Diário de Bordo. Cingapura, 27 de setembro de 2008

liviooricchio

27 de setembro de 2008 | 19h45

Olá amigos:

Agora são, para mim, 5 horas deste domingo, dia 28 de setembro. Pelas minhas contas, 18 horas de sábado em Brasília. Acabei de chegar ao meu hotel, Fragrance Emerald, aqui em Cingapura. Ontem saí da sala de imprensa às 6 horas. Noite, ainda. O dia começa a amanhecer aqui por volta das 6h15. Estamos quase na linha do Equador, 1 grau e 22 minutos norte. Faz calor intenso e a umidade toca fácil os 70%.

Trocamos o dia pela noite neste GP, experiência inédita para todos, ao menos se tratando de Fórmula 1. Ontem os pilotos começaram a conversar com os jornalistas, depois do longo briefing com o diretor de prova, a partir da 1h30. O primeiro a sair foi Lewis Hamilton. Não faz parte da associação dos pilotos, a GPDA, que aproveitou a reunião para discutir temas do seu interesse, a exemplo do que reivindicar, ainda, de mudanças na pista.

Gostaria de lhes contar, um pouco, como está sendo dormir de dia e trabalhar à noite. Para mim e os demais profissionais da Fórmula 1. Em primeiro lugar, não estamos sentindo muito a noite. O paddock e a pista permanecem iluminados o tempo todo. Apesar de os pilotos sinalizarem alguns pontos que necessitam de maior luminosidade na pista, para as nossas necessidades na área do paddock é como se fosse dia.

Damos risada com regularidade porque dizemos boa tarde, e é 2, 3 ou 4 horas da manhã, e dizemos bom dia enquanto já é boa tarde, 14, 15 ou 16 horas. O horário médio de dormir da maioria está sendo entre 5 ou 6 da manhã até 13 ou 14 horas. O que seria nosso almoço é, agora, o café da manhã. E o que seria nosso jantar transformou-se no almoço.

Tomei meu café da manhã na sala de imprensa, ontem, às 15 horas: suco de laranja, uma pera (maravilhosa), um leve sanduíche e um sorteve Haagen-dazs de baunilha. O primeiro treino começou às 19 horas, já noite leve. A classificação terminou às 23 horas daqui, ou meio-dia de Brasília. Os pilotos participaram das entrevistas e depois se reuniram com os engenheiros.

Os primeiros deixaram o autódromo, posso chamá-lo assim, por volta das 3 horas. Às 4 horas as atividades no paddock ainda eram frenéticas. Repito: a iluminação da pista somada com a da área frontal dos boxes e a do paddock é tão intensa que corrobora bastante para manter a sensação de que é de dia enquanto na realidade a noite já avança firme.

Fui jantar, agora pouco, no restaurante do hotel Conrad, a 10 minutos do paddock, caminhando, onde está hospedada a McLaren. Às 3 horas, havia tantas mesas ocupadas, tanta gente se deslocando que alguém que não soubesse tratar-se da madrugada não acreditaria. Fora do hotel a bela cidade de Cingapura segue sua rotina normal.

Mas dá para trocar a noite pelo dia assim, apenas tomando a decisão de reverter nossa agenda de atividades, como está fazendo a Fórmula 1? Possível é, claro, haja vista que a maioria está vivendo no horário europeu aqui em Cingapura, que se encontra 6 horas adiante que a maior parte da Europa. Mas não passamos imunes a essa autoenganação.

Não foram poucas as vezes que meu cérebro me surpreendeu. O senti tocando nos meus ombros, energicamente, com a ponta dos dedos: “Hei, camarada, tá querendo me enganar é?” Foi o que me questionou. Por exemplo: acordo às 14 horas e às 15 já me encontro no autódromo para, logo depois do “café da manhã”, começar a anoitecer. E você lá, cheio de pique. O cérebro não entende que a luz natural está se reduzindo, afinal você acordou há pouco.

A luz natural controla parte de nosso metabolismo. E sua ausência, ou a chegada da noite, desencadeia uma série de reações no organismo, preparando-o para o repouso, seu momento de reposição de energia, estabilização de funções. A terapia natural do sono. Mas nessa hora quem vive esta maratona deve estar preparado para a produção máxima. Os pilotos vão para os carros porque os treinos vão começar, 19 horas, e a imprensa tem de estar de vigília.

Na natureza, a redução da exposição à luz do dia gera reações hormonais em algumas espécies de aves, por exemplo, sinalizando-as a hora de prepararem-se para migrar. Buscar terras mais quentes. O inverno se aproxima. O ser humano é parente dessas aves, são frutos do mesmo processo evolutivo. Reagem de forma distinta, lógico, mas não são imunes aos efeitos da maior ou menor exposição à luz solar.

Se para quem trabalha no evento, seja jornalista, dirigente, mecânico, comissário, sentimos alterações nessa mudança de hábito em relação ao regime do sol no planeta, para os pilotos o desafio é bem maior. Têm de se manter concentrados para não só evitarem os riscos dos deslocamentos a 300 km/h, como visarem performance no mais elevado nível, onde a diferença entre atingirem seus objetivos e fracassarem se mede em milésimos de segundo.

Certos mudanças de hábitos não se impõem ao relógio biológico sem que ele lhe sorria como quem sabe mais das coisas que você. Suponha, digamos, que o cidadão está acostumado a despertar, fazer a barba e, na sequência, sentar no trono, quando regularmente realiza suas necessidades excretoras. E isso ocorre no início da manhã.

Na nova realidade do GP de Cingapura, esse momento corresponderia ao começo da tarde. O organismo, contudo, tem seu relógio, que sinaliza ao cérebro, naquele horário habitual, a necessidade exigida. E aí, o cidadão consegue enganar o corpo fazendo-o acreditar que são 7 ou 8 horas da manhã enquanto na verdade são 14 ou 15 horas? Resposta: não!

É por isso que os pilotos foram instruídos pelos médicos a seguirem, dentro do possível, sua rotina que mantinham na Europa, não se importando, também nas margens permitidas, com o horário local em Cingapura. A corrida às 20 horas corresponde às 14 horas na maior parte do continente europeu.

Se o relógio biológico for respeitado, o desgaste orgânico será menor. E todos nós fomos no embalo por nosso horário de trabalho estar condicionado ao dos pilotos.

Há outro lado bom dessa história. Quando segunda-feira a turna regressar a seus países, a maioria na Europa, sentirão menos os efeitos de um deslocamento tão longo, ao menos os causados pelas diferenças de fuso horário. No meu caso também, apesar de voltar a São Paulo antes de vir cá para a Ásia novamente na semana seguinte, para as provas do Japão e da China.

Ah, entre uma e outra irei a Okinawa, arquipélago ao sul das principais ilhas do Japão. Vou conhecer o fantástico aquário Churaumi, onde há até tubarões-baleia, na realidade um avançado centro de pesquisa de vida marinha. Claro que vou redigir reportagem para o Estadão.

Vamos dormir? Está batendo um soninho… Começaram a tirar o cobertor do céu por aqui. Se está faltando cobrir um pedacinho do céu de Cingapura então um cantinho do céu de onde você está aí no centro e leste do Brasil já está coberto. Amigos, daqui a pouco o Massa larga na pole. Que volta fenomenal ele fez na classificação. Aposto que não pára mais de duas voltas antes do Hamilton na corrida.

O Kimi tem de dividir a freada com o Hamilton depois da largada. Quem tem a perder é o inglês, não ele. Isso pode ajudar o Massa. Ou ainda o Kimi pode ultrapassar o Hamilton no primeiro pit stop. Acredito que vai parar depois e a Ferrari em condição de corrida demonstrou estar forte. Tomara que o Massa saia líder do campeonato de Cingapura. Merece. Cresceu como nunca vi na Fórmula 1.

Abraços, amigos!

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