Aerofólio traseiro da McLaren, o novo vilão da Fórmula 1

liviooricchio

12 de março de 2010 | 20h16

12/III/10
GP de Bahrein
Livio Oricchio, de Sakhir

Na etapa de abertura do campeonato do ano passado, o duplo difusor da equipe Brawn GP, em especial, foi acusado de ilegal pela maioria das demais equipes. Ontem, no circuito de Sakhir, outro recurso aerodinâmico recebeu a mesma acusação: o aerofólio traseiro da McLaren. Charlie Whiting, delegado da FIA, considerou a solução da McLaren “legal” na inspeção de quinta-feira. A chiadeira, ontem, foi geral.

“A vantagem deles em reta é grande, 5, 6 km/h a mais, muito para os padrões da Fórmula 1”, disse Rubens Barrichello, da Williams. “Pelo que sabemos, o aerofólio se mexe na reta. Nesse caso seria ilegal”, comentou Felipe Massa, da Ferrari. A maior queixa vem do diretor técnico da Lotus, o experiente Mike Gascoyne. “É difícil compreender como a FIA pode julgar legal esse sistema se, na verdade, o aerofólio se move, o que é proibido pelo regulamento.”O texto do regulamento técnico proíbe elementos aerodinâmicos móveis.

No treino livre da tarde, ontem, Lewis Hamilton registrou o segundo tempo e seu companheiro de McLaren, Jenson Button, os dois últimos campeões do mundo, o quarto. Nico Rosberg, da Mercedes, ficou em primeiro, mas diante da enorme variação no volume de gasolina de cada carro, os tempos não significaram muito.

O sistema funcionaria assim: bem à frente dos pilotos, no cockpit, há do lado esquerdo uma pequena tomada de ar. Esse ar é canalizado através de um tubo que passa dentro do cockpit, atravessa a tomada de ar sobre o motor, por dentro, e orienta o ar para fluir provavelmente sob o aerofólio traseiro. Ninguém desvendou, ainda, a solução da McLaren, “tão simples quanto genial” segundo Whiting.

O mais impressionante é que o ar admitido pela tomada logo à frente do cockpit pode ou não fluir por dentro dessa canalização. E quem faria esse controle seriam os próprios pilotos. Com o joelho esquerdo, Hamilton e Button podem tampar ou destampar o orifício que há no cockpit. Nas retas, manteriam o orifício aberto. Isso faria o ar fluir pela canalização na direção do aerofólio traseiro. Como funciona não está certo, ainda. O efeito, contudo, é conhecido: os fluxos de ar reduzem o arrasto, a resistência ao movimento, o que convém na reta, daí Hamilton e Button registrarem desde a pré-temporada as velocidades de reta mais elevadas.

Também se supõe que eles, no fim das retas, fechem com o joelho esquerdo a entrada de ar com o objetivo de fazer o ar fluir em maior concentração e disciplina na direção do aerofólio traseiro, o que aumentaria a geração de pressão aerodinâmica e, consequentemente, a velocidade de contorno das curvas.

“Não há dúvida de que representa importante vantagem e todos deverão adotá-lo”, explica o diretor esportivo da Renault, Steve Nielsen. Mas existe um grande problema para incorporar um sistema semelhante: é necessário que haja um orifício no cockpit e o monocoque, estrutura onde se encontra o cockpit, é homologado antes de o campeonato começar e não é permitido modificá-lo. “Há outros orifícios destinados a usos distintos. Teremos de rever todo o projeto a fim de adaptar esses orifícios para adotar solução parecida”, comentou Nielsen.

Para Gascoyne, “tudo isso significa investir dinheiro, o que a maioria não dispõe”. Esse é outro ponto que gerou incompreensão de muita gente na Fórmula 1, ontem: “Sabendo dos problemas econômicos das equipes e, claro, a ilegalidade do recurso, não dá para entender como foi aprovado”, lembrou Gascoyne. Existe a possibilidade de Red Bull e Renault apelarem da decisão de Whiting.

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