Comissários desportivos, tão atração quanto os pilotos

liviooricchio

16 de outubro de 2008 | 23h35

16/X/08
GP da China
Livio Oricchio, de Xangai

O assunto é tão sério que ontem muita gente no Autódromo de Xangai procurou saber quem são os comissários desportivos do GP da China. Nas últimas etapas do campeonato eles tiveram responsabilidade direta no resultado das corridas, ao imporem punições aos pilotos, na maioria das vezes contestadas. Restando apenas a prova de Xangai e a do Brasil, dia 2, as decisões dos comissários desportivos podem até definir o campeão do mundo.

Já no treino classificatório da próxima madrugada, das 3 às 4 horas no horário de Brasília, dependendo do que acontecer no belo traçado de 5.451 metros, lá estarão reunidos o norte-americano Steve Earle, o representante das federações da América Central, Henry Krausz, ambos indicados pela FIA, e o chinês Gao Xuechun, do país do evento, como manda a regra. São eles, em essência, quem vão decidir punições do tipo drive-through ou stop and go, por exemplo, capazes de mudar radicalmente o andamento da competição.

“Um exagero, estão aplicando penas demais”, afirmou Fernando Alonso, da Renault, vencedor das duas últimas provas, Cingapura e Japão. “Algumas corridas foram decididas por eles. Às vezes acertam e outras erram.” O espanhol apoiou, por exemplo, o drive-through a Lewis Hamilton, da McLaren, domingo no circuito Fuji pelo erro na largada. Mas não viu motivos para a mesma punição a Felipe Massa por ter se tocado com o inglês.

O instante mais polêmico da temporada até agora ocorreu no GP da Bélgica. Os comissários desportivos consideraram que Hamilton ultrapassou Kimi Raikkonen, da Ferrari, depois de tirar proveito de cortar a chicane. Eles acrescentaram 25 segundos ao seu tempo de corrida e, com isso, Hamilton caiu de primeiro para terceiro. Massa herdou a vitória.

O principal dirigente da Fórmula 1, Bernie Ecclestone, apóia as decisões tomadas este ano. “Temos dois caminhos, dar total liberdade aos pilotos ou punir os comportamentos que afetam os adversários. Optamos pelo controle maior”, diz Ecclestone. “No caso do drive-through a Hamilton no Japão…ele não tentaria aquela ultrapassagem em Kimi Raikkonen em Mônaco porque sabe que bateria no muro”, comenta o inglês.

Como Ecclestone, o italiano Flavio Briatore, diretor da Renault, defendeu a punição a Hamilton em Fuji. “Ele arriscou colocar para fora da corrida metade do grid.” Mas Briatore vê excessos em algumas decisões. “Podem inibir alguém que queira correr riscos para tentar ultrapassar um concorrente”, adverte.

Os pilotos vão discutir hoje o tema com o diretor de prova, Charlie Whiting. “O que não pode acontecer é você ser punido uma hora e depois não acontecer nada pelo mesmo motivo. Precisamos padronizar as decisões”, explica Raikkonen, atual campeão do mundo, mas fora da luta pelo título este ano. “Ano passado nossas dificuldades foram menores porque havia um comissário fixo, que ia a todas as etapas”, lembra Nick Heidfelf, da BMW. “Muitas decisões foram injustas este ano”, opina Jarno
Trulli, da Toyota. Os comissários não podem conversar com os jornalistas para eventualmente expor os motivos de suas decisões.

Na última temporada, Max Mosley, presidente da FIA, designou o experiente comissário inglês Tony-Scott Andrews para seguir o calendário. “Foi um campeonato mais criterioso nesse sentido”, afirmou Heidfeld. “Seria importante que o comissário fosse um ex-piloto, soubesse o que é largar com pneus e freios frios, ter maior noção dos nossos desafios, tivesse a visão do piloto”, propõe Alonso. Andrews não trabalha mais como comissário desportivo fixo.

A FIA mantém apenas um consultor, Alan Donnelly, cuja função, na realidade, é repassar a Mosley, por telefone, um quadro da situação e discutir uma orientação aos três comissários desportivos instituídos, a autoridade maior da corrida. “Vamos defender a volta de um comissário fixo”, adianta Heidfeld.

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