Bate-papo com Nelsinho Piquet

liviooricchio

04 de dezembro de 2006 | 19h12

Nelsinho Piquet passou pelo Brasil, depois dos excelentes testes de Barcelona, realizados entre terça e sexta-feira da semana passada. Disputou as 500 Milhas de Kart da Granja Viana, sábado e domingo, onde terminou com seu time na 9.ª colocação, e agora vai acompanhar a equipe Renault nos treinos de Jerez de la Frontera, de quarta a sexta-feira.

Tive a oportunidade de bater um bom papo com ele sábado à noite, no kartódromo, algumas horas antes da largada. “O pessoal da Renault foi claro comigo: completar 100 voltas por dia, sem errar, sendo rápido, constante, não colocar uma roda fora do asfalto”, disse Nelsinho.

O teste que fez com a escuderia depois de assinar como piloto de testes, em Silverstone, serviu para ter o primeiro contato com o carro, conhecer um pouco a equipe, ninguém lhe cobrou nada. “Agora foi diferente, para mim era um aprendizado, enquanto para eles não.” Os técnicos lhe explicaram o que deveria fazer nos testes, já partindo da premissa de que Nelsinho é um piloto de Fórmula 1.

O ensaio tinha importante função principal, contou: verificar as reações do modelo RS26 com os pneus Bridgestone. A Renault competia com Michelin. “Tivemos de descobrir a melhor calibragem, compreender a forma como eles aquecem, em qual volta, 1.ª ou 2.ª, ver quanto suas paredes dobram, o que faz grande diferença aerodinâmica.” Se a parede dobra, por exemplo, o equivalente a fazer o assoalho do carro abaixar 2 milímetros, as implicações na geração de pressão aerodinâmica são enormes.

“Percebi que os pneus que usei têm menos aderência em relação aos que já havia andado, mas a diferença não me pareceu demasiada, ainda que eu não estivesse acostumado com os pneus anteriores.” O conhecimento adquirido será repassado para a conclusão do modelo RS27. “Mas não muito. O carro está 95% pronto. Creio que servirá mais para as atualizações que irão ser incorporadas.”

No total, Nelsinho percorreu o equivalente a 1.267 quilômetros ou cerca de 4 GPs. Nos dois primeiros dias registrou marcas melhores que as de Heikki Kovalainen, o substituto de Fernando Alonso. “É difícil dizer ‘foi mais rápido’. O acerto que eu tinha talvez fosse melhor que o dele, a hora em que cada um marcou o tempo também interfere, às 9 horas da manhã é uma coisa, às 13h30, outra. Mas é verdade também que nas seis vezes em que já testamos juntos em quatro eu fui mais veloz e em condições semelhantes.”

Falou mais a respeito do trabalho conjunto: “É bom para eu saber que estou dentre os rápidos da categoria, aumenta a confiança. O Kovalainen é uma estrela da Renault.” Flavio Briatore já havia afirmado em Interlagos, nos dias do GP do Brasil, que talvez aproveitasse Nelsinho nos treinos de sexta-feira, nos fins de semana de corrida, o que implicaria Kovalainen ou Giancarlo Fisichella cederem seus carros, já que não é permitida a presença de três carros da mesma equipe na pista.

“Eles me disseram que desejam me aproveitar nas sextas-feiras, para conhecer as pistas, vamos ver.” A notícia criou enorme desgaste de Briatore com a imprensa italiana. Assim como o discurso de Nelson Piquet, o pai, de que o filho poderia substituir Fisichella já na metade da temporada. É até verdade. A paciência de Briatore com o piloto italiano acabou. Ou mesmo se Kovalainen não corresponder.

Mas enveredar por esse caminho, assumir a postura de que está apenas aguardando um dos dois fraquejar para passar a ser titular soa arrogante e cria um clima de desprezo para com pai e filho por parte do grupo. A hora que Nelsinho sentar para acelerar o carro, se isso ocorrer, terá de ser bem mais eficiente dos dois. Caso contrário, ser derrotado por aqueles que ele próprio e o pai julgavam incapazes, representa perigo até mesmo para seu futuro profissional.

Por fim Nelsinho está apreensivo com relação à escala de testes. “Por enquanto, não há nada programado para mim em janeiro.” Será um problema: Nelsinho não deverá ter uma agenda muito apertada. Os dias de testes foram reduzidos, Kovalainen nunca disputou um GP e tem, óbvio, a prioridade da Renault, e há ainda Ricardo Zonta, piloto de testes, contratado também por ter experiência com pneus Bridgestone, já que trabalhou este ano com a Toyota, que competia com a marca japonesa.

“Se tiver de ficar dois meses parado não será nada bom”, disse Nelsinho. Mas irá acompanhar de perto, tomando parte das reuniões técnicas, em todos os ensaios. Ao término dos três dias de treinos em Barcelona, os responsáveis da Renault não se omitiram na análise do trabalho do piloto: “Disseram que fui muito bem, fiz exatamente o que eles queriam”, contou Nelsinho, emitindo um leve sorriso de satisfação consigo próprio.

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