A McLaren sentirá, e muito, se Ron Dennis a deixar mesmo

liviooricchio

03 de março de 2008 | 11h58

03/III

Amigos, esse é o texto de minha coluna, hoje, segunda-feira, no caderno de esportes do Jornal da Tarde. Apesar de ter ficado até mesmo impressionado com o que aconteceu na McLaren, ano passado, refiro-me a Ron Dennis saber de tudo no episódio de espionagem, tenho o mais profundo respeito por ele, que já tive a oportunidade de entrevistar várias vezes.

Saiu do nada e com enorme competência e muito trabalho construiu um império. Parece que ele vai mesmo deixar a equipe que reestruturou, em 1980, sem ter experiência ainda com Fórmula 1, e a levou a ser uma das mais bem-sucedidas da história dessa competição que talvez seja a mais difícil e complexa do mundo.

A coluna:

A história surgiu como um boato, desmentido pela Mercedes, mas ontem (domingo)a imprensa inglesa deu como certa a saída de Ron Dennis da McLaren.

O episódio de espionagem, no ano passado, que custou à McLaren e sua sócia, Mercedes, imenso desgaste de imagem, além de multa de US$ 100 milhões, teria levado os sócios da equipe a exigirem seu afastamento.

Dennis tem 15% da escuderia, o saudita Mansour Ojjeh, outros 15%, o governo barenita, por intermédio da estatal Bahrain Mumtalakat, 30%, e a Mercedes, 40%.

Se o dirigente tiver mesmo de deixar a organização, ao menos como homem que decide tudo na McLaren, a Fórmula 1 ganha ou perde?

O que aconteceu no ano passado impressionou a todos na Fórmula 1. Até então, a imagem de Ron Dennis era intocável. Mas agora, sabe-se, ele tinha consciência de toda a operação de roubo de informações técnicas da Ferrari e repassadas a seu projetista-chefe, Mike Coughlan. Abominável!

A trajetória de Ronald Dennis, no entanto, de aprendiz de mecânico, aos 16 anos, quando deixou a escola, a uma das fortunas da Inglaterra, mentor de uma escuderia multicampeã, como a McLaren, não pode ser desprezada. Foram sua mão firme e capacidade as maiores responsáveis por a McLaren alcançar o sucesso.

Ayrton Senna, por exemplo, conquistou seus três títulos no time dirigido por Dennis. A McLaren perderá e muito se confirmada sua saída.

Aos 60 anos, Dennis é ainda a cabeça pensante na equipe que conta com 900 funcionários e investe cerca de US$ 400 milhões por temporada. Tudo muito diferente de quando possuía uma escuderia de Fórmula 2 num galpão, em 1979, e nos fundos um técnico desconhecido, escolhido por Dennis, de nome John Barnard, construía o carro que levaria o determinado ex-mecânico de Jochen Rindt e Jack Brabham a ter o próprio time de Fórmula 1, ao tornar-se sócio da McLaren.

Quando Alain Prost anunciou, no fim de 2001, que pararia as atividades de sua equipe na Fórmula 1, depois de cinco anos de fracassos, Frank Williams afirmou: “Prost não é um Ron Dennis.” Elogiou o francês como piloto, mas destacou sua incapacidade para gerenciar um projeto de F-1.

Dennis não tem escolaridade, mas sabe ditar os rumos da equipe, chama para si as responsabilidades pelas decisões mais importantes. E quase sempre acerta.

Eu de novo, amigos: lá no JT não havia espaço para contar essas passagens. Ron Dennis dedica, às 16 horas dos sábados de GP, cerca de meia hora para a imprensa. Vez por outra, quando não há outras entrevistas de maior importância para mim, no mesmo horário, vou ouvi-lo.

Em algumas ocasiões, solicitei à assessoria de imprensa da McLaren entrevista tête-à-tête com Dennis e fui atendido. Em duas delas nossas conversas profissionais foram interrompidas bruscamente por ele.

Numa o recordei que Ayrton Senna queixava-se de a McLaren não repor técnicos à altura dos que saíam. Dennis me disse: “Ayrton tinha razão, eu pagava tanto dinheiro para ele que não sobrava para contratar engenheiros mais caros.” Demonstrou profunda irritação comigo.

Em outra oportunidade, eu lhe perguntei diretamente por qual razão ele se recusava a falar de seu passado. Dennis parou, lançou o olhar para o infinito, semicerrou as vistas, movimentou a cabeça como quem diz sim, e levantou-se. “Vamos falar sobre isso, vamos falar sobre isso”, disse, e foi embora.

Desta vez não me pareceu incomodado demais com a pergunta, embora cruze comigo no paddock há 20 anos, provavelmente me reconhece, mas nunca cumpriu a promessa.

Ano passado, em Silverstone, diante de dezenas de jornalistas, a maioria inglesa, ele repetidas vezes afirmou não existir propriedade intelectual da Ferrari nos carros da McLaren.

Eu, então, lhe perguntei: Tudo bem, Mister Dennis, mas o fato de seu principal engenheiro, Mike Coughlan, dispor de todos os desenhos do carro de seu principal adversário, saber por exemplo o tamanho do tanque, consumo de combustível, conhecer os dados todos obtidos pela telemetria nos testes e nas corridas, ter ciência de como a Ferrari se comporta nos mais distintos ajustes, como é o caso da sua equipe, você acha que representa grande vantagem?

Quem se interessar, no site da FIA (fia.com) há as transcrições das entrevistas programadas pela entidade, como essa. Será possível ler minha pergunta e, principalmente, a longa resposta de Dennis. O homem não desviou o olhar de mim o tempo todo, desta vez incomodado com o questionamento. Em resumo, disse que a divisão de trabalho na McLaren não permitia que os dados disponibilizados por Nigel Stepney, da Ferrari, para Coughlan, não tinham como ser aproveitados.

Se eu tivesse um time e Dennis fosse um profissional disponível no mercado, provavelmente seria a minha escolha para dirigi-lo. Mas esperar que possamos acreditar na sua hitória no affair de espionagem é nos chamar de estúpidos.

Abraços

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