Diário da cobertura do GP da Austrália. Capítulo 2

liviooricchio

15 de março de 2007 | 06h37

Boa dia, amigos. Boa noite para mim, aqui em Melbourne. São 19 horas de quinta-feira e me encontro na sala de imprensa do belo circuito Albert Park. Olha, o que aprendi nesses dois dias, ontem à tarde e hoje, excede o que absorvi em toda pré-temporada. Submeti-me a um intensivão.

Finalmente pude aprender com Denis Chevrier, o engenheiro-chefe de motores da Renault, o que pôde ser modificado entre o fim do campeonato passado e o início deste, e o que está congelado e pode ainda ser desenvolvido. É mais fácil do que pensava. A FIA definiu o conceito de motor, que seria o bloco e cabeçote, por assim dizer, e deixou o restante fora do congelamento.

Denis Chevrier e sua esposa, Anne Giuntini, jornalista do L’quipe, da França, têm uma veia naturalista, semelhante a minha. Somos amigos. Ano passado, logo depois do GP do Brasil, conseguimos levar adiante algo que planejávamos há tempos. Passamos um dia no Parque Estadual da Cantareira, que nem todos sabem encontra-se em sua maior parte do município de São Paulo.

Ficaram deslumbrados com o bando de macacos bugios, gritando a metros de onde estávamos. Logo depois fomos a minha casa de campo, também na serra da cantareira. Em seguida à prova de Interlagos, este ano, ficarão hospedados lá mais tempo. Planejamos, também, passar uns dias no Pantanal.

Denis teve toda a paciência, hoje, para me explicar tudo o que desejava saber. A área técnica é a que mais me fascina na Fórmula 1. Dentre os meus projetos editoriais está um Manual Técnico, uma espécie de guia com capítulos sobre aerodinâmica, uma grande paixão, mecânica, eletrônica, materias, processamento desses materias e tantas outros aspectos do incrível universo da tecnolgia da Fórmula 1.

O Reginaldo Leme, amigo de quando cobri meu primeiro GP como jornalista, Rio de Janeiro, 1987, chegou a falar sério, comigo, hoje, sobre produzir esse livro. Mas quando lhe descrevi o que faço, o que está em curso e as broncas que recebo por não cumprir, por vezes, meu compromisso com o blog, ele riu. Seu caso não é distinto do meu.

Ainda há pouco Charlie Whiting, delegado de segurança, diretor de corrida e largador oficial da Fórmula 1, reuniu-se com um pequeno grupo de interessados para esclarecer todas as dúvidas sobre os regulamentos técnico e esportivo. Aproveitei para lhe pedir o seu telefone aqui de Melbourne para repassar a meu amigo Chico Rosa, administrador de Interlagos, pois tinha algumas dúvidas.

Você não vai acreditar. Ainda bem que Charlie veio conversar conosco. Eu trabalho como repórter da rádio Globo e iria cometer um tremendo erro na transmissão da corrida, assim como muita gente. O texto que li distribuído pela própria FIA dizia que a entrada de box será fechada quando o Safety Car entrar na pista.

Acontece que não é bem assim. É, sim, permitido entrar nos boxes, substituir os pneus, de asfalto seco para asfalto seco, ou para molhado, vice-versa, não importa, substituir carenagens danificadas etc. O que não pode é reabastecer o carro. Só isso. Ninguém, mas ninguém mesmo sabia. Como havia meia dúzia de gatos pingados no encontro, tenho certeza de que a maioria ainda não sabe.

Vimos, finalmente, os pneus “option” da Bridgestone demarcados no paddock, ou os macios. Charlie disse ter feito um teste na máquina de balancear pneus com o círculo branco de 3 centímetros de diâmetro na parede externa para ver se o pneu poderia ser identificado. Ele nos disse que sim e na eventualidade de, na pista, não for possível, estudaria com o pessoal da Bridgestone outra forma de identificá-lo.

Senhores, o Felipe Massa está impressionando a todos pela forma madura como se comporta. E de forma muito natural. Pode até ser, sabe Deus, que na hora em que colocar o capacete, amanhã, tudo mude. Mas não acredito. Teve tratamento de superstar, hoje, e ao lado de Fernando Alonso, na sala de conferência, do lado da sala de imprensa, demonstrou uma consciência como poucas vezes vi.

Em conversa com Luis Massa, seu pai, ouvi algo semelhante. O Felipe levou até o próprio pai reconhecer o que um ano e pouco de Ferrari fez com ele. Não é fácil você ouvir de jornalistas, das mais distintas nacionalidades, como se sente ao ser considerado o favorito para ser campeão do mundo. Felipe respondeu a todos de maneira profissional e sem nenhum entusiasmo com a situação.

Não escapou, lógico, em especial da imprensa finlandesa, onde está Heikki Kulta, companheiro de anos aqui na Fórmula 1, de ter de explicar a velocidade de Kimi Raikkonen, abaixo do esperado. Felipe foi sempre mais rápido que ele. “Espero uma luta acirrada, o Kimi é muito capaz. Os testes não representam com precisão o que pode acontecer nas corridas.”

Havia conversado com o Felipe, por telefone, logo depois do treino de Bahrein. Parte desse bate-papo usei numa reportagem de meia página do Estadão, há uns dois domingos. Hoje pude lhe fazer uma pergunta pessoalmente que desde que encerrou a pré-temporada desejava.

A reproduzo aqui: “Felipe, classificação para o grid. O Kimi deixa os boxes num momento mais favorável, pega pista livre, e consegue um tempo três décimos de segundo melhor que o seu. Em outras palavras, você perdeu a primeira disputa real com ele, apesar de até agora ter-se imposto em todas. Com certeza haverá gente que questionará o que você fez nos testes de inverno apenas por esse detalhe circunstancial.

“Estou preparado para tudo. Para largar na frente dele, preferencialmente, ou pelas mais variadas razões atrás também. Tenho uma série de adversários, não só ele.”

O paddock do circuito, aqui, ficou ainda melhor com a construção das dependências das equipes, boa parte em vidro, elegante, funcional, respeitando o espaço que deve sempre existir entre a porção posterior dos boxes e esses escritórios, chamemos assim, das escuderias. É nesse espaço que todos mais permanecem nos dias de GP.

Só não compreendo como os responsáveis por Interlagos na época da construção dessas dependências dos times sequer ouviram gente que tem oportunidade de conhecer os autódromos do mundo. As instalaram próximo demais da parte de trás dos boxes, reduzindo uma área que já não era a ideal. E atrás desses escritórios, já fora do paddock, há uma imensa área livre sem uso.

Gostaria que alguém me explicasse a genialidade da solução. Não dá para acreditar. Converse com qualquer profissional da Fórmula 1 e ouça o que dizem antes de ir a Interlagos. Ter de lavar pneus em meio a milhares de pessoas que se deslocam por aquele estreito corredor do paddock. Ou, como vi, o ex-tenista Boris Becker almoçando em frente ao reservado da McLaren, com gente tocando-lhe inevitavelmente às costas, por conta de não haver espaço.

O que chega a irritar, até, é que a solução era simples. Apenas em vez de edificar os escritórios lá poderiam deslocá-los cerca de 8 metros mais para trás. Mas não adianta falar nada. Seria pretender demais que os responsáveis pela obra ouvissem quem trabalha no evento e conhecessem as suas reais necessidades.

Se você vir o Rubinho não irá reconhecer. Está magro, forte. Os meses de preparação o transformaram num superatleta. Falamos bastante, hoje. “Todo esse assédio ao Massa não altera nada em mim. Torço por ele, não há dúvida. Minha preocupação é encontrar soluções para o problema do nosso carro. Ele gera importante pressão aerodinâmica, mas de forma inconstante.”

Disse mais: “Vamos piorar nossa geração de pressão na tentativa de reduzir a perda de equilíbrio que, de repente, acomete nosso carro. Amanhã eu vou começar o treino de uma maneira e o Jenson Button de outra. Um com os apêndices originais para gerar pressão e o outro sem parte desses apêndices. O que não dá é começar a preparação para o GP como se não houvesse nada de errado com o carro.”

Que calor della Madonna fez hoje aqui. Num certo momento, 34 graus. E a umidade que já foi de 19%, ontem, hoje chegou a 40%. Ainda assim não é muita. A previsão é de chuva para hoje a amanhã. Domingo não, espera-se pista seca. Há dois meses que não chove em Melbourne.

Está meio que na moda as equipes não permitirem que se saiba quem é o projetista-chefe do carro. Assim fez a Honda e até a Williams. Minhas fontes, porém, me informaram. O novo carro da Williams, FW29, dentre os mais lindos, fluidos este ano, é de Ed Wood. Enquanto o RA107 da Honda tem a assinatura de Kevin Taylor. Sou ligado nessas coisas de engenharia na Fórmula 1, mas sinceramente não ouvi falar nesses técnicos ainda.

A cara do Robert Kubica, hoje, não era de bons amigos mesmo. Quando soube que seria ele a ceder o carro para o Sebastian Vettel, não gostou nada nada. Evitou até falar conosco, acredito que para não criticar abertamente a Mario Theissen, diretor da BMW, responsável pela decisão. As equipes podem usar um terceiro piloto, todas, mas não um terceiro carro. Numa época em que acertar o carro para pneus de tão pouca aderência tornou-se fundamental, perder um dia inteiro de contato, como amanhã com Kubica, pode representar um sério problema.

Vamos encerrar nossa conversa por aqui, antes que alguém lance, daí, o Morumbi, não o Morumbi não, o Parque Antártica, em cima de mim? Só mais uma coisinha, vai…no final da entrevista coletiva dos pilotos, fiz uma pergunta genérica: Qual o significado para vocês de disputar uma corrida sem a presença de Michael Schumacher?

A resposta mais marcante foi de Fernando Alonso: “Eu não vou sentir sua falta.”

Amigos, até amanhã, quando já teremos o resultados das duas sessões livres de uma hora e meia cada. Como o motor da sexta-feira é livre, não faz parte do que deve ser utilizado sábado e domingo em dois GPs, e também em função de dois jogos de pneus do tipo duro e dois do mole terem de ser devolvidos, penso que as equipes irão aproveitar bem os dois treinos. Não será como ano passado em que literalmente não deixavam os boxes de manhã, a fim de economizar motor e pneus.

Amanhã teremos muito o que falar. Abraços!

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