Ecclestone e Mosley nos chamaram de idiotas!

liviooricchio

26 de julho de 2007 | 17h15

26/VII/07

A decisão do Conselho Mundial da FIA, hoje, em Paris, reflete com perfeição o desejo do promotor do Mundial, Bernie Ecclestone, que em entrevista publicada hoje pelo The Times, afirmou: “Não creio que alguém tomará decisão que afete o campeonato sem antes compreender muito bem o que se passou. Seria excelente se não ocorresse nada e as coisas fossem esclarecidas.” Disse mais: “Esse caso está recebendo atenção demais em detrimento da competição na pista.”

Pronto. Tudo esclarecido, Entendeu? Não? Então vamos lá: não se mexe em time que está vencendo. A decisão do Conselho Mundial foi 100% política. Mas não atendeu apenas os interesses de Ecclestone, os principais, diga-se, mas em grande parte os de Max Mosley, presidente da FIA, também. Há muito tempo a Fórmula 1 não tem um campeonato tão disputado, com quatro pilotos lutando pelo título. Os índices de audiência na TV, parâmetro para definir os valores de comercialização dos direitos de TV, estão em ascensão. E vão crescer nas etapas finais da temporada. É esse estado de coisas, em essência, que se desejou não desestabilizar.

Não pensem, por favor, que os 26 membros do Conselho expõem suas opiniões e como num julgamento judicial chega-se a um veredicto para, em seguida, o juiz estabelecer a sentença. No caso da FIA, o Conselho segue a orientação dos que mandam no automobilismo, Max Mosley, homem que controla a FIA, a entidade que cuida se as regras estão sendo seguidas, e Bernie Ecclestone, presidente da Formula One Management (FOM), holding que administra a comercialização do evento.

Os dois decidiram que para a Fórmula 1 seria melhor não gerar ainda mais polêmica com questões “menores”, como espionagem e, apesar de o Conselho julgar a McLaren como culpada, transgrediu o artigo 151c do Código Esportivo Internacional, não haveria como ser punida por não existirem evidências de que as informações retiradas dos computadores da Ferrari por Nigel Stepney, seu ex-mecânico-chefe, tenham sido úteis à McLaren, pela receptação de Mike Coughlan, seu projetista-chefe.

Mosley e Ecclestone colocaram outros fatores na balança para decidir o que seria melhor. A Mercedes, através de seu diretor-esportivo, Norbert Haug, emitiu sinais de fumaça que em caso de punição severa arrumaria as malas e iria embora. Como fez no fim de 1955, depois de vencer tudo naquele ano e no anterior. Mais: se a McLaren recebesse alguma pena, como disse Mosley, seus pilotos não sairiam imunes. E já imaginou tirar pontos da nova estrela da Fórmula 1, Lewis Hamilton, líder do campeonato? Inglês como Ecclestone e Mosley? Não sei como seriam recebidos na Inglaterra, depois. A imprensa inglesa os trataria como traidores.

Essas questões são tão fortes que até mesmo as desavenças entre Mosley e Ron Dennis, sócio e diretor da McLaren, tornaram-se menores. Também pesou menos a quase secular relação de boa vizinhança com a Ferrari, invariavelmente vista com carinho especial pela FIA. Nada disso conseguiu se impor sobre o interesse de Ecclestone e Mosley preservarem o campeonato, a Fórmula 1 como está, uma nova geração de ídolos em formação, disputas imprevisíveis e mais emocionantes que antes e audiência universal em crescimento.

A McLaren não se utilizou, mesmo, dos dados? Em primeiro lugar, é preciso dizer que nos 700 arquivos de computador roubados por Stepney havia de tudo, dos desenhos do modelo F2007 às informações de como o carro se comporta na pista, com este e aquele pneu, com pouca ou muita carga aerodinâmica e com mais ou menos combustível, dentre tantos outros dados.

Dennis alegou não haver “propriedade intelectual” da Ferrari nos carros da McLaren. Não mentiu. As soluções desenvolvidas pela Ferrari para o seu modelo F2007 não podem ser incorporadas no modelo MP4/22 da McLaren. Tudo é muito específico na Fórmula 1. Mas conhecer o tamanho do tanque, dispor de referências de consumo de gasolina e pneus, e outras informações, registradas com o carro da Ferrari na pista, estas sim, se foram usadas pela McLaren, a ajudaram muito.

Vale lembrar que Stepney entregou o “pacote” a Coughlan nos testes de Barcelona, antes da prova de Barcelona, 13 de maio, e entre esse período e o escândalo vir à tona, no GP da França, dia 1º deste mês, quatro etapas foram disputadas, Espanha, Mônaco, Canadá e Estados Unidos. Coincidência ou não, foi a fase em que a McLaren melhor se apresentou.

Uma pista a respeito de esclarecer se a McLaren acabou favorecida ou não com a espionagem de Stepney pode ser verificada antes ainda da corrida de Barcelona, o que mostra que esse repasse de informações remonta a antes da entrega do “pacote”. Logo depois da abertura do Mundial, na Austrália, Coughlan recebeu todos os detalhes do assoalho do modelo F2007 da Ferrari. O projetista da McLaren chamou a atenção da FIA sobre sua “ilegalidade.” A FIA acatou seu protesto e modificou a regra de checar se os assoalhos se movem ou não. Dessa história pode-se extrair que havia um canal aberto entre a Ferrari e a McLaren com implicações práticas diretas em favor do time inglês.

Não hesito em acreditar que Coughlan tenha utilizado outros dados disponíveis, encontrados pela polícia inglesa em sua casa, para auxiliar a McLaren vencer as provas. Conhecer a fundo como o carro de seu adversário se comporta, sem que ele saiba que você sabe, representa uma enorme vantagem. É essencialmente nisso que a McLaren pode ter sido favorecida.

Coughlan sempre foi um segundão, por onde passou. O modelo de hoje da McLaren é o deixado por Adrian Newey antes de transferir-se para a Red Bull. Coughlan não perderia a chance de mostrar capacidade. Pode até mesmo ser que outros integrantes da McLaren não soubessem, a fim de Coughlan ter para si os méritos das conquistas, é mesmo possível, apesar de acreditar que alguns homens de sua confiança lá dentro soubessem. Não chego em Ron Dennis.

Agora, a FIA reconhecer que a McLaren dispõe de uma tomografia computadorizada da Ferrari e que isso não intefere no resultado da competição é nos chamar de idiotas. Foi o que fizeram, hoje, Ecclestone e Mosley.

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