Diário de Bordo. Melbourne. Capítulo 3

liviooricchio

16 de março de 2007 | 07h23

Não creio estar enganado. A estratégia de Kimi Raikkonen ficou muito clara para mim. No fim da sessão da tarde do treino livre desta sexta-feira, Felipe Massa tinha o melhor tempo. Às 15h19min55, estabeleceu a marca de 1min27s353, à média de 218,5 km/h. O treino acabaria às 15h30.

Seu companheiro, Raikkonen, deixou os boxes com pneus novos, como fez Massa, logo em seguida. Às 15h27min04, registrou 1min27s750, marca 397 milésimos de segundo pior que a de Massa, média da diferença nos testes de inverno. Mas Raikkonen permaneceu na pista e virou na volta seguinte, 1min28s545.

Se somarmos 1min28s545 ao horário em que obteve o tempo anterior, 15h27min04, concluiremos, com precisão, que Raikkonen cruzou a linha de chegada, depois de fazer a última marca, 1min28s545, às 15h28min585. Neste instante, ele abriu sua última volta. Como o treino terminaria às 15h30min, cruzou a linha de chegada, abrindo a volta, faltando pouco mais de um minuto e meio para receber a bandeirada, o que significaria sessão terminada.

Nessa última volta, Raikkonen fez o melhor T1, ou seja, o melhor tempo no primeiro terço no traçado de 5.303 metros, correspondente ao espaço entre a linha de chegada e a placa dos 100 metros para a curva 6, e na sequência, ao se aproximar da curva 11, compreendeu, através da tela no volante do seu F2007, que também naquele setor, T2, seu tempo era o melhor de todos.

Bastaria no trecho seguinte, T3, 200 metros antes da curva 11 até a linha de chegada, manter o ritmo para ficar com o melhor tempo da sessão da tarde e, portanto, do dia. Sem que ninguém entendesse o motivo, Raikkonen se aproximou da entrada dos boxes e, em vez de seguir em frente na pista, para fechar a volta, entrou nos boxes. Mesmo assim marcou 1min33s430.

Desperdiçou, literalmente, a chance de ficar como o mais rápido do primeiro dia de treinos do GP da Austrália, no circuito Albert Park, em Melbourne. Mas o que levaria um piloto a agir assim?

Simples: fazer seu companheiro de equipe, no caso Felipe Massa, acreditar que é mesmo o mais rápido e ele não representa perigo, hoje, na sessão de classificação, e amanhã, na corrida. Tudo isso para na hora que for mesmo para valer, na definição do grid ou na prova, tirar proveito do fator supresa. Massa estaria despreparado para enfrentá-lo.

Pode parecer uma fantasia, mas é o que me vem à cabeça ao ver Raikkonen renunciar o melhor tempo do dia, hoje aqui em Melbourne. E por conhecer como os pilotos exploram esses aspectos psicológicos da disputa, penso ser perfeitamente possível sim, por que não?

No treino da manhã, o finlandês fez a mesma coisa. A pista estava secando, colocou pneus para asfalto seco e conseguiu a segunda melhor parcial em T1 e a melhor geral em T2. Mas o que aconteceu? Entrou no box também, não cruzou a linha de chegada. Nesse caso a cronometragem considera o término da volta quando cruza a extensão da linha de chegada, por dentro da área de box.

Preferiu ficar com o tempo que registrara ainda às 10h56min28, ou seja, 1min39s242, quando havia bem mais água na pista, haja vista que Fernando Alonso conseguiu às 11h29min38, mesmo instante que Raikkonen entrou no box, renunciando a volta, o melhor tempo da sessão da manhã, 1min29s214.

Estou convencido de que Raikkonen poderia ter sido mais veloz e não o foi para deixar que Massa e todos pensem que ele é carta fora do baralho na luta pela pole position, hoje, e até mesmo na disputa pela vitória na corrida, amanhã.

Conversei com Nicolas Todt, filho de Jean Todt, empresário de Massa. “Pode ser que se trata mesmo de uma estratégia de Kimi, mas não muda nada. Vimos os tempos que fez em T1 e T2 e, portanto, sabemos o quão difícil é como concorrente de Massa. Estamos preparados.” Massa até abriu o seu jogo: “Eu também poderia ter sido bem mais rápido. Meu T1 ficou longe do limite que poderia atingir.”

Foi visível, também, como na curva 14 sua velocidade ficou bem abaixo do possível, pois passou longe da zebra. Longe para os padrões da Fórmula 1, o que significa alguns centímetros. A maioria passava sobre a zebra, na saída de curva.

O que desejo dizer é que Raikkonen não será um adversário fácil como talvez Massa possa, por um instante, pensar, por estar sendo regularmente mais veloz que ele. A conversa com Nicolas serviu para ver que Massa está sendo alertado e orientado sobre como enfrentar, dentro de casa, aquele que deverá ser o maior oponente na luta pela pole position, hoje, e a vitória, amanhã.

Ah, perguntei ao próprio Raikkonen a razão de ele não completar a volta na sessão da tarde. Ouvi dele: “Porque eu já havia recebido a bandeirada, quando iniciei a volta, e seria multado se desse uma volta a mais.” Não procede. Ele cruzou a linha de chegada, como demonstramos com números, às 15h28s585, portanto cerca de um minuto e meio antes de o cronômetro zerar, o que prova que aquela volta seria cronometrada.

Corta.

Fomos dormir, ontem, com chuva, para alegria dos australianos, que não há viam há bom tempo. Aliás, o fuso horário tem nos dado uma surra, aqui, refiro-me aos brasileiros. Falava com Galvão Bueno, hoje, e ele também me sinalizava as mesmas dificuldades. Acordamos às 5 da manhã, mesmo tendo ido dormir tarde, e quem disse que somos capazes de dormir de novo?

Durante o dia, depois de almoçar no motorhome da Red Bull, comida espetacular – e olha que sou exigente para comer -, as TVs na sala de imprensa ficavam cada vez mais longe. O sono queria nos derrubar. É um tal de jornalista lavar o rosto que vocês não acreditam. Não só brasileiros não, mas os europeus também. Estamos, aqui, 10 horas à frente do horário deles.

As novas regras funcionaram com perfeição, ao menos hoje, sexta-feira. Como não fazia sentido, ano passado, chegar ao autódromo e apenas assistir aos terceiros pilotos acelerarem seus carros no teste da manhã. Diante da necessidade de economizar milhagem do motor, bem como jogos de pneus, os pilotos das principais equipes só treinavam à tarde. E mesmo assim em apenas parte da sessão.

Agora, com a liberdade de usar um motor apenas para as sextas-feiras, independente do que deve permanecer no carro dois sábados e domingos de GP, além de 4 jogos de pneus terem de ser devolvidos, tendo sido utilizados ou não, todos foram para a pista. Quem veio ao circuito Albert Park viu o bicampeão Fernando Alonso, na McLaren, desde o início da sessão da manhã, assim como à tarde. E olha que de manhã havia água no asfalto, hein? Em resumo: já deu para ver que as sextas-feiras serão bem melhores.

Só para vocês terem uma idéia de que a Fórmula 1 é um mundo muito profissional, mas acontece algumas coisas que a tornam, por vezes, primária também. Lemba quando ontem eu escrevi que Charlie Whiting reuniu um grupo de pessoas para esclarecer as dúvidas do regulamento? Poucas pessoas foram ouvir o que o diretor de corrida e delegado de segurança da FIA tinha para dizer.

Em conversa com Mike Gascoyne, diretor-técnico da Spyker, vocês precisavam ver a sua reação quando soube que é permitido, sim, trocar os pneus do carro nos pit stops em que o Safety Car acabou de neutralizar a competição. O inglês jurava que não. Posso apostar que muita gente nas demais equipes também não sabe.

Na sua cabeça consta o que eu também compreendi: quando o Safety Car entra na pista, os pilotos só poderão entrar nos boxes depois de todos os carros estarem alinhados atrás. Não é assim: pode entrar de imediato no box, só não é permitido reabastecer de combustível.

Quem chega ao circuito para vir ao paddock, sala de imprensa, deve entrar pela entrada principal, pela Canterbury road, próxima de uma área chamada Saint Kilda, a poucos metros de uma gostosa praia. Aqui não alugo carro. É uma exceção. Os táxis nos deixam lá e, a partir daí, seguimos com o povão para dentro do parque.

Hoje já havia milhares de pessoas. E, claro, entramos na fila para ter nossa bagagem de mão revistada. Uso uma mala para o computador e outra pessoal, onde mantenho meu guia Marlboro de F-1. São bem educados na revista, bem como todos se comportam com incrível disciplica e respeito, bem conscientes de seus direitos e obrigações por viverem em sociedade. É tão eficiente o sistema que não chega a incomodar.

Há lugares em que perdemos tempo demais nessas questões. Defendo que os que vão trabalhar no evento tenham algum tipo de facilidade, como não ter de passar por filas enormes e perder tempo precioso. Não é o caso de Melbourne, em que as coisas, em geral, fluem rápido. A única dificuldade é encontrar táxi para retornar ao hotel à noite.

Bem em frente ao portão principal da Canterbury road funciona uma espécie de discoteca que nos dias de GP permence lotada toda noite. A disputa pelos escassos táxis que por lá passam é intensa. O melhor a fazer, aprendi nos últimos anos, é caminhar até a Saint Kilda Road, uns 500 metros distante, onde há mais táxis disponíveis. Mas nunca é fácil. Dependendo da hora da saída, o mais conveniente é tomar um bonde até o centro de Melbourne e lá fazer uma “baldeação”. Gosto dessa palavra. Desde que comecei a voar com regularidade, em 1975, substituí baldeação por conexão. Pensando bem, gosto das duas.

Hoje vou jantar bem. Na Little Italy há um italiano que mantém um restaurante Domminis com massas que classifico como excelentes. Feitas por sua família mesmo. O molho de tomate, parâmetro que uso, também, para analisar o nível do local, atende às exigências básicas dos italianos. Mesmo básicas são elevadas.

Na volta ao hotel terei de redigir o especial sobre os 30 anos sobre a perda de José Carlos Pace e uma matéria fria para a edição de domingo do Estadão. A corrida será realizada na madrugada de sábado para domingo. E o texto estará no jornal de domingo, escrito sexta-feira. Entendeu o desafio?

O problema é que o sono está se manifestando. Depois de jantar, então, quero só ver. Escrever com sono é terrível. Hoje de manhã, quando cheguei aqui na sala de imprensa, a primeira coisa que fiz foi reler o que havia colocado no ar, ontem. Confesso que tinha receio de deparar com algo grave mesmo, grafia, concordância, composição, ficar algum parágrafo sem sentido. Felizmente não peguei nada sério. Sinalize, tá? Quando os outros chamam a atenção vamos buscar lá no fundo do saco algum tostão de vigília a mais.

Abraços, amigos!

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