Alonso muda radicalmente o discurso em relação a Ferrari. Deve ter levado um senhor pito.

liviooricchio

22 de agosto de 2013 | 13h51

22/VIII/13
Spa

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Quem te viu e quem te vê. O Fernando Alonso que, irritado, criticou como nunca havia feito sua equipe, a Ferrari, na Hungria, gerando uma crise de relacionamento com o presidente da empresa, Luca di Montezemolo, se transformou, depois das férias do verão da Fórmula 1, no maior defensor da escuderia italiana. “É a melhor do mundo”, disse nesta quinta-feira no circuito de Spa-Francorchamps. Amanhã começam os treinos livres do GP da Bélgica.

Enquanto Alonso descrevia o momento inacreditavelmente idílico com a Ferrari na entrevista coletiva, muitos jornalistas se entreolhavam. Afinal, o que estava valendo: suas declarações, aos mesmos profissionais de imprensa, de Budapeste, onde escorraçou o departamento técnico do time, ou os elogios desmedidos de hoje?

“Nossa relação está melhor do que nunca”, respondeu Alonso sobre a convivência com Montezemolo. “Nos falamos todos os dias, não apenas de Fórmula 1, mas de nossas famílias, a Juventus (equipe da Fiat, assim como a Ferrari), do Real Madrid (de quem Alonso é torcedor).” Montezemolo ganhou flores à parte: “Ele é o nosso motivador, o pai da família Ferrari. Tenho zero problemas com ele”.

Depois de Alonso afirmar que não confiava nos engenheiros da Ferrari, em seguida à bandeirada do GP da Hungria, Montezemolo chamou o espanhol para uma reunião em Maranello, sede da Ferrari. E emitiu um comunicado criticando a postura de seu piloto. “Fernando tem de compreender que seus interesses vêm depois dos da nossa equipe. Não gostei do que disse”, escreveu Montezemolo.

Mas Alonso não teve responsabilidade “alguma” no mal estar com o presidente da Ferrari. “Participo de quatro entrevistas coletivas no fim de semana de corrida. E falo em três línguas (italiano, inglês e espanhol), sendo dois não idiomas pátrios. E o que levaram a nosso presidente não foi o que disse”, explicou hoje o espanhol. A tradução equivocada é que, segundo Alonso, causou o desconforto em Montezemolo.

“Hoje, com toda tecnologia, é fácil provar. Bastou mostrar uma gravação. E ficou claro que minhas palavras não foram distintas das que já havia pronunciado antes.” Na sua visão, não fez críticas. “Tentei incentivar ao máximo o grupo. Confio 100% na capacidade técnica de nossa equipe.”

Ao assumir postura antagônica à do dia 28 de julho, em Budapeste, tentando dizer que foi apenas mal interpretado, Alonso deixa no ar a ideia de que todos são incapazes de compreender seus discursos. Jornalistas italianos, ingleses, alemães, espanhóis, brasileiros, ao mesmo tempo, ouvem algo e repassam mensagem distinta aos fãs da Fórmula 1.

É possível resgatar algumas “palavras de incentivo” de Alonso ao grupo depois de se classificar em quinto no GP da Hungria, 31 segundos atrás do vencedor, Lewis Hamilton, da Mercedes. “Não sou eu que desenho as novas peças do carro em Maranello.” Mais: “Hoje era para sermos sétimo, oitavo e ficamos em quinto e oitavo. Quando tivemos carro, eu e Felipe terminamos no pódio, como em Barcelona.”

Afirmou, ainda: “O pessoal de pista, engenheiros, mecânicos, pilotos realizam um trabalho aceitável. Já aqueles que concebem as peças…”

Os dois universos de valores distintos, o do circuito húngaro e exposto nesta quinta-feira em Spa-Francorchamps, demonstram que a pausa do calendário foi útil a Ferrari. Os elogios carregados de emoção à escuderia a ao seu presidente revelam que houve muita conversa a portas fechadas em Maranello nos dias quentes de agosto.

Montezemolo com certeza foi duro com seu piloto. Deve tê-lo feito compreender que por melhor que seja, deverá seguir a cartilha de como se comportar. Caso contrário, as portas estão abertas aos descontentes. Alonso reproduziu com precisão hoje o comportamento de alunos que acabaram de levar um pito histórico de seu professor.

Até mesmo Michael Schumacher passou por isso. Quando disse que não iria disputar o GP da Malásia, em 1999, por “estar ainda em recuperação da fratura nas pernas”. O acidente foi no início de julho, em Silverstone, e a prova em Sepang em outubro, mais de três meses depois.

Como os médicos garantiram que Schumacher já estava recuperado, Montezemolo lhe telefonou e ordenou que fosse ajudar Eddie Irvine na Malásia, penúltima etapa do calendário. O irlandês disputava o título com Mika Hakkinen, da McLaren.

Alonso concluiu a conversa com a imprensa com um grand finale que Giacomo Puccini não faria melhor nas suas óperas, mesmo as de maior dramaticidade, como Madame Butterfly: “Lutaremos até o fim. Se ao chegarmos no Brasil (encerramento do campeonato) não estivermos em condições de sermos campeões ninguém poderá dizer que foi por não trabalharmos duro e tentarmos”.

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