Corridas emocionantes, mas nem sempre fáceis de serem entendidas

liviooricchio

18 de maio de 2011 | 06h55

17/V/11

Livio Oricchio, de Nice, França

  Em quatro etapas disputadas até agora, Austrália, Malásia, China e Turquia, os 24 pilotos que competem na Fórmula 1 realizaram impressionantes 244 pit stops e ocorreram 205 ultrapassagens. O clímax desse frenesi aconteceu no GP da Turquia, dia 8. Ao longo das 58 voltas da corrida vencida pelo competente Sebastian Vettel, da Red Bull, atual campeão do mundo e líder destacado da temporada, foram estabelecidos dois novos recordes absolutos na história de 62 anos da Fórmula 1: 81 pit stops e 79 ultrapassagens.

  “Ficou emocionante, não?”, perguntou aos jornalistas Bernie Ecclestone, promotor da competição, em Istambul, depois da prova. Se os telespectadores pudessem responder, a quem essencialmente o evento é endereçado, Ecclestone provavelmente ouviria: “Sim, mas não dava para saber quem era o segundo, terceiro, quarto colocados, por exemplo, tantas são as mudanças nas classificações”. Essa é a impressão de parte importante dos milhões de fãs que acompanham as transmissões. A Fórmula 1 ganhou emoção ao mesmo tempo em que as corridas se tornaram difíceis de serem compreendidas.

  “Viajamos de um extremo ao outro. No último campeonato era uma monotonia só, uma parada nos boxes, tudo previsível. Agora as provas tornaram-se imprevisíveis demais. A hora é de um ajuste”, comenta Christian Horner, diretor da Red Bull. Mas ele é parte interessada em rever a questão. A Red Bull concebeu o melhor carro do ano e, portanto, quanto menos variáveis nas corridas maiores suas possibilidades de vitória.

  As manifestações contrárias ao que de passou em Istambul vêm até do diretor da Pirelli, Paul Hembery, fornecedora de pneus da Fórmula 1. O inglês concordou que o GP da Turquia foi além do que deveria. “Fomos pegos de surpresa. Quatro pit stops representam muito. Trabalhamos para dois ou três.” Apesar de o seu foco, hoje, estar na proposta de um novo projeto para a Fórmula 1, com novos proprietários, em substituição a Ecclestone, Luca di Montezemolo, presidente da Ferrari, mostra-se um crítico voraz do atual formato da competição. “É artificialismo demais. 80 pit stops, o que é isso? Quero ver disputa na pista, não nos boxes.”

  Montezemolo explica, ainda, em conformidade com a reação de boa parte dos torcedores: “As pessoas não entendem mais as provas porque quando os pilotos deixam os boxes, após os pit stops, ninguém mais sabe sua colocação”. Alguns números exemplificam: Na liderança, apenas duas trocas de posições. Já na segunda colocação houve 8; 3.ª, 8; 4.ª, 10; 5.ª, 15; 6.ª, 22; 7.ª, 20; 8.ª, 25; 9.ª, 26; 10.ª, 23. 

  Curiosamente, de modo geral, os pilotos gostaram das novas regras. Atendendo solicitação de Ecclestone, a Pirelli produz pneus com autonomia para 10, 12, 15 voltas, apenas, na média. Além disso, a FIA introduziu o flap traseiro móvel e a volta do sistema de recuperação de energia (Kers). Todos esses elementos combinados facilitaram sobremaneira o que mais faltava à Fórmula 1: ultrapassagem.

  O recorde anterior ao quebrado na Turquia era o do GP dos Estados Unidos de 1983, em Long Beach, com 79 ultrapassagens, também, mas com 26 carros na pista e não 23, como em Istambul. Timo Glock, da Virgin, não largou na Turquia. No ano passado, no total, ocorreram, em 19 etapas, 452 ultrapassagens. Em 2009, nas 17 provas, 215. Já no ranking dos pit stops a melhor marcar até Istambul era do GP da Europa de 2007, em Nurburgring, Alemanha, com 75 pit stops, num GP que choveu, depois o asfalto secou e voltou a ficar molhado.

  “Nos divertimos mais, agora, verdade, mas sinto falta de não poder exigir tudo do carro o tempo todo, por ter de preservar os pneus”, comenta Mark Webber, companheiro de Vettel. Michael Schumacher considera que hoje há mais justiça: “Alonso perdeu o campeonato do ano passado por não poder ultrapassar Petrov, mesmo sendo mais rápido. Agora isso não aconteceria.” Mas também vê o lado negativo do regulamento: “A Fórmula 1 ficou lenta. Somos bem menos exigidos fisicamente. Eu pilotava carros mais rápidos há dez anos.”

  Com apoio ou crítica dos torcedores e de seus profissionais, o que é certo é que não haverá nenhuma mudança radical das regras para 2012. “A maior parte das equipes já trabalha nos seus modelos da próxima temporada tendo como base o que vemos hoje”, lembra Ross Brawn, diretor técnico da Mercedes. “Para aprovar um novo regulamento, agora, seria necessário que todos concordassem e não acredito nisso porque os custos de repensar um carro para novos desafios seriam imensos.”

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