Eleição define os rumos do automobilismo. Torço por Jean Todt.

liviooricchio

22 de outubro de 2009 | 18h48

22/X/09

Nesta sexta-feira conheceremos o sucessor de Max Mosley na presidência da FIA. Jean Todt, francês, 63 anos, e Ari Vatanen, finlandês, 57, são os candidatos. Salvo uma grande surpresa, como a que levou Mosley à FIA, na eleição de 1991, em que o francês Jean-Marie Ballestre era tido como favorito, Todt não deverá ter grandes dificuldades para se eleger como o novo presidente da FIA para os próximos quatro anos.

O ex-diretor-geral da Ferrari, que não tem o apoio da equipe, está em campanha há tempos, com o suporte explícito de Mosley e do responsável pela exploração comercial da Fórmula 1, Bernie Ecclestone. Já Vatanen definiu-se como candidato bem depois e não visitou, ao menos como Todt, tantas nações cujos representantes decidem nesta sexta-feira, através de voto unitário, na Praça da Concódia, em Paris, sede da FIA, o responsável pela condução do automobilismo.

Conheço Todt desde que estreou na Ferrari, no GP da França de 1993. Ao longo dos anos, manteve na maior parte do tempo boa relação profissional com a imprensa brasileira. E depois que Rubinho passou a ser piloto da Ferrari, em 2000, escolhido por ele, esse envolvimento foi maior. Várias ocasiões estive em Maranello e fui recebido por Todt na sua sala de trabalho. Eu o admiro. Torço pela sua vitória.

Parte importante do sucesso da Ferrari de 1999 a 2006 relaciona-se diretamente a sua capacidade de liderança, inteligência, dedicação extrema e competência para decidir sobre tudo numa organização esportiva no automobilismo. Todt resolveu o maior problema da Ferrari: alguém, com credibilidade e liderança, para ditar os rumos do time. Os italianos costumam mudar de direção com maior facilidade que profissionais de outras culturas.

Se der a lógica, como se imagina, e Todt vencer, aposto que fará uma grande administração. Gosta de impor suas idéias, o que nem sempre é ruim, mas não tem as deformações de personalidade de Mosley. O inglês cresceu em meio aos camisas preta britânicos, ou fascistas, liderados por seu pai, Oswald Mosley, e até hoje os traços ditatoriais do berço se refletem na sua forma de gerenciar a FIA.

Todt é mais de ouvir, de acordo com o que me sinalizam integrantes da Ferrari há anos. Suas decisões na maioria das vezes atendem ao interesse da maioria. Seria surpreendente se Todt resolvesse peitar a Fota, como fez Mosley, a ponto de colocar em risco sério a própria Fórmula 1. Mosley fez isso por causa de seus devaneios: ao sentir que perdeu poder com a criação da Fota, quis mostrar quem manda. E perdeu feio, vergonhosamente.

Sei por mais de uma fonte segura. Ou melhor, posso, agora, dizer o nome: Flavio Briatore. O italiano contou a um grupo de jornalistas no qual estava que chamaram Ecclestone, em Silverstone, logo depois de a Fota anunciar a criação do campeonato paralelo, para informar que qualquer possibilidade de negociação passava, necessariamente, pelo fim da era Mosley na FIA. Ele não poderia se candidatar à releição sob nenhuma hipótese. E Ecclestone acatou a Fota. Chamou Mosley e lhe disse: acabou!

Mosley é um vilão? Não. Vou a praticamente todas as corridas desde a temporada de 1991, embora desde 1987 cubro corridas da Fórmula 1. Cheguei à competição, portanto, no mesmo período de Mosley, o que me oferece boa base para compreendê-lo. Fez muito mesmo pela segurança. Com conhecimento de causa.

Poucos sabem: além de advogado, Mosley é formado em Física. Foi piloto e dono da March, fábrica de carros de competição de grande sucesso. Vem de uma família de milionários. Nunca se suspeitou, sequer, de irregularidades nas suas ações na presidência da FIA. Meu primeiro contato real, de fazer parte de um grupo que conversou longo tempo com ele, remonta ainda a 1992, em Johanesburgo, na África do Sul.

Em 2004, na China, oito jornalistas foram convidados para um almoço com Mosley. Estave dentre eles. Fiquei impressionado com a forma como domina questões técnicas e, principalmente, o ódio às montadoras. Salta-lhe a vista!

Lembro também do GP de Mônaco de 1994, quando entrou na sala de imprensa e baixou por conta própria um pacotão para reduzir a velocidade dos carros de Fórmula 1 nas curvas. A razão é simples: Rubens Barrichello se acidentou na sexta-feira do GP em Ímola, Roland Ratzemberger morreu no sábado, Ayrton Senna, no domingo, e no primeiro treino livre da etapa seguinte, em Mônaco, Karl Wendlinger bateu na saída do túnel e entrou em coma.

Na área de veículos de série Mosley deixa um legado extraordinário de campanhas com objetivos como elevar a segurança, economia de combustível, fontes alternativas de energia, dentre outras.
Não é justo o mundo do automóvel lembrar-se de Mosley apenas por conta do escândalo sadomasoquista que veio à tona ou parcialidade em muitos julgamentos. Tampouco pelo comportamento doentio desde a criação da Fota, no GP da Itália do ano passado. Mosley escreveu também uma grande história na FIA.

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