Duas corridas decisivas para o campeonato

liviooricchio

26 de agosto de 2012 | 20h38

26/VIII/12

Livio Oricchio, de Toulouse, França

Amigos, esse é o texto que deu origem ao da minha coluna na edição desta segunda-feira do Jornal da Tarde.

Domingo tem Fórmula 1 de novo. No circuito favorito da maioria dos pilotos, Spa-Francorchamps, será disputado o GP da Bélgica, 12.ª etapa do campeonato. A pista de 7.004 metros é junto da de Suzuka a mais seletiva do calendário.

Reúne de tudo: curvas velozes, de média e baixa velocidade, curvas em aclive, declive, de raio alternado, submete pilotos e carros a acelerações laterais e longitudinais estressantes, e tem ainda uma longa reta para ultrapassagens, depois das mais famosas curvas da Fórmula 1, em sequência, Eau Rouge e Raidillon. Tudo isso num cenário que costuma apresentar seções secas de asfalto, outras úmidas e ainda molhadas, sem que o piloto saiba até encará-las.

O fator coragem, apesar de ainda ser importante na performance, hoje seu peso é menor que no passado, pois há agora grandes áreas de escape e a segurança dos carros cresceu exponencialmente, dentre outros fatores que elevaram a confiança dos pilotos para poder arriscar um pouco mais em algumas curvas. Spa, no entanto, ainda guarda parte das características daquele tempo em que os pilotos pensavam duas vezes antes de tentar frear alguns metros mais tarde ou contornar a curva num velocidade alguns quilômetros superior a que vinham fazendo.

Apesar da evolução da segurança de Spa nos últimos anos, os riscos ainda são maiores que na maioria dos demais traçados. Se assemelha, curiosamente, ao outro circuito capaz de gerar paixão entre os pilotos, Suzuka. Este, na minha visão, o de maiores possibilidades de um piloto se ferir pela ausência mais grave de áreas de escape antes das grades de proteção ou a barreira de pneus.

Contornar os “S” de alta depois da curva 1 de Suzuka, com as barreiras de pneus do lado, é expor-se a riscos elevados. Nigel Mansell fraturou a coluna num impacto nesse trecho, com Williams, em 1987. Os cockpits tornaram-se bem mais seguros, mas as inexistência de áreas de desaceleração antes dos pneus é exatamente a mesma.

O desafio é grande em Spa. Por tudo que foi escrito, um bom piloto é capaz de fazer a diferença no traçado belga.

O que esperar da volta da Fórmula 1 a suas atividades? A última corrida foi realizada há quase um mês, dia 29, na Hungria. A maioria das equipes concluiu os estudos do que fazer para as duas etapas seguintes da temporada, Spa-Francorchamps e já no outro domingo, dia 9, em Monza, antes das férias compulsórias. São os circuitos mais rápidos do Mundial.

Os carros vão estar distintos por causa da necessidade de equipá-los com um pacote aerodinâmico concebido para permiti-los ser, preferencialmente, o mais veloz possível nessas retas, onde se ganha importante tempo, embora não seja lei. No ano passado, Sebastian Vettel, da Red Bull, registrava velocidades dentre as mais baixas nos fins de reta, mas ganhou o GP da Itália sem dificuldade. O escapamento aerodinâmico lhe garantia ser o mais rápido nas breves curvas de Monza.

Antes da prova de Silverstone, este ano, dia 8 de julho, Fernando Alonso, da Ferrari, líder do campeonato, disse esperar dificuldades para se manter em primeiro na classificação quando chegasse a fase dos traçados mais rápidos. “Apesar da nossa evolução nesse aspecto, a velocidade de ponta da Ferrari ainda não é alta se comparada a da Mercedes e McLaren”, comentou.

Mas já vimos este ano Alonso ampliar a diferença para os concorrentes em GPs onde, segundo ele próprio, deveria ocorrer o contrário, a exemplo de Silverstone e Hockenheim, . Portanto, afirmar que a Ferrari pode não acompanhar o ritmo de McLaren, Mercedes, Lotus e a Red Bull em Spa e em Monza não é prudente. Há nessa história uma tentativa de Alonso de aproveitar-se de algo real, a menor velocidade do modelo F2012 nas retas longas, para retirar de si a atenção de que pode, sim, lutar pelas primeiras colocações.

Hoje o asturiano soma depois de 12 provas 164 pontos, seguido por Mark Webber, 124, Sebastian Vettel, 122, ambos da Red Bull, Lewis Hamilton, McLaren, 117, e Kimi Raikkonen, Lotus, 116.

Além dessa possibilidade de a Ferrari talvez ser alguns milésimos de segundo mais lenta em Spa, ainda por ser ratificada, McLaren e Lotus vão correr pela primeira vez com o seu sistema de duto aerodinâmico, como faz a Mercedes desde o GP da Austrália.

Trata-se de um recurso que quando o flap móvel é ativado, para garantir maior velocidade na reta, um orifício na parede lateral do aerofólio traseira fica exposto, permitindo a entrada de ar. Uma tubulação recebe esse ar e o destina ao aerofólio dianteiro, no caso da Mercedes, e ao traseiro, no da Lotus. A McLaren ainda esconde o jogo, há dúvidas sobre qual dos aerofólios. Esse ar é eliminado na frente do perfil de asa do aerofólio, de forma a reduzir sua capacidade de gerar pressão aerodinâmica nas retas, o que se traduz por maior velocidade de deslocamento do carro.

Lotus e McLaren usarão o duto aerodinâmico, felizmente já proibido para 2013, e pode, sim, vir a ser uma vantagem importante para seus pilotos, além de Michael Schumacher e Nico Robserg, na Mercedes, já usuários do recurso.

Alonso tem a seu favor na Bélgica a instabilidade meteorológica. No caso de chuva, comum em Spa, a Ferrari é quem melhor aquece os pneus Pirelli, como ficou claro na vitória de Alonso na Malásia, por exemplo.
Mas se a prova for no asfalto seco tanto em Spa como em Monza faz sentido acreditarmos que o Mundial poderá chegar na etapa seguinte, Cingapura, dia 23 de setembro, com Alonso, Webber, Vettel, Hamilton e Raikkonen mais próximos na classificação. E Alonso teria razão ao transferir para os adversários o favoritismo nas pistas velozes.

Com dois resultados menos favoráveis de Alonso e com a dupla da Red Bull, Hamilton e Raikkonen se aproveitando, a definição do título tenderá a se estender até o GP do Brasil, 20.º e último do ano, dia 25 de novembro. Mas se pelas mais distintas razões Alonso se aproveitar das condições de alternância da corrida e vencer inesperadamente, ou ampliar a diferença para os adversários, como tem acontecido na temporada, o asturiano e a Ferrari vão ter grandes possibilidades de celebrar a conquista um pouco antes do evento em Interlagos.

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