Diário. Capítulo 2: Frentista abastece a Lotus de Emerson em Nurburgring

liviooricchio

20 de julho de 2007 | 06h53

19/VII/07
Livio Oricchio, de Nurburg

Olá amigos. Eu quase não acreditei quando vi, ontem, comentários no primeiro capítulo do Diário de Viagem. E melhor: demonstravam que vocês leram aquele “ensaio” até o fim. Parabéns. Alguém que acesse a Internet e estende a leitura de um texto de proporções descabidas até as últimas linhas merece consideração ainda mais especial.

Como eu consegui dormir bem no vôo de São Paulo a Frankfurt, terça-feira, o horário que iniciei a redação do capítulo 1, meia noite de quarta-feira para mim, aqui em Meuspath, correspondia, ainda, às 19 horas de São Paulo, para onde apontavam os ponteiros de meu relógio biológico.

Sem sono, aquele silêncio convidativo da noite e meu prazer em lhes contar, quando possível, um pouquinho desse lado mal conhecido relativo à cobertura da Fórmula 1 me levaram a escrever, escrever até, de repente, dar uma dura em mim mesmo.

Já fui orientado a reduzir significativamente os posts. Dizem que o blog ganharia mais leitores. Pode ser. Acredito. Quem me sinaliza entende muito mais de Internet do que eu. Mas certas passagens têm, na minha leitura, de serem descritas nas dimensões da extensão dos fatos. Concordo, é também uma interpretação subjetiva.

Amigos, a dona Gertrud me levou para o circuito, hoje de manhã, e o Theodore – é esse mesmo o nome do seu marido– fez cara feia de novo. O meu carro ficou com o Felipe Motta, da Jovem Pan, hospedado a dois quilômetros de Meuspath. Chovia. De onde desci do carro, ao lado do estacionamento de imprensa, ao paddock, é uma bela caminhada. Sob chuva parece ainda maior.

Havia um zum-zum-zum de que a McLaren poderá ser punida, dia 26 na reunião do Conselho Mundial da FIA, em Paris, que vocês precisavam ver. Pode ser que não dê em nada. Mas se o clima de hoje for mesmo indicativo do que irá ocorrer, amigos, o campeonato pode ganhar ainda mais vida. Tirariam pontos dos pilotos da McLaren, Lewis Hamilton e Fernando Alonso, os líderes do Mundial. Já pensou? Só não me perguntem sob qual critério. Não descobri ainda se é que essa será mesmo a punição.

De novo o fuso horário não está me deixando dormir. Em compensação para despertar às 8 horas, o que corresponde às 3 da manhã para mim, levanto como se tivesse uma locomotiva nas costas. Faz parte de nossa atividade e esses efeitos da diferença de fuso sempre me acompanharam. Desgasta a todos, lógico, mas não é algo que me põe a pensar, até porque não há como evitar. A não se residir aqui na Europa, o que a médio prazo não excluo.

Olha amigos, vou lhes deixar com uma historinha que classifico dentre as mais interessantes já experimentadas por mim. Foi em 2004, aqui mesmo, quase ao lado da casa da dona Gertrud, em Meuspath. No posto de combustível do Joachim. O homem tem num apêndice do posto uma loja de miniaturas de carros de competição que não posso permanecer muito tempo dentro.

Para quem se deleita com modelos de veículos de corrida, como eu, percorrer as vitrines da loja do Joachim representa recapitular a história do automobilismo esportivo. E fazer contas a respeito do saldo do cartão de crédito. Há miniaturas, em várias escalas, de carros dos anos 20 aos de hoje. E, da mesma forma, de reproduções mais simples, nem tão caras, mas sempre bem realizadas, a verdadeiras obras de arte, destinadas a colecionadores.

Marco Santos, jornalista de Manaus, acompanhava o Antonio Pizzonia na sua trajetória na Fórmula 1 e em algumas ocasiões pude colaborar com ele no sentido de aproximá-lo dos profissionais da FIA, a fim de demonstrar a viabilidade de ser credenciado regularmente. Um belo dia, o Marco me oferece uma caixinha, nem tão pequena assim, aqui em Nurburg, onde se encontra o circuito.

Qual não foi minha supresa ao ver que era da Lotus 72D de Emerson Fittipaldi, escala 1:18, se não incorro em erro, maravilhosa, de metal, confeccionada observando os menores detalhes do projeto coordenado por Colin Chapman. Um presentaço e, posso dizer, nada barato. De novo: obrigado Marcão.

Até hoje quando vou a Manaus, o que nas minhas férias não é raro, meu amigo me leva a comer o que quase não gosto: costela de tambaqui na brasa, filé de pirarucu, jaraqui, a sardinha da Amazonia, frito, tucunaré e matrichã. Tenho certeza de não ter escrito corretamente o nome de alguns desses peixes. Mas coloque-os numa mesa, vede meus olhos e questione-me qual estou comendo. Sabe qual é a chance de eu errar? Nenhuma!

Começamos em Meuspath, na Alemanha, e já estava num igarapé perto de Parintins, de onde vem o Marco. Eu viajo mesmo, não?

Vamos voltar para cá. O texto a seguir já o publiquei, há três anos, durante a cobertura desta prova aqui de Nurburgring. Mas não vejo razão para não lhes apresentar de novo. Nosso espaço é um tanto distinto daquele do jornal. Somos mais próximos no blog. Imagine se eu me referir ao leitor em primeira pessoa no Estadão. Nossa! Com razão a reportagem não será publicada e irão verificar a minha febre, isso para dizer o mínimo.

Antes de desligar, só uma coisinha. Acabei de chegar do restaurante La Lanterna, dos meus amigos Maurizio e Giovani, a uns oito quilômetros daqui. Sou exigente para comer, vocês já compreenderam, mas como me delicio com sua comida. O gnocchi al gorgonzola, feito lá, o spaghetti ai frutti di mare, a insalata caprese, a qualidade da muzzarela de leite de búfala, não, não, não. Basta! Não vou lhes contar mais nada. Apesar de ter saído há pouco de lá estou ainda sob os efeitos inebriantes de seus pratos.

Mas o que desejava dizer é que encontrei no La Lanterna um italiano que percorre parte do mundo com a Fórmula 1. Sabe o que ele faz? Cambista profissional. Hoje avancei na minha tentativa de convencê-lo a me permitir uma bela reportagem. Prometi não fotografá-lo tampouco citar seu nome.

Combinamos de nos ver de novo amanhã, no mesmo La Lanterna. Se ele me der os detalhes de seu “trabalho” creio que poderei redigir um texto interessante. Torçam comigo.

Fiquem, agora, com a história do Emerson Fittipaldi, aqui em Nurburgring, em 1973, contada pelo Joachim, o mesmo do posto de gasolina, e pelo próprio Emerson, por telefone. Liguei para ele, em 2004, a fim de confirmar tudo. Não só me garantiu ser verdade como riu muito de eu descobrir e contar aos leitores, agora do blog.

Grande abraço, amigos. Ah, o barulhinho de uma leve chuva na janela do quarto aguça a minha vontade de?…de?…de? Advinhou: fazer xixi. Mas como contei ontem, o fabuloso quarto construído pelo marido da dona Gertrud, nem vou falar seu nome, pronto, não tem banheiro.

Resultado: terei de sair da cama, debaixo do cobertor quentinho – o laptop está apoiado sobre ele -, calçar minha pantufa de pele de carneiro, apanhar a chave da casa da dona Gertrud, descer as escadas do mezanino da garagem, onde se encontra o meu quarto, deixar a garagem e caminhar uns 10 metros debaixo de água – bom para reforçar a vontade do xixi -, abrir a porta da casa da dona Gertrud, no escuro, e dirigir-me, também no escuro porque o casal Schneider dorme com a porta do quarto aberta e se eu ascender a do corredor certamente irei importuná-los, até o banheiro. Perderam-se no período longo? Eu, sim.

Se eu não fizer até lá xixi nas calças de meu pijama de flanela amarelo decorado com bolas de cores variadas e vivas, predominantemente laranja, poderei, finalmente, utilizar o vaso sanitário. Só não estou certo se devo dar a descarga. Faz um barulho della Madonna. E a caminha dos pombinhos Schneider acha-se do lado. Claro, há o longo caminho de volta até meu quarto, tempo de molhar ainda mais meu gorro de pompom. Simples, não? Quem defende não existir glamour na cobertura da Fórmula 1?

De novo abraços (quantos não?)!

Início
NURBURG – A Fórmula 1 já foi muito diferente, e nem faz tanto tempo assim, 34 anos, que um frentista entrou na pista com um galão de gasolina, abasteceu o carro do campeão do mundo e ele voltou ao treino. Incrível: sem que quase ninguém ficasse sabendo.

A história é verdadeira. Aconteceu com Emerson Fittipaldi, da Lotus, em 1973, no velho circuito de Nurburgring, com 22 quilômetros de extensão, inaugurado em 1927 e onde está sendo disputado agora o GP da Europa, embora numa versão bem distinta do traçado. “O cara apareceu no meio do mato, eu estava lá parado, lembro sim”, disse ontem Emerson, por telefone, de São Paulo.

A entrada principal do autódromo alemão encontra-se numa estrada que corre pararela à reta do circuito original, separadas por poucos metros e uma cerca. A dois quilômetros dessa entrada há na estrada um posto de gasolina, onde também funciona um restaurante e uma bem equipada loja de miniaturas de carros de competição, com algumas raridades até.

Hans Joachim Retterath é o seu proprietário. É a segunda geração da família que administra o negócio na pequena vila de Meuspath. “Meu pai já tinha o posto na época da construção do autódromo”, diz ele. Dentre as prateleiras de miniaturas, uma pequena foto de Emerson, de pé ao lado da Lotus negra e de um galão de 10 litros, é a pista para a descoberta da história.

“Eu estava reabastecendo um carro aqui no posto quando ouvi do outro lado da cerca barulho de um motor de Fórmula 1 pipocando e disse a mim mesmo que deveria ser falta de gasolina.” Tudo o que Hans Joachim precisou fazer foi atravessar a estrada onde se acha o posto. “A cada 200 metros, em média, há um recorte na cerca, para a entrada do pessoal de resgate e atendimento médico. Bem em frente ao nosso posto há um, até hoje. Entrei e vi o Emerson saindo do cockpit.”

A comunicação entre os postos de fiscalização do circuito era precária. “Se nem durante as corridas existia, imagine num treino”, explica o alemão.

Emerson comprova tudo: “Não havia rádio. Se você batia ou tinha um problema no carro, ficava parado lá mesmo. Até descobrirem que você está em dificuldades passava-se muito tempo.” O treino prossegue e Emerson diz a Hans Joachim que está sem combustível.

“Fique tranquilo que volto já”, respondeu Hans Joachin. Tudo o que o frentista precisou fazer foi retornar ao seu posto e encher um galão de dez litros com gasolina. “A octanagem que usávamos era um pouco mais alta na comercializada na bomba, mas o motor Ford V-8 funcionava bem com ela também”, conta Emerson.

Ao passar pelo local e ver a Lotus, Emerson e o frentista trabalhando no carro, o piloto neozelandês Chris Amon parou com sua Tecno Martini para ver se necessitavam de ajuda. “Nessa época era assim, principalmente em Nurburgring. Todos sabiam das dificultades logísticas e por isso a solidariedade era grande, em especial nos casos de acidentes”, recorda Emerson.

“Eu parei para ajudar o Niki Lauda, em 1976. Cheguei a retirar suas sapatilhas”, diz. Lauda sofreu grave acidente no circuito, no quilômetro 11, no setor Bergwerk, e sua Ferrari pegou fogo.

O bocal do tanque dos carros do início dos anos 70 era o mais simples possível: uma tampa de metal com rosca. Assim, foi só abri-la e reabastecer. Em seguida, Emerson acionou o motor de arranque, nesse período existia na Fórmula 1, bem como a bateria era bem maior que hoje, o motor pegou e, sem problemas, retornou aos boxes, distante apenas dois quilômetros.

Só que nesse espaço de tempo interromperam o treino e os mecânicos da Lotus saíram num furgão atrás do seu piloto, que não aparecia. Percorreram os 22 quilômetros, cheios de curvas, subidas e descidas, o que levou cerca de 20 minutos e, pior, não acharam nada.

Ao se aproximarem da área de garagem, não sabiam o que pensar. “Eu já estava de volta nos boxes”, falou Emerson, ontem, rindo. “Foi assim mesmo.” Os mecânicos lhe disseram que imaginaram que se acidentara e a Lotus voou para o meio da mata.

Coisas de uma Fórmula 1 que não existe mais. Quem poderia imaginar, atualmente, um frentista entrar por um buraco na cerca no circuito de Mugello, por exemplo, reabastecer a Ferrari de Felipe Massa e ele continuar seu trabalho na pista como se nada fosse?

O momento raro em Nurburgring, em 1973, foi registrado por Hans Joachim por sua máquina fotográfica, que lhe deu o direito de posar também ao lado da lendária Lotus 72D de Emerson, o campeão na temporada anterior.

FIM

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