Campeonato não acabou antes de começar

liviooricchio

16 de março de 2013 | 01h09

16/III/13
Melbourne

No treino livre de sexta-feira, no circuito Albert Park, de onde escrevo, Sebastian Vettel foi atrapalhado na parte final da volta lançada com o novo pneu supermacio da Pirelli. Na seguinte andou em velocidade moderada para na terceira voltar a exigir do seu modelo RB9-Renault.

Reportou durante a volta dificuldade com o sistema de recuperação de energia (kers), recurso que garante cerca de 80 cavalos a mais de potência. Num circuito de 5.303 metros como o de Melbourne representa a perda de algo como três décimos de segundo no tempo de volta. Pois bem, mesmo com todos esses fatores contrários a que registrasse um bom tempo, Vettel estabeleceu 1min25s908, à média de 222,2 km/h, o mais veloz do dia.

Seu primeiro adversário real, pois Mark Webber, companheiro de Red Bull, ficou em segundo, foi Nico Rosberg, da Mercedes, que marcou 1min26s322, sem nenhum dos elementos que jogaram contra Vettel na tentativa de conhecer sua velocidade com os pneus supermacios trabalhando na temperatura ideal, próxima dos 85 graus, o que não havia ocorrido em nenhum momento até então para ninguém.

Rosberg foi, portanto, 414 milésimos mais lento que Vettel. Sem o problema no kers da Red Bull, é provável que essa diferença subisse para cerca de 700 milésimos, ou sete décimos de segundo. Pior: aparentemente sem que Vettel atingisse o limite do elegante modelo RB9, pois não faz parte da rotina da Red Bull simular a classificação com gasolina apenas para a volta lançada. O histórico da Mercedes não dá essa quase garantia.

Trata-se de uma diferença enorme, pois estamos falando de apenas uma volta e por ser o primeiro dia de atividade na condição que vão enfrentar durante o campeonato e não no frio e na chuva dos testes de inverno no Circuito da Catalunha. Como me disse Jackie Stewart, três vezes campeão do mundo, hoje no paddock: “A Fórmula 1 queria conhecer o verdadeiro potencial da Red Bull, pois diziam em Barcelona que estava escondendo o jogo. Taí, vimos agora”.

Isso significa que poderemos ter outra temporada como a de 2011, em que Vettel definiu a conquista do título quatro etapas antes do encerramento do campeonato? Mais: repetirá a preocupante hegemonia das 11 vitórias e impressionates 15 pole positions daquele Mundial?

Ninguém tem bola de cristal para poder afirmar nada, mas temos razões para acreditar que apesar de outro início dominante de Vettel e da Red Bull não deveremos assistir a nova competição solo dessa dupla excepcional, já inserida na história máxima da Fórmula 1, Vettel e Adrian Newey, o genial projetista da Red Bull.

Por que não? O carro de 2011, o modelo RB7-Renault, foi concebido para explorar o conceito do escapamento aerodinâmico, criado por Newey em parceria com os técnicos da Renault e da Magneti Marelli, responsável pelo gerenciamento eletrônico do motor. O sistema ajudava a gerar mais pressão aerodinâmica.

Essa vantagem técnica não teve como ser copiada com a mesma eficiência pelos adversários, que adaptaram seus carros para tê-la também, quando descobriram, o que é diferente de projetar o carro para desfrutar de seus imensos benefícios. Assim, McLaren, Ferrari, Mercedes e a própria Renault, ex-atual Lotus, apenas puderam assistir ao passeio de Vettel.

Com a manutenção do regulamento técnico, basicamente, do ano passado para este, seria surpreendente se Newey de novo tivesse desenvolvido, com sua imensa capacidade criativa, alguma solução que fosse a responsável por a inquietante vantagem verificada pela Red Bull já no primeiro treino livre da primeira etapa do Mundial. Ninguém seria louco de jurar não ser possível. Mas pouco provável não é arriscado dizer.

Assim, o RB9 sugere ser o aprimoramento dos conceitos essencialmente já conhecidos pelos diretores técnicos dos outros times e que, da mesma forma, se utilizam deles em seus carros. Se for comprovada essa tese, decorrente da lógica da competição, então será possível aos engenheiros da Lotus, Ferrari e Mercedes, acelerando ao máximo o desenvolvimento dos modelos deste ano, aproximá-los do ritmo do RB9-Renault de Vettel e Webber. A McLaren está mais longe.

Mas há um porém nessa história que joga a favor da Red Bull. Esta é uma temporada atípica. Em 2014, muda tudo na Fórmula 1. Os atuais conceitos deste ano não serão muito úteis no ano que vem por causa da mudança do motor aspirado V-8 de 2,4 litros de hoje pelo V-6 turbo de 1,6 litro. Além da inclusão de dois recuperadores de energia nos carros, através de dois motores elétricos, e da adoção de severas restrições aerodinâmicas.

O desafio de engenharia está sendo imenso. Para não mencionar o investimento elevadíssimo no momento mais inoportuno possível, diante da grave crise econômica.

Esse quadro quer dizer que se uma escuderia compreender lá pelo GP do Canadá, em junho, quase na metade do campeonato, que para chegar na Red Bull terá de concentrar boa parte de seu grupo de trabalho e recursos no desenvolvimento do carro atual, deslocando o foco do projeto de 2014, com certeza irá optar por apenas terminar honrosamente a atual temporada. A Red Bull enfrentará adversários que quase pararam o desenvolvimento dos seus modelos de 2013.

Assim, quem desejar assistir a outro Mundial com alternância de vencedores deve torcer para que já nas primeiras etapas da fase europeia do calendário, GP da Espanha e Mônaco, por exemplo, senão antes, Vettel e Webber estejam enfrentando pilotos com carros capazes de ganhar as corridas também. Sinceramente o que acho possível e até provável. Em outras palavras, não penso que o campeonato acabou antes de começar.

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