Como penso que será a disputa Alonso x Raikkonen na Ferrari

liviooricchio

11 de setembro de 2013 | 14h57

11/IX/13
Nice

Até o GP da Hungria, dia 28 de julho, não acreditava ser possível Luca di Montezemolo e Stefano Domenicali contratarem Kimi Raikkonen para ser o companheiro de Fernando Alonso. Escrevi no blog. A relação do espanhol com a Ferrari até então era idílica. E substituir Felipe Massa pelo finlandês representaria uma agressão ao piloto que é uma garantia de resultado para a equipe, o que levaria o espanhol a rever sua opção pela Ferrari, apesar do contrato até o fim de 2016.

Mas na etapa seguinte, Bélgica, e principalmente no último fim de semana, em Monza, depois de conversar com amigos da imprensa e profissionais de vários times, me convenci de que as coisas haviam mudado. Montezemolo e Domenicali não mais confiavam em Alonso, por ter se oferecido infantilmente a Red Bull, e expô-lo ao lado de outro campeão do mundo, Raikkonen, seria uma forma de dizer ao espanhol que se desejasse sair bastaria pagar a multa rescisória. Altíssima, diga-se. A Ferrari já tinha outro piloto para continuar sonhando em ser campeã.

Como penso que será essa relação na Ferrari?

Tudo vai se relacionar profundamente ao potencial do novo carro da Ferrari. A mudança no regulamento da Fórmula 1 em 2014 é tão grande que há o risco elevado de termos diferença de um, dois, três segundos por volta entre o projeto de uma e outra escuderia. E diante de a pré-temporada ter apenas 12 dias de testes, a primeira metade do próximo mundial selecionará, essencialmente, quem será capaz de terminar as corridas.

A edição de 2014 não vai começar dia 16 de março, na Austrália, como se fosse a continuação da corrida de Interlagos, dia 24 de novembro. O motor turbo, sendo apenas cinco unidades por piloto para todo o campeonato, os dois sistemas de recuperação de energia, com 30 segundos de operação por volta e 160 cavalos de potência extra, e a limitação de 100 quilos de gasolina por corrida implicará uma outra forma de encarar a competição.

Esse quadro sugere que as primeiras lutas efetivas entre Alonso e Kimi, onde o que estará em exame será mais a velocidade que a necessidade de apenas receber a bandeirada, não acontecerá nas primeiras provas. É bem possível que nessa fase, diante da obrigação de estarem unidos para realizar o desenvolvimento primário do projeto de 2014 da Ferrari, os dois pilotos trabalhem de fato juntos, sem preocupações maiores entre si.

Assim, a competição de maior representatividade entre Alonso e Raikkonen se daria, por exemplo, a partir da sexta etapa, o GP da Espanha, dia 11 de maio. As cinco primeiras provas orientariam os engenheiros que caminhos seguir. Normalmente já é assim, mas com a revisão conceitual do ano que vem esse período inicial ganhou importância exponencial.

E a partir daí?

Como disse, dependerá do que o modelo de 2014 poderá fazer. Se estiverem longe do desempenho da Red Bull, por o super criativo Adrian Newey ter realizado outro monoposto inovador e capaz de se impor à concorrência, a disputa interna na Ferrari perderá força por seus pilotos terem de unir forças para tornar o carro mais veloz. Se for possível. Pode ocorrer de para se aproximar de um adversário que está muito à frente seja necessário um novo projeto, o que ficaria para a temporada seguinte.

Mas admitindo-se que o carro que grego Nikolas Tombazis e agora o inglês James Allison estão concebendo para a Ferrari responda com um nível semelhante de performance da Red Bull e Mercedes, vamos dizer, como seria a convivência dentro da Ferrari?

Raikkonen não diz e desconversa quando lhe perguntam a respeito da disputa com Alonso. Mas dentro de si há um vulcão, tipo do monte Fuji, no Japão, com seus quase 4 mil metros de altura, que o impulsiona a ser mais eficiente que o companheiro. Embora não pareça. E o espanhol, em compensação, tem o monte Olimpo dentro de si. Monte Olimpo, em Marte, é o maior vulcão do sistema solar, com 25 quilômetros de altura.

Para Raikkonen, é importante se mostrar mais eficiente que Alonso. Para o espanhol, imprescindível. Tenha a certeza de que um vai querer vencer o outro.

Me arrisco a dizer que não veremos jogo sujo na pista. Serão duros, mas seu histórico não propõe que seriam capazes de provocar um acidente deliberado para atingir o outro em favor próprio. Os dois jogam limpo.

A Ferrari vai dar o mesmo equipamento para os dois pilotos. Nem todos acreditam, mas já era assim na época de Rubens Barrichello, com todo o favorecimento que havia a Michael Schumacher dentro da pista. Com Felipe Massa não foi diferente e com Alonso e Raikkonen não mudará nada. A Ferrari tem estrutura para disponibilizar dois carros iguais, o que não é o caso da Lotus, como Eric Boullier assume.

Quem eu acredito que em condições normais vai se dar melhor?
De tudo o que vi da carreira dos dois e me sinto a vontade por ter acompanhado de perto praticamente todas as suas corridas na Fórmula 1, em termos de velocidade numa volta lançada Alonso me parece ser mais rápido. Penso que o placar pela melhor colocação no grid deve ficar um pouco a favor de Alonso. Refiro-me a milésimos de segundo, bem entendido, hein? Se o carro não for muito equilibrado. Alonso assume mais riscos e tem mais habilidade para tirar velocidade também.

Nas corridas, o páreo deverá ser mais apertado. Alonso impressiona quando leva a Ferrari ao pódio mesmo apresentando um ritmo inferior ao de pilotos que deixou para trás. Raikkonen tem a mesma capacidade. É o que mais os caracterizam. Muito técnicos, constantes, com excelente visão da prova, em qualquer condição, chuva, seco e quando asfalto seco e molhado se alternam.

É nesse aspecto que o desafio de Domenicali é grande. Alonso e Raikkonen têm o mesmo potencial para somar o mesmo número de pontos. Mas só um pode vencer, terminar em segundo ou terceiro. E cada um vai querer a todo custo o resultado. Será inevitável que em algum instante, senão em vários, ambos se vejam numa disputa de freada em que a curva à seguir permite a passagem de apenas um carro.

Como escrevi, Alonso e Raikkonen não são do tipo de dar um chega para lá. Mas alguém terá de ceder. E será mais difícil Alonso tirar o pé que Raikkonen. O espanhol sabe que as primeiras experiências desse tipo vão ditar como será o comportamento nas seguintes. Raikkonen não será, contudo, segundo piloto. E por vezes da mesma forma irá forçar a manobra com cuidado para não se autoexcluírem da competição.

Domenicali sob exame

Não hesito em acreditar que haverá reclamações se essas situações forem frequentes. Domenicali terá de sentar com os dois e estabelecer alguns critérios de preferência, relacionados sempre ao melhor desempenho de cada um. Um líder forte nessa hora ajuda a conduzir o processo com menor desgaste para todos. Mas Domenicali não é esse líder. Liberal, prefere as conversas francas. Nem sempre é a melhor solução. Por esse motivo o próprio Domenicali estará sendo analisado por Montezemolo. E dependendo do que acontecer, a Ferrari poderá ter novo diretor no fim da próxima temporada.

Não me arriscaria a dizer quem poderia se dar melhor ao longo de 21 etapas em 2014. Com todo o respeito por Raikkonen, que também seria piloto do meu time, se tivesse dez fichas para apostar colocaria seis em Alonso e quatro em Raikkonen.

O finlandês tem um fator importante a seu favor e que, na minha visão, vai explorar: sabe que Alonso convive muito mal se fica atrás do companheiro de equipe. Desestabiliza-se se o caso se repetir com frequência. Raikkonen é mais frio, deixa-se afetar menos por fatores psicológicos.

Se pelas mais diferentes razões Raikkonen começar a obter melhores resultados, Alonso não vai aceitar passivamente. Dentro de si aquilo não é possível. Ele se acha o mais capaz. Então procurará atribuir a fatores externos o fato de estar produzindo menos que Raikkonen. Se a situação não mudar e permanecer atrás, o que é pouco provável, por ter a força interior do Monte Olimpo, mas possível, lógico, começará a sobrar para a Ferrari, como fez na McLaren, em 2007.

A primeira requisição será omitir as soluções de acerto do seu carro. Para não serem disponibilizadas ao grupo de técnicos de Raikkonen. Com toda certeza Domenicali não vai aceitar como incrivelmente fez Ron Dennis na McLaren. Se chegar a esse ponto, então a convivência entre Alonso e Raikkonen e a Ferrari entrará em ebulição e o resultado é conhecido: o espanhol terá de procurar equipe no fim de 2014.

Pessoalmente não acredito que chegará a esse ponto.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: