Determinação, superação, heroísmo, a bela história de Hamilton

liviooricchio

18 de março de 2007 | 09h43

Material enviado à redação
Reportagem de F-1: História de Hamilton dá um belo roteiro de cinema
GP da Austrália
Livio Oricchio, de Melbourne

Início
A trajetória de um menino inglês bem simples, negro, neto de imigrantes da ilha de Granada, no Caribe, que lutou com enorme determinação contra todas as dificuldades e injustiças, e conseguiu vencer, conquistar reconhecimento internacional. Não se trata da sinópse de um filme capaz de sensibilizar a todos, mas da verdadeira história do jovem piloto da McLaren, Lewis Hamilton, protagonista, ontem, da etapa de abertura do Mundial.

Tudo começou quando seus avós, descendentes de africanos, migraram da colônia inglesa Granada, na América Central, para a Inglaterra. Há 45 anos nascia seu pai, Anthony, que um dia casou-se com Carmen Lockhart, inglesa também, branca. A relação durou pouco, mas suficiente para gerar um filho, nascido a 7 de janeiro de 1985, Lewis Hamilton. Com apenas 6 anos, o menino venceu o Campeonato Nacional de Video Game, promovido pelo famoso programa de TV da BBC Blue Peter.

Com 8 anos, de tanto ver outros meninos correr de kart perto de sua humilde casa, na periferia de Londres, Hamilton pediu para experimentar aquele brinquedo. Não deu certo: bateu, quebrou o nariz e se assustou com o sangue perdido. Foram, pai e filho, passear de carro até a Espanha, nas férias escolares e de Anthony, modesto funcionário da British Railways, empresa de trens inglesa. “Dormiamos no carro”, lembra o pai.

Aquela experiência assustadora no kart acabou por estimular Hamilton. Voltou a pilotá-lo. Agora sério. Com 10 anos tornou-se o mais jovem campeão da categoria Cadete. “Para sustentar o projeto de Lewis ser piloto eu tinha três empregos fixos”, contou Anthony. “O kart era pintado a mão por mim mesmo.” A conquista lhe deu o prestigioso prêmio da revista inglesa Autosport, em 1995.

Na cerimônia, Anthony sugeriu ao filho cumprimentar Ron Dennis, sócio e diretor da McLaren. “Lewis disse-lhe o que conseguira e pediu um autógrafo. Quando Ron Dennis devolveu o papel com a assinatura, ouviu que tinha de deixar o seu telefone.” Um menino de 10 anos, magrinho, negro, campeão de kart, solicitando o contato de um dos dirigentes mais bem sucedidos da Fórmula 1. “Lewis afirmou a Ron que um dia pilotaria para a McLaren”, recorda o pai.

Apenas 3 anos depois, em 1998, Anthony recebe um telefonema. Era Ron Dennis. Hamilton havia conquistado na sequência três títulos nacionais no kart. Proposta: ser o primeiro piloto da McLaren Junior Drivers Scheme, criada para apoiar jovens talentos e depois, claro, aproveitá-los. Hamilton venceria ainda o Europeu de kart antes de estrear na Fórmula Renault Britânica e vencê-la, bem como, depois, sagrar-se campeão europeu de Fórmula 3 e, ano passado, na estréia na categoria, obter o título da GP2. Tudo bancado pela McLaren.

Ontem foi a primeira vez que o piloto formado pelo programa da McLaren mostrou o que o enorme investimento realizado nele pode render. A primeira impressão excedeu todas as expectativas. Mas bem diferentemente do que quase todos pensavam, o iminente sucesso de Lewis Hamilton na Fórmula 1 não permitirá mudar demais sua maneira simples de viver.

O contrato de três anos assinado com a McLaren lhe irá render cerca de um terço do suposto, ou seja, apenas US$ 300 mil este ano, ou incrível 1% do que será pago a Fernando Alonso por esta temporada. E pensar que Hamilton, ontem, deu um suador no brilhante espanhol.
FIM

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