. O baixinho exigiu uma cláusula no contrato que me impedia de ser de novo (competiram juntos na McLaren em 1988 e 1989)seu companheiro. Ele vai correr sozinho no ano que vem e vai ser campeão pela quarta vez”.

Não foi bem o que aconteceu. Depois das seis primeiras etapas de 1993, Senna colecionava três vitórias, no memorável GP da Europa, em Donington, Inglaterra, no inesquecível GP do Brasil, em Interlagos, sob chuva, e, claro, em Mônaco. Chegou ainda em segundo na África do Sul e na Espanha. Foi uma performance assombrosa. Resultado: Senna, com todas as limitações do equipamento, era líder do campeonato.

Na sequência da temporada, porém, nos circuitos de velocidade média mais elevada e com pista seca, Prost impôs sua grande capacidade e desfrutou dos maiores recursos da Williams FW15C para vencer. E quando não deu Prost quem ganhou foi o companheiro, Damil Hill. Prost ficou em primeiro depois do GP de Mônaco vencido por Senna nas corridas do Canadá, da França, Inglaterra e Alemanha. Hill, na Bégica e Itália.

Pilotos, técnicos e dirigentes iriam se impressionar com o talento de Senna para vencer, mesmo com equipamento sensivelmente inferior, nas etapas da super seletiva Suzuka, no Japão, e Adelaide, na Austrália, circuito de rua, onde um carro com distância entre eixos reduzida, como a da McLaren MP4/8, favorecia o desempenho também.

Quando Senna previu, na Bélgica, no ano anterior, ao saber que não iria para a Williams, que Prost seria o campeão de 1993, acertou. O francês conquistou o quarto título da fantástica carreira, com 99 pontos. Mas Senna não ficou distante, 73, como imaginou. Mas se for considerado o que cada piloto dispunha, não é difícil compreender a razão de a temporada de 1993 ser considerada, por muitos, como a mais extraordinária de sua trajetória na Fórmula 1.

Parece ter ficado mais claro, agora, a escolha de Vettel pela McLaren MP4/8-Ford. Ou terá sido pelo que fez em 1993 Senna, por quem tem profunda admiração?

Os demais carros favoritos de Vettel, repassados por sua assessoria de imprensa, são:
2.º Red Bull RB6-Renault, de 2010
3.º Red Bull RB7-Renault, de 2011
4.º Brabham BT46B-Alfa Romeo, de 1978
5.º Lotus 72-Ford, de 1970
6.º Ferrari F2002, de 2002
7.º McLaren MP4/13-Mercedes, de 1998
8.º Williams FW14-Renault, de 1992
9.º Mercedes W196, de 1954
10.º Brabham BT52B-BMW, de 1983

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.