Alonso prevê um começo difícil na McLaren

liviooricchio

14 de novembro de 2006 | 17h31

Em visita às tropas espanholas a serviço da ONU no Líbano, o bicampeão do mundo, Fernando Alonso, não deixou de falar de Fórmula 1. A temporada que começa dia 18 de março na Austrália não será nada fácil para ele, disse. Que razões teria Alonso para prever um ano de dificuldades na McLaren, ao menos na primeira metade do campeonato?

Em primeiro lugar, a McLaren contratou um piloto capaz de fazer a diferença na Fórmula 1. A Renault verá, em 2007, a falta que um piloto veloz, constante, capaz de tirar sempre o máximo que o seu equipamento e as condições da corrida permitem. Alonso é o mais completo piloto que surgiu na Fórmula 1 depois da estréia de Michael Schumacher, em 1991.

Mas Alonso sozinho não faz milagres. Ano passado, Michael Schumacher, na Ferrari, não tinha um carro sequer razoável; pneus, Bridgestone, piores ainda, e assistiu ao espanhol, a Renault e a Michelin desfilarem sua competência. O piloto da Renault disputou o título com Kimi Raikkonen até as etapas finais. Em várias provas viu que o finlandês dispunha de um carro melhor que o seu. Foi nesse período também que a Renault lhe informou não saber se continuaria na Fórmula 1 depois de 2007.

Pense com Alonso: a Renault pode deixar a competição. Recebe no time dirigido por Flavio Briatore algo como US$ 6 milhões, valor estimado do contrato em 2005, fora os prêmios. Ron Dennis, da McLaren, lhe chama para conversar. A McLaren tem um carro que no mínimo está no mesmo estágio de desenvolvimento do da Renault. Ron Dennis lhe garante que a Mercedes, sócia da McLaren, sequer pensa em deixar a Fórmula 1, como a Renault poderia decidir. Mais: que tal ganhar quatro vezes mais do que no time francês?

Essas foram as razões de Alonso aceitar a troca da Renault pela McLaren. Quando assinou com a escuderia inglesa, ainda em novembro do ano passado, visando o Mundial de 2007, aquela parecia mesmo ser a escolha mais lógica a ser feita. Mas ao longo desta temporada, com toda certeza Alonso questionou a si próprio se a troca de equipe foi de fato a melhor opção profissional que poderia fazer, principalmente depois de ter a confirmação de que a Renault permanecerá na Fórmula 1.

A McLaren não venceu um único GP, apesar do talento de Raikkonen. Não foi a sombra da organização que lhe deu uma canseira para conquistar o título ano passado. Alonso enfrentou ninguém menos de Michael Schumacher e a Ferrari. E venceu ambos. Os dois melhores conjuntos foram o seu, na Renault, e o da Ferrari. As duas escuderias estão partindo de bases muito eficientes para conceber os carros de 2007.

Esse não é o caso da McLaren. O modelo MP4/21 e o motor Mercedes FO108S não são a melhor referência para o projeto do monoposto de 2007, como é o caso do R26 da Renault e do 248 F1 da Ferrari, bem como seus motores. A organização de Ron Dennis tem ainda um fator que joga contra a possibilidade de a escuderia conseguir um modelo que faça, de cara, a diferença no próximo Mundial: seu grupo de projetistas sofreu pesadas perdas.

Adrian Newey, diretor-técnico, e Nikolas Tombasis, especialista em aerodinâmica, aceitaram as ofertas da Red Bull e da Ferrari. Rob Taylor, engenheiro que deixou a Red Bull com a chegada de Newey, é um dos responsáveis pelo novo carro da McLaren. Taylor e sua turma têm ainda contra si o fato de o motor Mercedes não estar no mesmo nível do V-8 da Renault e da Ferrari.

As equipes têm de entregar à FIA os motores que terão seu desenvolvimento congelado de 2007 ao fim de 2009. Seria surpreendente se o V-8 alemão repassado como referência à FIA fosse, de repente, melhor que os concorrentes no compromisso potência/resistência/consumo/dimensões/peso/necessidade de área de radiadores. Isso porque até o GP do Brasil, último do calendário, não era.

Onde mais uma equipe pode recuperar terreno, e bom terreno, em relação a seus adversários? Nos pneus. Se fossem fornecidos por um fabricante que tivesse um produto superior ao usado pelos concorrentes, seria uma bela saída. Mas todos irão dispor da mesma marca de pneus, Bridgestone. Repare que as áreas onde os projetistas da McLaren poderiam, de forma mais evidente, recuperar performance em relação a Renault e Ferrari se restringiram.

É até possível, lógico, que o grupo de Rob Taylor conceba um carro veloz, constante e confiável, mas dá para ver que temos mais elementos para acreditar que, ao menos no início do campeonato, esse monoposto tende a ser menos eficiente que os da Renault e Ferrari? E, só para lembrar, sempre há espaço para sermos presenteados com alguma surpresa, como os projetos da BMW, Red Bull ou Honda, por exemplo, mais concorrência para a McLaren, o que seria maravilhoso para a Fórmula 1.

Melhor do que nós, Alonso sabe de tudo isso. Tem consciência, também, que seu companheiro de McLaren, provavelmente o jovem inglês Lewis Hamilton, nunca disputou uma corrida de Fórmula 1. Por mais talento que possua, não tem experiência alguma. É outro fator que não ajuda o espanhol.

Quando na visita ao Líbano Alonso afirmou que prevê um primeiro campeonato difícil na McLaren, não foi por acaso. Muito trabalho o aguarda para desenvolver todas as áreas do carro, ao menos as que podem ainda ser trabalhadas. Sua imensa capacidade aliada à gana da juventude técnica da McLaren, sustentadas por recursos financeiros sólidos, como ocorre com a equipe da Mercedes, pode mesmo dar resultado. Dá para apostar que sim, mas não de imediato. Seria surpreendente!

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