Criticar o Massa sem saber ao certo… Por favor, gente.

liviooricchio

13 de maio de 2008 | 17h58

13/V/08
Livio Oricchio, de Helsinque

Amigos:
Sabe o que mais me impressiona em muitos comentários? É como se expressa um juízo de valor cabal, sem dar margem a que talvez não seja aquilo. Mesmo não dispondo de dados suficientes emite-se uma opinião final, taxativa, sem direito a eventualmente ser diferente. E são coisas do tipo tudo ou nada. Capaz ou incompetente. Herói ou vilão.

Cheguei a Helsinque onde farei uma grande reportagem sobre Kimi Raikkonen, como um gostoso bate-papo com seus pais, visita à casa onde cresceu em Espoo, com o banheiro fora, dentre outras pautas. Leia o Estadão domingo. Estará lá. Ah, conversei com o Kimi por 25 minutos quinta-feira em Istambul. Acho que de tanto me ver na primeira fila das entrevistas resolveu me dar uma atenção especial e inesperada. Na realidade tem aí o dedo do Heikki Kulta, finlandês, seu amigo pessoal e, por coincidência, meu também.

Está fazendo um frio danado aqui. Saí para jantar há pouco e regressei depressa para colocar meu casacão de neve. Agora, 23 horas, está uns 2 graus.

Bem, voltando. Senhores, Luca Baldisseri, o responsável pelas estratégias da Ferrari, dentre outras funções, não criticou Felipe Massa, como alguns comentários afirmam categoricamente. Disse, sim, para a RAI, a TV italiana, que se Massa tivesse segurado Lewis Hamilton um pouco mais, Kimi Raikkonen teria sido o segundo colocado.

É apenas uma constatação. Não houve tom crítico. Mesmo porque Massa não dificultou demais a ultrapassagem de Hamilton porque recebeu orientação de Rob Smedley, seu engenheiro, para não resistir. E Baldisseri tem acesso à frequência de rádio de Smedley e de Chris Dyer, o engenheiro de Kimi. Se fosse o caso, diria lá, na hora, “nada disso, segura o Lewis”. E não o fez. A última palavra é dele. Mesmo quando Ross Brawn ainda estava na Ferrari era, no último ano, Baldisseri quem definia as estratégias.

A ordem foi evitar riscos. Todos compreenderam, logo, que Hamilton estava em outra estratégia e sua McLaren estava muito mais rápida. Passou como quis pelo Massa. No circuito de Istambul, não haveria como segurá-lo atrás sem expor-se a um toque, dada a diferença de velocidade. Vocês viram como o Hamilton foi embora depois de passar?

Nós já criticamos bastante o Massa quando cometeu erros na Austrália e na Malásia. Mas é inegável que esteve muito bem nas três últimas provas. Demonstrou equilíbrio ao perder a liderança e continuar seu planejamento de corrida, sem deixar que as emoções lhe pusessem tudo a perder. Essa é a nota positiva para ele no GP da Turquia, numa pista, acreditem, muito seletiva.

A TV não mostra com precisão a topografia acidentada do traçado, o que o torna mais difícil do que já parece. Massa pode até errar em Mônaco e voltarmos a lembrar sua inconstância. Mas, por favor, não busquemos razões para atingi-lo quando não existem, como nesse caso das declarações de Baldisseri.

Ia esquecendo: “Massa é o segundo piloto”. Pessoal, acredite, isso não existe. Participe do dia-a-dia do fim de semana de corrida no autódromo, converse com o pessoal da equipe, ouça os pilotos, sinta de perto o ambiente de trabalho. Faça isso com pessoas que você conhece há anos, o sufiente para aprender como as coisas se processam. Resultado: ficaria, de novo, impressionado como estou. Massa e Kimi têm exatamente o mesmo tratamento. Se Massa não for campeão não será por ser preterido no grupo. E se for, não será porque teve as preferências da Ferrari. A hora exige menos leviandade, por favor.

Abraços. Vou aumentar a temperatura do meu quarto no ar condicionado.

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