Eric Boullier, o cérebro por detrás do sucesso de Kimi e da Lotus

liviooricchio

23 de março de 2013 | 10h20

23/III/13
Kuala Lumpur

No fim de 2010, a Renault anunciou sua saída da Fórmula 1. A partir de 2011 passaria apenas a fornecer motores. Houve uma debandada dentre os profissionais da equipe. A sua espinha dorsal deixou de existir. O empresário de Luxemburgo Gerard Lopez adquiriu o time, manteve o jovem francês de 37 anos, Eric Boullier, para dirigi-lo, há pouco na Renault, substituto de Flavio Briatore, e mudou o nome para Lotus.

Pouco mais de dois anos depois, com um orçamento que é a metade dos que investem outras escuderias, como Mercedes, Ferrari, Red Bull e McLaren, a Lotus lidera o Mundial com Kimi Raikkonen, vencedor do GP da Austrália e o mais veloz nos primeiros treinos livres na prova da Malásia, ontem. A sessão que definiu o grid da segunda etapa do campeonato, no circuito de Sepang, foi disputada na última madrugada.

E amanhã, às 5 horas, horário de Brasília, 16 horas na Malásia, Raikkonen e seu companheiro de Lotus, o francês Romain Grosjean, largam sabendo dispor de um carro capaz de dar ao time a segunda vitória seguida na temporada. Ninguém entendeu melhor que a Lotus como explorar as características dos novos pneus Pirelli, concebidos para que as corridas tenham vários pit stops.

Nessa entrevista exclusiva ao Estado, Boullier, já considerado uma revelação no meio, conta como conseguiu reverter por completo e em tão pouco tempo o destino da Lotus. Com tantas e radicais mudanças na organização e sem dinheiro, a maioria imaginou que o destino da ex-Renault seria sombrio.

“Primeiro tive de reestruturar o grupo. Profissionais que nunca tiveram oportunidade de mostrar melhor seu trabalho ganharam sua chance. Pedi que fossem criativos. Se acertassem, andaríamos para a frente. Meu primeiro objetivo foi fazer a equipe ser grande de novo”, disse Boullier, capaz de conversar com os jornalistas como se ainda coordenasse o time da DAMS na GP2, com simplicidade, sem assessor de imprensa controlando cada palavra pronunciada.

Com a saída dos profissionais de renome da Renault, campeões do mundo em 2005 e 2006, Boullier promoveu Martin Tolliday para ser o projetista-chefe, no lugar de Tim Densham, depois James Allison para ser o diretor técnico, em substituição a Bob Bell, que foi para a Mercedes, e Paul Seaby como diretor esportivo, com a saída de Steve Nielsen, hoje na Toro Rosso.

“Busquei novos integrantes também em outras equipes, mas que tinham o mesmo perfil, técnicos sem oportunidade onde estavam. Dá gosto vê-los trabalhar conosco”, conta, sorrindo, Boullier. “Até porque não temos dinheiro para pagar altos salários. Nós dispomos menos da metade do que gasta a Red Bull, por exemplo.”

O sucesso da Lotus já começou a gerar dividendos e problemas. “Negociamos com várias empresas que se interessaram em investir no projeto. Por outro lado, nossos profissionais, os que promovemos há pouquíssimo tempo, estão sendo cortejados pelos nossos adversários.” A McLaren tornou pública a oferta a James Allison, para assumir sua direção técnica.

“Mas na nossa estrutura, se um deles sair a organização não será afetada. Essa é uma preocupação que tenho, há vários profissionais esperando sua chance de também aparecer. Não temos superestrelas na Lotus.”

O que mais impressiona a todos na Fórmula 1 foi que em menos de dois anos a organização se tornou vencedora. Raikkonen ganhou o GP da Abu Dabi de 2012 e chegou a disputar o título. “Não há segredo, há, sim, total liberdade na Lotus, o ambiente é outro. O meu trabalho foi montar o grupo e fazê-lo funcionar. Eles já viram que nessa nova realidade temos de privilegiar a simplicidade.”

Um fator, em especial, mostrou-se determinante na ascensão meteórica da Lotus: a contratação de Kimi Raikkonen. Na sua volta à Fórmula 1, no ano passado, depois de dois anos nos ralis, o finlandês uniu naturalmente o grupo e já no primeiro ano disputou o título. “Kimi deu uma razão maior para eles, definiu um objetivo para nosso time. Ele tem essa capacidade.”

A meta inicial já foi atinginda, criar na Lotus uma estrutura vencedora. “O próximo passo é conquistar o campeonato. E o seguinte fazê-la lutar pelo título com regularidade, manter-se grande”, explica Boullier.

Diante da proeza de transformar uma escuderia decadente em potencialmente campeã, ninguém duvida de que atingirá seus objetivos. A Fórmula 1 precisava de gente nova, capaz, preferencialmente jovem e com nova mentalidade, mais de acordo com o que mundo vive hoje. Daí, também, seu sucesso.

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