Banimento de Briatore atendeu a muitos interesses

liviooricchio

25 de setembro de 2009 | 16h01

25/IX/09
Livio Oricchio, de Cingapura

Amigos, desde quarta-feira tenho conversado com muita gente da Fórmula 1, alguns com cargos realmente importantes, a fim de compreender melhor o que está por detrás da aniquilação de Flavio Briatore. Depois de montar meu quebra-cabeça com as peças que encontrei no paddock aqui em Cingapura, redigi o texto a seguir. Explica, penso, boa parte do ocorrido com o italiano. E descobri algo importante: a história recomeçará em breve.

O texto:

Discute-se muito ainda na Fórmula 1 o banimento de um dos seus principais líderes, profissional de grande sucesso, quatro vezes campeão do mundo: Flavio Briatore. Até há pouco mais de uma semana, o ex-diretor da Renault possuía imenso poder não só na Fórmula 1 como no automobilismo. Hoje não tem direito sequer a pisar no autódromo em fim de semana de competição. E quatro dias apenas depois de a FIA puni-lo, os verdadeiros interesses existentes por trás da decisão parecem claros.

O mais recente episódio de desgaste para Briatore, e o mais grave, provém da iniciativa de procurar a direção do grupo de investimento CVC. Eles são, desde o fim de 2005, sócios majoritários da Bambino Holdings, detentora do direito de explorar comercialmente a Fórmula 1. Estima-se de possuam 75% de participação; os outros 25% pertencem a Bernie Ecclestone. Quando a Fota ameaçava Ecclestone e o presidente da FIA, Max Mosley, de promover seu próprio campeonato, Briatore procurou os diretores da CVC.

Seu objetivo era lembrá-los que se houvesse o rompimento, não ficariam com nada além do nome Fórmula 1. As equipes migrariam para a Fota, ao menos as mais importantes. E o enorme investimento realizado para comprar a participação na Bambino Holdings, superior a US$ 1 bilhão (R$ 1,8 bilhão), seria simplesmente perdido. A CVC passou a pressionar ainda mais Ecclestone para coordenar um acordo com Mosley, com quem a Fota brigava por não aceitar o regulamento imposto pelo inglês.

Não é Briatore que se sente “traído”, mas Ecclestone. Agora está claro que não mais existia amizade entre os dois. O inglês não perdoa a quebra de fidelidade. E bem antes de Ecclestone, Mosley também tinha Briatore na sua mira. Em 1994, o presidente da FIA – viria a afirmar anos depois – teve de entregar o troféu de campeã do mundo à Benetton, dirigida por Briatore, mesmo sabendo que seu carro estava fora do regulamento. “Não tínhamos como provar”, disse Mosley. As regras técnicas seriam alteradas, permitindo o controle de tração, por causa de não ser possível controlar sua existência.

Mas a maior derrota de Mosley para Briatore ocorreu este ano. Como um dos líderes da Fota, exigiu de Ecclestone, para encerrar o projeto de campeonato paralelo, que Mosley não se candidatasse à releição da FIA. Era uma questão fechada da Fota. Sem isso não tinha conversa. Mosley não teve como enfrentar grupos industriais do peso de Renault, Ferrari, Mercedes, BMW, Toyota e agora a pressão de Ecclestone.

Ao ser procurado por Nelson Piquet, depois do GP da Hungria, para denunciar a fraude no GP de Cingapura do ano passado, Mosley viu a chance legal que ele e Ecclestone procuravam. Nessa hora Briatore cometeu outro erro: subestimou o dano que um personagem da história de Piquet, três vezes campeão do mundo, poderia lhe causar. O italiano achava-se inatingível. Se Nelsinho fosse mantido na Renault e no final do ano seu contrato não renovado, nada disso, provavelmente, teria acontecido.

O curioso é que a FIA com as provas que tinha, telemetria do momento do acidente provocado e gravação das conversas de Nelsinho Piquet com a equipe, não teria como punir Briatore no Conselho Mundial. Não provavam nada. Precisou Mosley e Ecclestone mostrarem à Renault o risco de a sanção ser à equipe para que a empresa francesa, que de fato não sabia da armação de Briatore em Cingapura, despedisse seu diretor geral e o diretor de engenharia, Pat Symonds. Na sequência, o Conselho impos a pena que muitos desejavam.

Mas a história não termina aí. Há novos capítulos por vir. E serão carregados de emoção também. Briatore deve saber de muita coisa desse meio que de alguma forma comprometa os responsáveis por destruir sua vida profissional e suas fontes de milhões de euros todos os anos. Ele já afirmou que irá à justiça comum. Há em curso no horizonte uma saída negociada para Briatore no mínimo restaurar algumas de suas funções comerciais.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.