Briatore perdeu tudo mesmo

liviooricchio

22 de setembro de 2009 | 16h55

22/IX/09
Livio Oricchio, de Cingapura

Olá amigos.
Escrevo aqui de Cingapura. Ontem, por incrível que pareça, não redigi uma linha sequer para o Estadão, JT, blog ou mesmo comentei para as rádios Globo e CBN por me encontrar dentro do vôo da Thai entre Zurique e Bangcok. No horário de Brasília, com os pequenos atrasos, permaneci a bordo entre 9 e 21 horas. E na sequência conexões imediatas para Kuala Lumpur e Cingapura.

Com poucas exceções, não temos disponibilidade de uso da internet a bordo, ainda. Impressiono-me como isso ainda não foi resolvido diante da importância para a economia mundial. Só fui saber da decisão do conselho, junto de jornalistas ingleses e suíços que estavam comigo, quando pousamos na Tailândia.

Boa parte dos textos das publicações de ontem não foi escrita por quem normalmente cobre a Fórmula 1 em razão desse deslocamento. Confesso que antes do GP da Itália acreditei, com fundamentadas razões, que Briatore poderia escapar de mais uma. Quando Mosley e agora, sei, Bernie Ecclestone, compreenderam a falta de provas e nova possibilidade de Briatore sair ileso, fizeram o acordo com a Renault. Sua não punição – seria política, por essa falta de evidências concretas, embora todos soubesse a verdade – em troca da sua cabeça.

É mesmo verdade: Ecclestone não apóia mais Briatore. Curiosamente, Michael Schmidt, repórter com trânsito entre todos os personagens da Fórmula 1, me contou ter presenciado uma cena em Monza que o deixara impressionado. Uso essa história no texto a seguir, escrito agora de madrugada, como fazemos tudo aqui em Cingapura.

Só uma coisa: que se puna Briatore exemplarmente nada a questionar. Há muito deveriam ter feito isso. Agora, do jeito como as coisas foram colocadas parece que tudo o de ruim que a Fórmula 1 viveu se justifica com sua presença nos paddocks. Senhores, há tantos “inocentes” por lá que é nem é bom dizer. Com culpa pesada em cartório também.

Abraços!

O texto:

“Estou arrasado” disse Flavio Briatore ao Gazzetta dello Sport, diário esportivo italiano, ontem, anunciando já que irá recorrer à justiça comum contra a decisão do Conselho Mundial da FIA, segunda-feira, em Paris. O julgamento do ocorrido no GP de Cingapura do ano passado não só baniu Briatore das competições gerenciadas pela entidade como o proibiu de toda e qualquer atividade relacionada ao automobilismo, a exemplo de administrar carreira de pilotos, promover categorias e até mesmo entrar nos paddocks dos circuitos. É de longe o maior perdedor do caso.

Na sexta-feira do GP da Itália, dia 11, o respeitado jornalista Michael Schmidt, da publicação alemã Auto Motor und Sport, acompanhava a chamada “turma do gamão”, grupo de profissionais da Fórmula 1 que se reúne com regularidade para jogar gamão. Esses encontros acontecem nos motorhomes depois de todos terminarem seus trabalhos. Fazem parte da turma do gamão Bernie Ecclestone, promotor da Fórmula 1, jornalistas da antiga, como o suíço Roger Benois, dentre outros.

O que chamou a atenção de Schimidt foi o tratamento dado por Ecclestone a Briatore que chegou ao local, visivelmente tenso, para solicitar uma conversa. “Bernie simplesmente o ignorou. Quando Flavio compreendeu que não fora bem recebido, tratou de ir embora”, descreveu Schumidt. Isoladamente o fato não significa muito, mas colocado ao lado da decisão da FIA de acabar com qualquer traço de Briatore no automobilismo não deixa de ser revelador. Briatore e Ecclestone sempre foram amigos e até sócios. Falava-se até que o italiano, 59 anos, poderia suceder Ecclestone, a um mês de completar 80.

“Estou chocado, fui traído”, afirmou Briatore ao Correire della Sera, também da Itália, referindo-se com certeza a Ecclestone. Alegou não poder falar mais por preparar sua defesa. Se não mudar a decisão da FIA, como é provável, Briatore simplesmente terá de reconstruir sua vida profissional por inteiro. Provavelmente em outra área. Mas até segunda-feira, esse italiano que não fez o equivalente ao colegial dominava um império que lhe rendia milhões de euros por temporada e acumulou patrimônio impressionante.

Dentre as fontes de renda importantes estão as comissões elevadas nos patrocínios levados à Benetton e à Renault, como os cigarros japoneses Mild Seven e o banco holandês ING. Mais: pelo menos 20% do que ganham e já acumularam pilotos como Fernando Alonso e só este ano Mark Webber, Heikki Kovalainen, Romais Grosjean e Nelsinho Piquet. A GP2 é um evento conduzido por seu lugar-tenente, o francês Bruno Michel.

Desde que Luciano Benetton lhe convidou para gerenciar sua equipe na Fórmula 1, em 1989 – antes disso Briatore nunca havia assistido a um GP -, não parou de ganhar muito dinheiro. O começo foi com Michael Schumacher, em 1991. Hoje dispõe de um sofisticado jato executivo Challenger 601-3R e um iate de três andares, sempre presente em Mônaco, o Force Blue, com 12 suítes.

Mais: o requintado e exclusivo clube Billionair, para frequentadores riquíssimos, como o primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi, na Costa Esmeralda, na Sardenha, ilha italiana, um hotel spa no Quênia, África, além da sociedade com Ecclestone no Queens Park Ranger, time de futebol da segunda divisão inglesa, dentre outros empreendimentos. Até mesmo a Liga Inglesa de Futebol deve bani-lo, como já adiantou ser possível o seu presidente, por proibir que dirigentes sancionados em outros esportes atuem lá.

A pena máxima decidida pela FIA a Briatore significa, no fundo, uma espécie de justiça desejada pela entidade. O italiano viu seu nome envolvido nas mais distintas acusações de irregularidades desde 1994, no primeiro e contestado título de Michael Schumacher, pela Benetton, dirigida por Briatore. O mais curioso é que Briatore comentava, nas rodas de conversa informais com a imprensa, seu momento único: será pai pela primeira vez aos quase 60 anos. Ano passado casou com a modelo italiana Elisabetta Grecoraci, 30 anos mais jovem.
Leitores mais bem informados escreveram que Briatore já teve uma filha com a modelo Heidi Klum e se chama Leni. Obrigado, amigos.
Abraços

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