Alonso dá a receita de como ser 'dono' de uma equipe

liviooricchio

16 de janeiro de 2011 | 10h18

16/I/11

Livio Oricchio, de Madonna di Campiglio

  Por detrás daquela desenvoltura, como um experiente mágico e apresentador de shows, no palco, diante de representantes da imprensa de várias nações e integrantes da Ferrari, Fernando Alonso demonstrou mais uma vez, sexta-feira à noite, sua imensa habilidade em converter o grupo de trabalho a seu favor. Em palavras bem objetivas: o espanhol tem a Ferrari nas mãos.

  No jantar de despedida do último dia de atividades da 21.ª edição do Wrooom, evento promovido pela Philip Morris com a Ferrari em Madonna di Campiglio, nos Alpes italianos, de repente o DJ interrompeu a animada música que embalava a maioria. Ao mesmo tempo, luzes se concentraram num palco localizado no meio do salão onde cerca de 300 pessoas, entre convidados e profissionais do time italiano, se reuniam. Ninguém menos de Fernando Alonso assume o microfone.

  Falando em italiano fluente, chama a seu lado a bela Roberta Vallorosi, para espanto geral. “Ela trabalhou com Valentino Rossi e agora é a minha assessora de imprensa. Gostaria de convidar, também, outra pessoa.” A maioria pensou, deve ser Felipe Massa, seu companheiro de equipe. “Valentino Rossi, por favor, venha.” Não foi a vez de Massa. A dicção, espontaneidade, segurança, retórica e presença de palco de Alonso hipnotizavam todos. Quem poderia imaginar um piloto de Fórmula 1 se expor em público como um profissional?

  O staff inteiro da Ferrari presente se entreolhava, espantado. “Roberta, abra esse saquinho, sabe o que é? É isso mesmo, uma camisinha.” A jornalista não escondeu o constrangimento. Estava roxa. “Agora assopre até ela ficar cheia”, solicitou Alonso, rindo, como os demais. “Não tive uma ideia melhor, era só isso mesmo”, afirmou o espanhol, para nova gargalhada geral.

  Um ursinho de pelúcia, de dimensões generosas, entra em cena, junto de um baralho. Alonso pede a Roberta e Rossi que escolham uma carta. Seu dominío de atenção contagia a plateia. Massa, com os amigos, apenas assistia a tudo também. Depois da carta escolhida, Alonso solicitou a Roberta e Rossi que a colocassem com as demais no baralho. Lacra-o com um arame desses de fechar saco plástico.

  Na sequência, retira da sua bolsa, que mais lembra o batcinto de Batman, por possuir de tudo, uma luva descartável e pede para Roberta vesti-la. O pedido agora é para que ela e Rossi encontrem a carta escolhida secretamente. Para espanto dos dois, não está mais no baralho onde deixaram há instantes. Rossi não se conforma. “Como é possível?” Alonso lhe mostra um lado desconhecido. O maior piloto de motos da história sabia da competência de Alonso nas pistas, mas essa de conquistar a todos psicologicamente, nesse nível, era novidade.

  O espanhol toma o singelo ursinho e diz a Roberta, ao lado de Rossi: “Coloque a mão com a luva no bumbum do ursinho. Procure que há um buraco, sim.” Nova situação embaraçante para os convidados no palco. Sem acreditar no que está passando, como muita gente presente, Roberta atende, com a ajuda de Rossi. “Você sentirá que há algo dentro.” Roberta confirma. “Retire, por favor”, diz Alonso, com voz empostada.

O que era? A carta escolhida por Roberta e Rossi, o 2 de Copa que sumira do baralho! Aplausos estrondosos, assobios, gritos de admiração…

  Alonso agradece com classe. A mesma classe que demonstra nas pistas e o levou a vencer dois campeonatos mundiais. E a mesma classe que utiliza para hipnotizar os que trabalham ao seu redor para convergirem sua atenção a seu favor. Afinal ele é infalível, como piloto, mágico, comunicador, comediante, motivador… Hoje já está, estrategicamente, em Maranello, sede da Ferrari, para trabalhar.

  Só há uma maneira de Massa tornar-se ‘sócio’, como Alonso, talvez até majoritário: vencer o espanhol na pista. Seu carro terá sempre os mesmos recursos do companheiro de Ferrari. E o tratamento também não vai ser distinto, ao menos até um dos dois mostrar ser mais capaz de obter resultados para a equipe.

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