Classificação é uma coisa. Corrida, outra. E este ano essa verdade valerá ainda mais.

liviooricchio

17 de março de 2013 | 12h45

17/III/13
Melbourne

Que a Lotus fosse ter um ritmo de corrida capaz de levar Kimi Raikkonen a lutar pela vitória já se esperava. Nos treinos de pré-temporada o finlandês e seu companheiro, Romain Grosjean, realizaram as melhores simulações de corrida. Mas que ontem, no GP da Austrália, em Melbourne, sob frio inesperado, Raikkonen fosse não apenas ganhar na abertura do Mundial como esnobar seus adversários ninguém podia imaginar.

“Foi uma das provas mais fáceis que já disputei”, afirmou Raikkonen, campeão do mundo de 2007. Isso porque ele largou em sétimo, resultado de nas sessões de classificação o modelo E21-Renault da Lotus não acompanhar o ritmo do RB9 da Red Bull e F138 da Ferrari. Ao longo dos 305 quilômetros da corrida, porém, o ritmo da Lotus é de longe o melhor hoje na Fórmula 1. “Administramos muito bem os pneus Pirelli”, explicou Raikkonen.

Administra tão bem que ontem precisou de dois pit stops enquanto Fernando Alonso, da Ferrari, segundo colocado, Sebastian Vettel, da surpreendente Red Bull – esperava-se muito mais do time tricampeão do mundo –, terceiro, um combativo Felipe Massa, Ferrari, quarto, e Lewis Hamilton, na estreia na Mercedes, quinto, não tiveram outra opção senão realizar três paradas. Alonso, com Raikkonen do seu lado, depois da bandeirada, afirmou: “Eu não sei como eles (Lotus) fazem isso. Duas paradas com o ritmo que conseguem não é para nós”.

A forma como a Lotus explora os pneus Pirelli, concebidos para ter breve vida útil, é tão superior à dos concorrentes que o finlandês resolveu mostrar no fim um pouco mais do seu arsenal: na 56.ª volta, portanto a duas do fim, estabeleceu a melhor volta no circuito Albert Park, com 1min29s274, à média de 213,8 km/h. O fato impressionou até o diretor da Pirelli, Paul Hembery. “Kimi usava os pneus médios e àquela altura eles já tinham 22 voltas de uso.”
Não contente, talvez para atingir psicologicamente Alonso e Vettel, Raikkonen comentou: “Eu tinha ainda uma reserva. Se fosse necessário poderia exigir mais do carro”.

Ao mesmo tempo, Raikkonen procurou reduzir as expectativas da torcida. “Vencemos hoje aqui, o que foi importante, mas já na próxima etapa o cenário será totalmente diferente, pois em vez de frio enfrentaremos muito calor e um circuito bastante distinto.” O GP da Malásia, segundo do calendário, será disputado no próximo fim de semana. “Nosso carro foi muito bem aqui na Austrália. Lá no circuito de Sepang não dá para saber.”

Se Raikkonen venceu muito por causa dos pneus, Sebastian Vettel, da Red Bull, atribuiu o terceiro lugar à forma equivocada como seu carro e a escuderia os trataram. O curioso é que na definição do grid, realizada 6 horas antes da largada, por ter sido adiada do sábado em razão de forte chuva, Vettel deu a entender que não teria adversários, tal sua superioridade. “Larguei bem, tive ótimo ritmo nas duas primeiras voltas, mas a seguir meus pneus começaram a se degradar.”

O alemão disse que seu time tem de investigar o que fez seu carro ter um desempenho excepcional na classificação enquanto ao longo das 58 voltas da corrida sofrer para chegar em terceiro. “Às vezes é preciso reconhecer que nossos adversários fizeram um melhor trabalho. Cabe a nós entender mais esses pneus e ajustar o carro a eles, como fez a Lotus.”

A boa notícia para quem gosta de assistir a uma temporada cheia de emoções, sem a hegemonia de uma equipe, é que ao contrário do que muitos apostavam Vettel não abriu meio segundo ou mais por volta, conforme seu desempenho na classificação sugeria. “Fomos bem mais velozes na definição do grid e bem menos na corrida. Enquanto a Lotus mostrou-se menos rápida na classificação e eficientíssima na prova”, afirmou Vettel.

Alonso disse ter obtido para várias respostas em Melbourne. “Comprovamos que estamos mais perto dos que lutam pela vitória, nosso objetivo inicial este ano. Quanto ao que vimos da Red Bull e da Lotus não há nenhuma surpresa. Já no ano passado a Red Bull era melhor na definição do grid e a Lotus na prova. Este ano continuam assim.”

O espanhol falou mais: “Estou otimista, contente, com nosso início de campeonato. Nos dois últimos anos começamos bem pior”. A estratégia correta o permitiu avançar do quarto para o segundo lugar. “Antecipamos nosso segundo pit stop (da 24.ª para a 20.ª volta). Foi uma decisão perigosa porque o novo jogo teria de resistir até a volta 40 mais ou menos.”

Seu objetivo foi ultrapassar na operação de pit stop Felipe Massa, terceiro àquela altura, e Vettel, segundo. O líder era o surpreendente Adrian Sutil, da Force india, que não havia realizado ainda pit stop. “Deu certo”, afirmou Alonso. Vettel parou uma volta depois do espanhol, na 21.ª, e Massa na 23.ª, e quando regressaram à pista já estavam atrás do espanhol.

O que a Ferrari não contava era com a capacidade de Raikkonen e da Lotus em saber usar os pneus Pirelli supermacios e médios, os escolhidos para o GP da Austrália. Por ter parado na nona volta e depois somente na 34, o finlandês ultrapassou a todos, venceu com todos os méritos e tornou-se o líder do campeonato.

Massa não gostou do resultado e sequer cogitou a possibilidade de ter sido preterido pela Ferrari para favorecer Alonso. “Ficou um certa frustração no ar porque eu não fui ultrapassado a não ser nos boxes. Estava na frente do Alonso e ele foi segundo.” Essa seria sua provável colocação num desenvolvimento normal da corrida.

“Mas se considerarmos que eu sempre expunha os pneus traseiros a grandes desgastes na prova neste circuito e meu histórico era ruim aqui, o quarto lugar, para a primeira etapa deve ser considerado um bom resultado.”

Ao mudar a estratégia de Alonso, a Ferrari fez com que os dois trocassem de posição. O espanhol antecipou três voltas e Massa manteve a programação original, de realizar a segunda parada na 23.ª volta. O que o contribuiu para não permanecer em segundo, posição obtida depois de largada espetacular, foi o fato de um ótimo Adrian Sutil, da Force India, ter feito a sua primeira parada apenas na 21.ª volta, duas antes de Massa realizar a segunda. “Eu perdi muito tempo atrás do Sutil, era mais rápido e não conseguia ultrapassar, o que me prejudicou bastante. E quando peguei pista livre meus pneus já estavam desgastados.”

O importante para Massa foi ter ratificado o bom desempenho evidenciado no fim de 2012, em oposição ao início desastroso de 2012, que certamente o faria deixar a Fórmula 1.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.