Esclarecimentos importantes sobre a entrevista de Ecclestone e seus desdobramentos

liviooricchio

16 de abril de 2013 | 15h16

17/IV/13
Manama, Bahrein

Olá amigos, acabo de chegar a Manama, capital do Bahrein. Vim com o carro alugado do aeroporto até o hotel, para isso cruzei a cidade, e não vi nenhuma manifestação política. Faz calor, muito calor, o oposto de Xangai.

Nem bem cheguei e conversei com o Departamento Jurídico do Estadão. Como o texto descrito por tantos no meu blog, redigido por outro jornalista, envolvia a instituição O Estado de São Paulo e até a figura do editor, o departamento estuda a possibilidade de uma ação judicial. Se depender de mim, nada será feito.

O fato é que, com isso, fui obrigado a ler o famigerado texto do senhor Flavio Gomes. Acho que não entrava naquele site há uns seis anos, no mínimo. Não me surpreendi. O que às vezes penso é que deve ser horrível para um cidadão em que a simples existência de outro ser humano o incomoda profundamente. Se ainda convivesse comigo poderia desenvolver suas antipatias, mas nunca o vejo por eu estar nas corridas e ele no seu escritório, em São Paulo.

Vou contar uma história a vocês. Há uns dez anos, mais ou menos, uma aluna de jornalismo me procurou para ajudá-la no seu trabalho de conclusão de curso, o famoso TCC. Seu nome: Cristiane Rocha. O tema era interessante: a questão dos direitos na Fórmula 1.Disse-lhe o que sabia, na conversa, e falei que poderia tentar ser útil no desenvolvimento do trabalho. Orientei também a Cristiane a procurar o Flavio Gomes, dentre outros profissionais habilitados a abordar o tema.

Lembro-me como se fosse hoje: comentei com ela que minha leitura da causa humana no planeta era distinta da dele, mas que era provável que acrescentasse outros aspectos que não abordei na entrevista, o que seria bom, complementar ao seu estudo.

Meses depois, a Cristiane me deu o trabalho encadernado. Havia todo o desenvolvimento do tema, bem feito, diga-se, e depois, no fim, a transcrição das entrevistas. Fui lê-las. Eu poderia também aprender algo. Nem bem comecei a ler a do Flavio Gomes não sabia o que pensar. Foi impressionante. Vai ao encontro da reação dele no texto publicado ontem, enquanto eu voava de Xangai para Dubai e de lá para cá, o Oriente Médio.

Logo no início da entrevista com o Flavio, ela pergunta: por que você escolheu trabalhar com a Fórmula 1? A resposta começa assim. Repito: tenho isso documentado, o trabalho está comigo. O teor é este: “Olha, o meu caso é diferente do Livio. Eu sou jornalista. E fui chamado para fazer Fórmula 1. Tudo bem, claro, que eu gosto. Mas se eu deixar de fazer Fórmula 1 vou sobreviver profissionalmente. O que não é o caso do Livio. Eu sou jornalista.

Flavio Gome disse mais: “Não sei como o Estadão mantém o Livio como repórter. Ele é muito incompetente. Escreve mal. Já está velho”. Afirmou muito mais, ainda. Se estivesse em São Paulo eu escanearia o texto e disponibilizaria aqui.

Se eu tivesse a índole e a formação da família de meu pai, da região de Nápoles, na Itália, essa história terminaria muito mal para os dois lados.

Decidi expor essa mazela do senhor Flavio Gomes só para mostrar como ele funciona quando por alguma razão me vê em evidência, como parece ser o caso agora. Está claro, para mim, que sofre. Um bom psicólogo, caso deseje afrontar essa fixação, o ajudaria muito.

Ainda bem que o Estadão tem outra visão a meu respeito. Não sei quantas ondas de demissão já passaram por lá nesses 20 anos que tenho de cobertura da Fórmula 1 pelo Grupo Estado, mais outros três por outras mídias, e sempre sobrevivi, como repórter D, o mais alto na hierarquia da redação.

Dá para entender melhor, agora, as razões de resistir à leitura do texto do referido jornalista? E a exemplo de antes de lê-lo, compulsoriamente, não sinto nada agora? Tem o mesmo efeito de quando ouvimos algo de alguém que bebeu ou tem mesmo um problema emocional grave. Nós relevamos. Mas é verdade, também, que tudo tem um limite. E esse limite foi atingido.

Agora os leitores do blog. Vários insinuaram que faço parte de um grupo de lobistas e, como disse Ronaldo Tedeschi, “tiro proveito disso”.

Estive pensando: o que aconteceria se eu procurasse o lugar-tenente de Bernie Ecclestone, o italiano Pasquale Latunedu, e lhe pedisse novo encontro? Mais: na hora em que nos víssemos eu dissesse não ser uma entrevista. Simplesmente estava lá para solicitar ao senhor Ecclestone para pagar a universidade privada de medicina para a minha filha, bem como os custos do aluguel de um apartamento e demais despesas, já que seria fora de São Paulo?

Será que ele proveria os cerca de R$ 7.500 que eu não consegui bancar e ela voltou pelo terceiro ano para o cursinho, para tentar uma universidade de medicina pública, uma vez que já mantenho dois meninos em regime de pós-graduação? Ou é provável que até mesmo perdesse a credencial permanente que tenho da Fórmula 1? Motivos: insanidade, falta de respeito, de senso de ridículo, dentre outros. Que proveito que tiro por ser lobista, hein, Ronaldo?

Sobre Interlagos. Os pilotos, em geral, amam o traçado. Concebi e levei a Charlie Whiting um projeto de ampliação desse traçado. Manteria os aspectos de espetacularidade de hoje, mas seria maior e teria uma seção de alta velocidade, o que não existe e tem interferido de forma direta na má formação de nossos pilotos. A experiência de conhecer todos os circuitos do calendário aliada ao meu interesse por engenharia me autoriza a ter essa iniciativa.

Ações que visam melhorar aquilo que gostamos não fazem mal algum. Não é por ser jornalista que tenho de me limitar a reportar. Ao contrário. Se o conhecimento de outras áreas for útil, é bem vindo. Tenho olhar crítico nos autódromos para a engenharia e arquitetura da obra. Por que não adotar em Interlagos soluções que comprovadamente funcionam em outros. E se você as conhece…

Já nos aproximanos de 1 minuto e 10 segundos do tempo de volta em Interlagos. É muito pouco. É preciso estender o traçado, mas como falei sem tocar no que há de bom no existente.

A grande bronca de Interlagos, senhores, diz respeito ao paddock. É uma pena que poucos têm oportunidade de ver cenas como esta: não há espaço nas salas destinadas às equipes. Os alimentos ficam em caixas de papelão no chão. A bancada da cozinha é a de uma casa e os times têm 60 integrantes.

O fogão, da mesma forma, é subdimensionado, bem como a pia. Quando são três panelas, por exemplo, alguém tem de ficar segurando uma porque não há como acomodar todas nas bancadas ou no fogão. As reuniões entre pilotos e engenheiros são realizadas em compartimentos dentro dos boxes, criados por divisórias improvisadas. Apertadíssimos. Tem de se passar sobre as caixas que ficam no chão.

É tudo muito, mas muito precário. É a imagem da sua nação que está lá. E é tão pouco e lógico o que se pede. Converse com os integrantes das escuderias e você ficará revoltado. E não estamos falando de uma obra faraônica. As salas e cozinha representam o que há de menor impacto num projeto de mudanças.

Não seria preciso refazer os boxes. Mas criar um paddock, sim. Destruir aquelas salas de uma porta só sem exaustor que deve acomodar tudo e construir novas. Há questões até de segurança. Já daria outra dimensão ao autódromo. E custaria pouco. Sempre defendi essa solução, até com desenho publicado no Estadão há cerca de dois anos, mostrando que a obra da Hungria se encaixaria muito bem em Interlagos: estender o paddock com uma superlaje em substituição a que está lá para acomodar em cima as novas edificações dos times.

Orçamento. Escrevi que a reforma estava no orçamento deste ano porque o próprio ex-prefeito Gilberto Kassab me falou. Fiz uma entrevista com ele, no seu gabinete, há uns dois anos, para conversar não só de Interlagos como da Copa do Mundo em São Paulo. E mais tarde, no autódromo, confirmou que a obra não dependia de nada por estar orçada. Tenho de acreditar.

Investimento público numa promoção privada, como a Fórmula 1? Senhores, por favor. Há uns oito anos, o Ministério Público (MP) conseguiu uma liminar interrompendo as ações que levariam no fim do ano ao GP do Brasil de Fórmula 1. Razão: o MP queria que a prefeitura garantisse que os US$ 8 milhões que destina ao GP todo ano retornavam aos cofres públicos.

Foi feito na época um estudo independente pela Fipe que apurou retorno direto e não tangível muito acima da verba direcionada ao evento. O próprio MP reconheceu. Tanto que a liminar caiu. Não é pecado o governo investir em algo que é de interesse da população, ainda mais quando esse investimento gera lucro significativo, como é o caso da Fórmula 1, o que lhe permite destinar mais dinheiro para as áreas de maior interesse, como saúde, educação, transporte.

A Grã-Bretanha, sede da maioria das equipes de Fórmula 1, esteve muito próxima de perder seu GP. Foi depois de o governo garantir que construiria nova estrada de acesso a Silverstone que a prova acabou garantida no calendário.

No caso da Grã-Bretanha atende diretamente os interesses de 50 mil trabalhadores envolvidos no automobilismo inglês, além da população e o próprio governo por estar provado que o afluxo de dinheiro de fora compensa o investimento. Essa foi a razão de o governo inglês concordar, não a ameaça de Ecclestone e Max Mosley. Portanto, o que a Prefeitura de São Paulo põe de um lado tira mais do outro. É um bom negócio, conforme o estudo da Fipe provou.

Quebra de contrato. O documento assinado entre a Formula One Management (FOM) e a Prefeitura prevê a realização do GP do Brasil até 2014. Mas para isso é preciso que as exigências de segurança do autódromo e o atendimento das necessidades operacionais sejam cumpridas. “Se não forem, quem está rompendo o acordado não é a FOM, mas os responsáveis pelo evento”. Essas são palavras de Ecclestone.

E pelo acordo entre FOM, Globo e Prefeitura, essa é a parte do município, observar o que impõe a FIA. Ecclestone pode sem desgaste algum, como me contou na longa conversa de domingo de manhã lá em Xangai, alegar o não cumprimento das exigências para não levar a Fórmula 1 ao Brasil em 2014.

Do que li nos comentários, esses esclarecimentos me pareciam importantes e necessários.

Abraços!

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