Balanço dos quatro dias de testes em Valência

liviooricchio

03 de fevereiro de 2007 | 00h31

Acabei de redigir a última página do caderno sobre os Jogos Pan-Americanos, aqui no Estadão. Retrato de um gostoso bate-papo com Gustavo Borges, o maior vencedor de medalhas do Brasil em Pans. Que figura extraordinária. Há sempre uma relação direta entre competência e simplicidade. Mas nosso encontro aqui é para falar de Fórmula 1.

Eu dizia que tão logo terminei a página, pus-me a pensar nos resultados dos quatro dias de treinos no circuito Ricardo Tormo, em Valência, a partir dos tempos e número de voltas divulgados pelo site da revista inglesa Autosport, colocados bem aqui na minha mesa, na redação.

Se somarmos as voltas dos pilotos com seus modelos 2007 e tendo-se em mente que a pista tem 4.005 metros, chegaremos a alguns números interessantes, já reveladores de informações um pouco mais precisas. A equipe bicampeã do mundo, a Renault, completou de terça-feira até hoje, sexta-feira, com Nelsinho Piquet, Heikki Kovalainen e Giancarlo Fisichella, nada menos de 564 voltas, ou 2.258 quilometros (km).

De sexta-feira a domingo, nos fins de semana de GP, um piloto percorre, em média, 650 km. A equipe, portanto, 1.300 km, já que são dois pilotos. A Renault, com o ensaio de Valência, testou o equivalente a quase dois GPs completos, ou seja, 3 treinos livres, 1 classificatório e os 305 km da corrida. Essa é a melhor referência na Fórmula 1. Simular uma corrida é apenas parte da exigência da competição. Lembre-se que o motor deve ser utilizado por 2 sábados e 2 domingos seguidos de GP. Este ano, o regulamento mudou. O motor das sexta-feiras pode ser outro. Em 2006, tinha de ser o mesmo motor em dois fins de semana completos de GP.

A presença de Fernando Alonso na McLaren a está obrigando a rever sua política de pré-temporada. Não me recordo de num passado recente a escuderia da Mercedes ter treinado tanto. E faz sentido: a imagem de Alonso é de que teve enorme responsabilidade nos dois títulos da Renault. Se, agora, na McLaren, ficar para trás, será a equipe e não ele o responsável pelo fracasso. Todos sabem já o que ele pode fazer.

A McLaren testou com o espanhol, o estreante Lewis Hamilton e Pedro de la Rosa. No total, deu 555 voltas, ou 2.222 km. Perdeu apenas para a Renault. Já é um sinal dos novos tempos. Curiosa, também, a marca da Ferrari, tradicionalmente a organização que mais testa dentre todas. Apenas Kimi Raikkonen trabalhou com a F2007, nos quatro dias. E não foi além de 274 voltas, 1.097 km. Menos da metade da Renault e da McLaren.

Só a partir da próxima terça-feira, em Jerez de la Frontera, terá dois modelos F2007. Felipe Massa concentrou-se na checagem de novos componentes do F2007, mas instalados no 248F1 e por isso não entrou na nossa conta.

Outro dado que chama a atenção e atesta que a BMW não se definiu pela Fórmula 1 por nada é que entre Robert Kubica, Nick Heidfeld e Sebastien Vettel foram 463 voltas, 1.854 km, atrás apenas da Renault e da McLaren. A Honda tinha, como a Ferrari, apenas um carro RA107 e, por isso, é natural que andasse menos. Rubens Barrichello e Jenson Button revezaram-se nele. Em quatro dias deram 267 voltas, 1.069 km.

Não foi o caso da Toyota, que com dois carros trabalhou com Franck Montagny, Ralf Schumacher e Jarno Trulli, de terça a quinta-feira. Deu 220 voltas, 881 km apenas. Pouco. Só não testou menos da Red Bull, que entre as voltas de Mark Webber e David Coulthard conseguiu apenas 158 voltas, 632 km. Há atenuantes: foi o primeiro teste do RB3, bastante distinto em tudo em relação ao seu antecessor. E como a estrutura da Red Bull ainda não é a de uma organização vencedora, pode-se compreender suas dificuldades iniciais.

Vamos repetir: Renault, 2.258 km; McLaren, 2.222 km; BMW, 1.854 km; Ferrari, 1.097 km; Honda, 1.069 km; Toyota, 881 km; Red Bull, 632 km.
Esses números dão ou não uma referência do estágio de preparação das equipes? Não deixam de nos contar que Renault e McLaren estão mais adiantados, não acha?

Vamos comentar sobre velocidade já já. Quanto mais voltas uma escuderia percorrer com seu carro novo, mais compreenderá o que tem de ser revisto, para torná-lo mais rápido e confiável, mais conhecerá suas reações às alterações de ajuste, em resumo: estará mais avançada em como explorar a potencialidade do projeto.

Repare como um grande piloto interfere na evolução de uma equipe. A simples presença de Alonso na McLaren já está fazendo com que seu programa de ensaios a coloque dentre as mais adiantadas na preparação. Obter grandes resultados não é obra do acaso ou apenas do talento de um piloto. Mas, primeiro, planejamento e cumprir aquilo que se estabelece. Só assim sua capacidade pode aparecer mais e levar a organização à frente.

Agora a polêmica velocidade. O jovem inglês Lewis Hamilton estabeleceu, hoje, a melhor marca do treino, considerando-se os quatro dias, 1min11s119. Será que ele é o piloto mais rápido da Fórmula 1? E o projeto MP4/22 o mais veloz também? Com toda a certeza, a primeira resposta é não. A segunda não está clara ainda, mas provavelmente é não também.

Hamilton no teste da semana anterior, bateu forte o MP4/22 e o danificou bastante. Foi por isso que terça-feira, primeiro dia, apenas Alonso o pilotou. O outro carro estava sendo reparado. Pedro de la Rosa chegou a comentar que o acidente de Hamilton atrapalhou a programação da McLaren. Perdeu um dia de teste. Rosa assumiu o carro apenas quarta-feira.

Um piloto que acaba de completar 22 anos, como Hamilton, sem nunca ter disputado um GP, é paparicado pelo imprensa inglesa como poucos, por seu passado de conquistas e por ser negro, de repente se vê como o responsável por seu time ter de rever o programa de testes, por ter errado, não é fácil.

Já vi isso na Fórmula 1 várias vezes. A equipe coloca pneus novos, retira gasolina, aproveita-se de que, no último dia do ensaio há bem mais borracha no asfalto e a pista se torna mais rápida, para permitir que seu abatido piloto obtenha uma grande marca. É importante para sua moral ler, depois, que “estabeleceu o melhor tempo dentre todos nos quatro dias de ensaios.” As manchetes serão: “Hamilton na frente de todos.” Estou apostando que Ron Dennis utilizou a velha receita para reerguer seu piloto. Não é nada novo, mas muito eficaz.

Ainda que a marca de Lewis deva ser vista com desconfiança, o fato de a McLaren estar todos os dias entre os mais rápidos do teste começa a dar a entender que o MP4/22, em termos de velocidade, deu bom passo adiante em relação ao seu antecessor.

Ralf Schumacher ficou com o segundo tempo geral do teste, 1min11s297, de quinta-feira. Ele e Jarno Trulli já afirmaram que o TF107 representa um avanço importante se comparado ao projeto anterior. Inquestionável, mas não para surgir sem mais e menos na frente da Renault e da Ferrari. Ralf registrou o tempo provavelmente ao simular uma classificação.

A marca de 1min11s621 de Giancarlo Fisichella, quinta-feira, com a Renault R27, terceira no geral, é mais consistente. Dá para acreditar mais. Como deu a entender antes já, a Renault dá indícios de estar com o melhor conjunto no compromisso velocidade/resistência nesse início de preparação. E como destacou um leitor, a Renault assimilou bem as alterações impostas pelo comportamento dos pneus Bridgestone. Corria com Michelin.

O tempo de 1min11s855 de Raikkonen, hoje (quarto no geral), se tivesse de apostar, colocaria minhas fichas que não estava numa condição tão favorável como a de Hamilton, que obteve, no mesmo treino, 1min11s119. Essa (736 milésimos de segundo)não é a diferença entre a McLaren e a Ferrari. Esse dado, por si só, me parece revelador de que a Ferrari pode não ter produzido um supercarro, como deve mesmo ser o caso, mas o F2007 não deixa de ser um monoposto veloz.

Boa quilometragem e boa velocidade foi o que conseguiu a BMW em Valência. Quinta-feira Heidfeld marcou o quinto tempo no geral, 1min11s989. A projeção de que a montadora alemã se aproximaria dos primeiros colocados está, dia a dia, tornando-se mais real. Confesso que esperava mais do RA107 da Honda. De novo: não dispomos de mais dados, mas não causou aquela impressão no primeiro teste.

Ontem, tudo bem que talvez Button estivesse voltado para completar voltas seguidas e o objetivo da Honda não fosse verificar a extensão da velocidade de seu carro. Mas o inglês não passou de 1min12s995, no melhor dia da pista. Mark Webber, com o Reb Bull 03 fez 1min12s776. OK,podia estar mais leve, o que não nos impede de classificar como abaixo do esperado o tempo de Button. Vou conversar com o Rubinho nos próximos dias e lhes conto sua impressão inicial do novo monoposto da Honda. Não deu mostras aparentes de sair do forno voando, como nenhum monoposto até agora, o que é ótimo para a competição.

A partir de terça-feira boa parte dessa turma vai estar no circuito de Jerez de la Frontera, mais para o Sul da Espanha, na região da Andaluzia. Meu Deus, como se come bem frutos do mar naquela região. Porto Santa Maria, lá perto, à beira mar…Sai, sai, vamos voltar para a Fórmula 1. Segunda-feira nos encontramos aqui de novo, para um novo bate-papo, combinado?
Abraços!

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