Domenicali: 'Nenhuma equipe faria a Massa o que a Ferrari está fazendo'

liviooricchio

21 de julho de 2012 | 18h33

21/VII/12

Livio Oricchio, de Hockenheim

Olá amigos. Entrevistei Stefano Domenicali sexta-feira de manhã na sua sala no motorhome da Ferrari, aqui em Hockenheim. Conversas individuais, como essa, estão ficando cada vez mais raras na Fórmula 1. Em geral te colocam com outros jornalistas e na maioria das vezes o interesse deles não combina com o seu. O resultado é, quase sempre, uma entrevista diferente da que você faria sozinho, frustrando-o como regra. Não foi o caso, agora.

A entrevista está na edição deste domingo do Estadão a esta hora já nas bancas, apesar de hoje ainda ser sábado. A coloco no ar no blog também agora. Boa leitura. O texto:

Stefano Domenicali, italiano de Ímola, 47 anos, é diretor geral da equipe Ferrari desde o início de 2008. Substituiu o francês Jean Todt em seguida ao período de maior sucesso de uma escuderia na história da Fórmula 1, com cinco título mundiais de pilotos, todos com Michael Schumacher, e sete de construtores, de 1999 a 2007. Já sob sua gestão ganhou o de 2008. A responsabilidade era e é enorme, pelas conquistas alcançadas anteriormente e por se tratar de um organização mítica, a Ferrari, para quem todos os olhares convergem.

Nessa entrevista exclusiva ao Estado, concedida em Hockenheim, Domenicali abordou o receio de um fracasso com o F2012, no começo do ano, do momento mágico de Fernando Alonso, do seu orgulho por ter mantido Massa na equipe, apesar da enorme pressão, e o que espera dele daqui para a frente. Mais: com todo cuidado, sem falar nada, apenas deu a entender não ter gostado do comportamento de Mark Webber e da Red Bull, que inseriram no comunicado oficial o piloto ter negociado com a Ferrari antes de assinar a renovação.

Estado (E) – Nos primeiros testes o modelo F2012 chegou a te assustar, diante de tamanho desequilíbrio, falta de velocidade?
Stefano Domenicali (SD) – Ficamos preocupados. Mas não acreditava num projeto equivocado, haja vista que a nossa solução para os escapamentos veio a ser usada por times fortes hoje. Vimos que não havíamos desenvolvido os conceitos corretamente. Só isso. As críticas foram ferozes. Procurei fazer com que se centralizassem em mim, a fim de os engenheiros terem tranquilidade para realizar um amplo estudo e compreender as razões de não funcionarem. O bom dessa história é que nos levou a elaborar uma série de medidas para evitar que daqui para a frente iniciemos os trabalhos com um novo carro tendo de enfrentar dificuldades semelhantes.

E – Que temporada espetacular de Alonso, não? A cada prova parece se superar. O que você, de dentro da equipe, vê que quem está de fora não enxerga para explicar o espanhol viver sua melhor fase?
SD – Uma dedicação ainda maior em si mesmo. A maneira como Fernando trabalha o físico, se prepara psicologicamente. A relação técnica com o time basicamente não mudou. A diferença é ele consigo próprio.

E – Como viu o fato de a Red Bull citar a negociação de Mark Webber com a Ferrari no comunicado oficial da renovação de seu contrato?
SD – Não falo dos outros, só da nossa equipe. Há quem ame dizer essas coisas para colocar pressão psicológica, faz parte desse mundo das corridas, ajudam também a elevar os próprios valores.

E – O que não avançou para a negociação com Webber dar certo?
SD – Os contatos que a Ferrari tem com outros pilotos (enfatiza o plural) fazem parte no normal da Fórmula 1, mas são apenas contatos, nada além disso. Alguns pilotos usam esses contatos para os mais diversos fins. Ninguém falou em negociação. Não quero entrar nesse mérito. Este ano só faltou o Zorro ser citado como candidato a piloto da Ferrari. (Domenicali dá a entender que com Webber o que se passou foi o mesmo, apenas houve um contato, como com outros pilotos. Mas o autraliano, apesar de não citado pelo italiano, teria usado esse contato para se valorizar na Red Bull.)

E – O anuncio da renovação de Webber então não o surpreendeu?
SD – Não tive nenhuma reação. Apenas me preocupei em saber se não era boato. Não quero entrar em detalhes para quem me ouvir entender outra coisa. A Ferrari já havia dito antes do comunicado na renovação de Webber que não tinha pressa em definir o outro piloto. E isso continua valendo.

E – A Ferrari está falando com outros pilotos?
SD – Os outros pilotos é que vêm falar conosco. A Ferrari tem força de ser a Ferrari mesmo nos momentos difíceis. São os outros pilotos que a colocam em evidência.

E – Como explicar as dificuldades sérias de Massa?
SD – Tivemos carros difíceis ultimamente. Felipe não se adaptou a eles, aos pneus, e há ainda o aspecto psicológico, aquela ânsia de apresentar melhor desempenho. Tudo isso levou Felipe a não produzir 100%. Mas o conheço há dez anos e tenho convicção da sua capacidade. Se conseguir se livrar dessas dificuldades, como parece ser o caso agora, o vejo como um dos principais pilotos da Fórmula 1.

E – A Ferrari produziu carros difíceis, como você diz, mas são os mesmos que Alonso pilota e seus resultados são bem distintos, melhores.
SD – Esse é o outro problema de Felipe, além do técnico. Se você vê o que o companheiro faz e tenta usar para crescer essa experiência de ajuda. Mas se você não souber lidar com ela está destruído.

E – O que vocês fizeram para ajudar Massa?
SD – Antes de qualquer coisa, não colocar nenhum tipo de pressão nele, digo da equipe. Demos apoio psicológico, técnico, dizemos sempre que estamos com ele, esta é a sua família. Posso garantir que outras escuderias não agiriam assim. É um dos valores de que me orgulho. Disputamos um esporte ultracompetitivo, onde há tantas pressões, interesses. Certos valores você traz com você, de sua formação. Felipe sabe disso. Essa postura da nossa equipe o está ajudando a se reestruturar.

E – O que Massa dizia quando saía do carro, considerando-se o que fazia Alonso?
SD – O carro não tem tração, velocidade e outras coisas. Sabíamos disso. A análise técnica nos mostrava. Havia, como disse, esse lado técnico, mas também o psicológico (por Alonso tirar muito mais do F2012). Felipe não sentia o carro. Ele tem de ser a extensão do corpo do piloto e não era. Não havia como buscar seu limite nas frenagens, ultrapassagens, assumir riscos. E havia a ânsia de querer ver logo o que o outro piloto fez, te afetando psicologicamente, sem que você se dê conta. Agora Felipe já sente o carro como parte de si mesmo.

E – Você chegou a pensar em algum momento que do jeito que Massa estava, sempre muito distante de Alonso, na classificação e corrida, não haveria como pensar em mantê-lo na Ferrari?
SD – Tive de me manter muito firme naquela fase difícil, no começo, quando pilotar aquele carro não era fácil. Sabia que o F2012 não estava minimamente acertado e Felipe tinha maiores problemas. Minha esperança era a de que com a evolução do F2012 Felipe também crescesse. Em Barcelona compreendi que nosso carro havia dado um salto à frente. Pensei comigo: agora Felipe tem de regressar ao que era, necessariamente. Fiquei muito feliz ao ver o seu ritmo em Mônaco (etapa seguinte à de Barcelona). Vi que estava no caminho certo e a minha aposta havia valido a pena.

E – Se eventualmente você chegar à conclusão de que Massa é a melhor opção para a Ferrari em 2013, a negociação será como a de Lewis Hamilton com a McLaren, ou seja, os valores pagos terão de ser revistos?
SD – Como disse, não temos pressa em definir o outro piloto. Por isso esse tema não foi minimamente discutido. Nossa prioridade é ver um Felipe como estamos vendo agora, supercompetitivo.

E – A mesma corrida deste fim de semana, o GP da Alemanha, em 2010, marcou a carreira de Massa, quando ele ouviu do seu engenheiro “Fernando is faster than you”, para deixar Alonso ultrapassá-lo para vencer. Você era o diretor.
SD – A mídia explorou bastante o ocorrido, deram uma visão de escândalo ao fato, como sempre, em vez de mostrar o aspecto fundamental que era o interesse da equipe. Eu escuto quem me acrescenta algo. Quem apenas critica por criticar, quem gosta de criar polêmica com a notícia, sempre dá um caráter de escândalo, deixo as palavras entrarem por um ouvido e sair por outro. Pode ser um mecanismo de autodefesa? Pode. Mas sigo adiante. Claro que naquele dia Felipe não ficou contente como piloto, como homem. O que as pessoas se esquecem é que no passado, hoje e no futuro será assim, os interesses principais são sempre os da Ferrari. Quem assina conosco sabe disso. E esse é um interesse construtivo, atende certos princípios, não há negativismo nisso.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.