Amigos, estamos mesmo no fundo do poço. Graças também à CBA.

liviooricchio

16 de fevereiro de 2013 | 09h42

16/II/13
Nice

1. Marco Sorensen, 22 anos, dinamarquês, disputará este ano a Fórmula Renault 3.5 World Series, ótima escola de alto nível preparatória para a Fórmula 1, tanto ou mais que a GP2.
2. Marlon Stockinger, 21 anos, filipino, também na World Series
3. Alex Fontana, suíço, 20 anos, na GP3
4. Oscar Tunjo, 17, colombiano, na F-Renault 2.0 Europeia
5. Esteban Ocon, 16 anos, francês, na F-Renault 2.0 Europeia
6. Alexander Albon, 16, tailandês, na F-Renault 2.0 Europeia
7. Dorian Boccolacci, 14 anos, francês, no kart internacional

Amigos, sabe o que é a lista acima? A relação de pilotos anunciada há pouco, hoje, 16 de fevereiro, pela Lotus, equipe da Fórmula 1. São os pilotos escolhidos para a sua Academia; vão receber apoio profissional de toda natureza para dar sequência à carreira, prepará-los para o que é cobrado, hoje, no automobilismo internacional, bem mais que apenas possuir talento. Alguns têm até suas despesas para competir bancadas pela Lotus, elevado investimento.

Repare, por favor, na nacionalidade dos escolhidos: há até um filipino e um tailândês, nações sem tradição na geração de pilotos vencedores no cenário mundial. Mas estão lá e têm, agora, possibilidade de evoluírem, aprimorarem seus dotes, ter contato com o que lhes será exigido de engenheiros, chefes de equipes, patrocinadores, por exemplo, além de participarem de amplo programa de condicionamento fisico específico para pilotos. As chances de sucesso crescem.

Você sabe de algum brasileiro nessas academias? Posso estar enganado, mas que eu saiba não existe. A que ponto chegamos, amigos: NÃO TEMOS MAIS NENHUMA REPRESENTATIVIDADE NESSE UNIVERSO ONDE O PAÍS JÁ FOI TÃO INFLUENTE.

Várias razões estão por detrás desse abismo que se criou entre a realidade do automobilismo no exterior e o que se faz no Brasil. Uma delas é a completa falta de visão, proposta, iniciativa, conhecimento de causa do atual presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), o senhor Cleyton Pinteiro.

Ninguém quesitona, aqui, sua boa intenção. Não é como na administração passada, cujos interesses não iam além dos pessoais. O problema é o descompasso entre como funciona o mundo hoje e a forma míupe, mesquinha de como as competições de automóvel no Brasil são gerenciadas.

Tenha a certeza, amigo, de que a ausência de um piloto brasileiro nessas academias é um reflexo direto desse imobilismo, da falta de um projeto concebido por profissionais das várias áreas que compõem o automobilismo para ser apresentado a uma lista sem fim de empresas no Brasil, potencialmente investidoras.

Mas projeto profissional, com início, meio e fim, resultado de uma ação sinérgica, criado por pilotos, dirigentes, agência de publicidade, empresários experientes, especialistas em marketing, dentre outros, capaz de pelo menos gerar discussão dentro das empresas a quem for apresentado sobre a validade de se investir.

Isso porque sabemos que se for algo que emergiu apenas na CBA a probabilidade de sequer ser avaliado é grande, pelo descrédito que a entidade possui, resultado dos desmandos de toda natureza de boa parte dos seus responsáveis ao longo da sua história.
Curiosamente, a CBA foi criada no fim da década de 50 início da de 60 para combater o que fazia o Automóvel Clube do Brasil, detentor dos direitos esportivos, concedidos pela FIA. “Acontecia de tudo naquele órgão”, disse-me Wilson Fittipaldi, o Barão, dentre outras atividades pioneiras o criador das Mil Milhas Brasileiras, junto de Eloy Gogliano, enquanto eu fazia a pesquisa para o livro dos 50 anos da Mil Milhas, em 2005.

O Barão, Mauro Salles, outro idealista, dentre mais abnegados, conseguiram convencer a FIA de que o melhor para o Brasil seria tirar a concessão dos direitos do Automóvel Clube do Brasil e repassá-los para a CBA. E assim foi feito. Pena que a entidade não deu sequência, mais tarde, ao projeto de seus fundadores e parte dos vícios, conchavos, jogos de interesses, desvio de verbas, tudo em detrimento do automobilismo, continuou sendo praticado, como se fazia no Automóvel Clube do Brasil.

Antes de embarcar em São Paulo, há duas semanas, para cobrir os testes da pré-temporada, em Jerez de la Frontera, e já me estabelecer aqui em Nice para o campeonato da Fórmula 1 deste ano, tive uma conversa com Carlos Col, da Vicar. Disse-me que estava deixando o conselho da empresa para se dedicar a outros projetos, dentre eles o da formação de uma academia de pilotos no Brasil.

Pedi que me enviasse o estudo. Não tenho grande vivência no meio empresarial brasileiro, mas me pareceu algo bastante viável. Trata-se de um projeto com pé e cabeça e concebido por quem teve responsabilidade direta no que se transformou hoje a Stock Car, portanto tem crédito, é de se esperar que sabe o que faz.

É um começo, é uma pedra fundamental, é uma iniciativa, é um despertar, o que de forma concreta, realista, nesse nível de abrangência, como deve ser, não foi feito nada ainda.

O pior é que perguntei a Col se ele havia apresentado o projeto ao presidente da CBA. Respondeu que sim, que Pinteiro o considerou “muito interessante”, mas que nunca mais havia tocado no assunto. Comentei com Col que em absoluto não me surpreendia. Disse-lhe ainda que se eu pudesse, como jornalista, ser útil para seu belo estudo ter sequência estaria a disposição. Espero muito que a coisa cresça.

E hoje, antes de embarcar para a segunda série de testes da pré-temporada de Fórmula 1, em Barcelona, leio a nota da Academia da Lotus, sem, obviamente pelo exposto, nenhum brasileiro, o que me levou a redigir este post. Senhores, estamos no fundo do poço também (e muito) por causa da incompetência dos homens que comandam o automobilismo no Brasil.

Abraços!

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