Decisão tecnicamente correta

liviooricchio

21 de junho de 2013 | 16h06

21/VI/13
São Paulo

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A decisão dos quatro juízes do Tribunal Internacional (TI) da FIA, de apenas dar uma reprimenda a Mercedes e a Pirelli, bem como excluir a equipe do teste com jovens pilotos, em julho, é coerente. A Mercedes recebeu autorização verbal do delegado de segurança da FIA e responsável por dirimir as dúvidas sobre legalidade ou não de recursos e ações, Charlie Whiting, para aceitar o convite da Pirelli de realizar mil quilômetros de testes.

Ao mesmo tempo em que Ross Brawn, diretor do time alemão, sabia da proibição explícita do regulamento. Mas como punir uma equipe que estava respaldada pela autorização de Whiting, legítimo representante da FIA?

Como é possível a FIA afirmar que não autorizou o teste se Whiting consultou o diretor jurídico da própria entidade, Sebastien Bernard, e respondeu a Brawn que poderia usar o modelo deste ano no ensaio. Impôs, contudo, que os demais times também tivessem a mesma oportunidade.

Mas cabia a Mercedes providenciar que todos participassem do teste? Mais: o contrato entre a FIA e a Pirelli não estabelece, em nenhum instante, segundo explicou ao Estado Francesco Paolo Tarallo, chefe de comunicação da empresa, que esses testes de mil quilômetros, prerrogativa do fornecedor de pneus, reúnam todos os concorrentes ao mesmo tempo na pista. “Foi por essa razão que depois de a Mercedes testar nos colocamos a disposição de quem desejasse para agendar conosco o mesmo teste”, disse o italiano.

Os juízes compreenderam não poder punir a Mercedes. O que está errado não é a decisão da equipe, mas a ambiguidade entre o que estabelece o regulamento, que proíbe testes, e o direito do fornecedor de pneus, no caso a Pirelli, de requerer um teste com os times, não obrigatoriamente juntos, para um treino de mil quilômetros, utilizando o carro da temporada, existente até por razões de segurança.

A hora é de deixar clara a questão. Quando esse teste é necessário, como agora, por exemplo, por que não a direção da Pirelli e representantes das equipes, junto com Whiting, estabelecerem uma data conveniente e organizá-lo? Nada disso está previsto no regulamento ou no contrato entre a Pirelli e a FIA.

Foi uma decisão política, a fim de preservar a Mercedes?
Historicamente a condução da Fórmula 1 é política. Mas cheguei a escrever que a convocação do TI, pela primeira vez, conferia ao julgamento um caráter diferente. Os advogados do caso estão dentre os mais renomados em seus países. É bem diferente dos membros do Conselho Mundial, altamente influenciados pelos interesses dos presidentes da FIA. Muitas vezes as decisões chegam prontas para o Conselho. A reprimenda a Mercedes não deve ter agradado o alto escalão da FIA. Vejo como um decisão técnica mesmo. A ambiguidade dava razão aos dois lados, daí a impossibilidade de punir os envolvidos.

O que se espera é que essa desgastante experiência para a Fórmula 1 defina com precisão os direitos e obrigações de cada um, equipes e fornecedor de pneus, quanto aos testes. E se espera também, até para a credibilidade do evento, que a FIA não mais desautorize publicamente o profissional que ela própria designou para esclarecer as dúvidas dos concorrentes, Whiting, bastante atingido com o episódio.

Foi a partir do seu “ok” que Brawn levou adiante a ideia, muito conveniente a seu time, diga-se, de aceitar o convite da Pirelli. O que não pode mais acontecer é um integrante com a função importante de Whiting dizer uma coisa e depois a entidade que representa afirmar outra. Que eles se entendam entre si. Quando isso acontecer as possibilidades de casos como o julgado ontem em Paris se repetirem serão muito menores, bem como o desgaste de todos.

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