E o espírito do regulamento, como é que fica?

liviooricchio

15 de abril de 2009 | 12h11

15/IV/09

Agora são 19 horas e estou na sala de imprensa do circuito de Xangai. Cheguei há pouco do paddock e só os mecânicos trabalhavam. Tentei repercutir a decisão do Tribunal de Apelos da FIA, em Paris, e não encontrei ninguém que pudesse falar. Os mecânicos são proibidos de conversar com os jornalistas, ao menos em caráter oficial.

Bem, a decisão de considerar os carros da Brawn GP, Toyota e Williams como “legais” era a mais esperada, embora, claro, sempre haja espaços para surpresa na Fórmula 1. Mas nesse caso há grandes interesses políticos em criar certa tensão dentre os integrantes da Fota que dificilmente o veredicto seria outro.

Os cinco juízes do tribunal ouviram os argumentos dos representantes de Ferrari, Renault e Red Bull, os que protestaram contra Brawn GP, Toyota e Williams, e dos acusados também. No caso de dúvida, consultariam o presidente da FIA, o também advogado Max Mosley. Se chegaram a conversar com ele não sei, mas tenho certeza de que a opinião expressada por Mosley previamente, de não ver nada de “ilegal” nos carros, com certeza foi levada em consideração.

Alguns amigos me perguntam o que penso sobre o difusor de Brawn, Toyota e Williams. Em primeiro lugar, quando se concebe um regulamento é porque se tem um objetivo, ou alguns deles, bem definidos. E o conjunto de regras criado visa a que esses objetivos sejam atingidos. Portanto, o espírito do regulamento do difusor era “reduzir a pressão aerodinâmica gerada pelos carros”.

É até comum na hora da redação do texto do regulamento ficar alguma brecha em aberto. É como uma definição. Devemos ser tão abrangentes, não dar margem a nenhuma dúvida, que passa a ser uma arte. No caso dos difusores, o próprio Ross Brawn, o maior responsável pelo conjunto de regras deste ano, ressaltou aos colegas que o texto sobre dimensões e características do difusor deveriam ser revistos por permitir interpretações distintas. As demais equipes não se ativeram ao fato.

Claro que ele já trabalhava no projeto do difusor empregado no seu carro, como contou ao site da revista Autosport, embora não dissesse nada a ninguém. Apenas tentou chamar a atenção que a regra específica do difusor exigia maior abrangência.

À luz do texto do regulamento, pelo que compreendi, Ross Brawn, Patrick Head, da Williams, e Pascal Vasselon, Toyota, não fizeram nenhuma transgressão, apesar de Rory Byrne, consultor da Ferrari, garantir que os orifícios no assoalho são irregulares. Mas como lembrou Brawn, o texto permitia mesmo concepções distintas do difusor sem que infringissem qualquer tópico da regra.

Mas aí entra a questão do espírito do regulamento. E ele é sempre usado quando há situações como a de agora, em que há dúvidas sobre a legalidade ou não de alguma solução particular. Nesse aspecto, não existe o menor questionamento: o difusor da Brawn, por visar maior pressão aerodinâmica com sua interpretação do difusor, desrespeita o objetivo do novo regulamento.

Estamos diante do seguinte dilema: ao pé da letra, pelo que compreendemos, diante da posição dos juízes do tribunal, ainda que nem sempre ajam com o máximo da lisura, Ross Brawn e seus colegas de Toyota e Williams não transgrediram o texto. Já quanto o espírito do regulamento, que podemos evocar porque o tema é dúbio, o trio de engenheiros postou-se frontalmente.

A inteligência, astúcia e o oportunismo de Brawn, Toyota e Williams está num prato da balança enquanto no outro se encontra o desrespeito ao espírito do regulamento. Quem vence?

Deu para ver que a questão é subjetiva? O que penso?

Ross Brawn trabalhou com os projetistas das outras nove equipes para conceber e redigir o texto das novas regras, a fim de atender à exigência de Mosley, de reduzir a pressão aerodinâmica, elevar o grip mecânico com a intenção de facilitar as ultrapassagens e melhorar o espetáculo. A definição do que fazer foi desta vez responsabilidade dos times, uma situação inédita, ao menos nesse nível.

O que se visava com o novo regulamento ficou claro para todos. Confesso que se fosse dirigente de alguma escuderia, me sentiria traído por Ross Brawn. Afinal, me reuni com ele várias vezes, discutimos que um difusor que ficasse a 175 milímetros do assoalho seria de interesse da Fórmula 1 e, de repente, ele, justo o líder do Technical Working Group, me aparece com algo tão distinto, decisivo, por interpretar o regulamento de maneira bastante particular. Fui equipado com determinadas armas para um confronto enquanto meu adversário escolheu as que não estavam no menu.

Minha relação profissional com ele não mudaria, mas passaria a vê-lo do ponto de vista pessoal de forma distinta e, num próximo duelo, levaria em conta sua filosofia de encarar a disputa, nada interessada em observar o espírito do regulamento.

Abraços!

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