Especial 30 anos sem Pace – Falam os amigos estrangeiros

liviooricchio

17 de março de 2007 | 15h57

Já foi dito que Bernie Ecclestone é duro nas negociações. Mas ninguém jamais o acusou de infidelidade nas relações com amigos. “Ele passou a ser uma espécie de nosso tutor”, lembra Rodrigo Pace, filho do ex-piloto, que tinha apenas um ano quando o pai morreu.

Ontem Ecclestone, enquanto acompanhava a etapa de abertura do Mundial, na Austrália, comentou os 30 anos da perda de seu piloto: “Primeiro, jamais o esqueceremos”, disse.

“Se tivesse sido num acidente de carro, na pista, seria mais fácil aceitar, mas as circunstâncias em que Pace morreu nos deixou chocados.” Ambos mantinham um contato que se estendia além dos negócios. “Fomos amigos, há 30 anos eu era jovem também. Quando acertei com a Alfa Romeo, para usar seus motores, em 1976, Pace adorou”, conta Ecclestone.

“Mas ao começar a treinar e ver que, além de potência, quebrava muito, me procurou para dizer que não iria mais correr de Fórmula 1. Eu ria porque sabia que mudaria de idéia logo em seguida. Era um tipo emotivo.” Esses sobes e desces emocionais refletiam-se nas pistas. Alternava performances excepcionais com outras menos eloquentes.

O diretor-esportivo da Brabham, na época, Herbie Blash, hoje braço-direito de Ecclestone nos autódromos, descreve Pace: “Você não diria que era piloto de Fórmula 1, não tinha a postura padrão, por ser muito simples, desinteressado de várias compromissos que na Fórmula 1 ganhavam força a cada ano, como os programados pelos patrocinadores.”

Falou mais: “Quando sentava num carro, porém, era impressionantemente veloz. Pace tinha, com certeza, potencial para ser campeão do mundo.”

Foi substituído na Brabham pelo alemão Hans Stuck, agora comentarista de TV. “Ecclestone me chamou no seu escritório. Eu corria para a equipe March, de Max Mosley, atual presidente da FIA. Ao me perguntar quanto eu queria para pilotar a Brabham de Pace, respondi que ganhava US$ 100 mil pela temporada na March, do atual presidente da FIA, Max Mosley.”

Stuck recorda que, a seguir, tocou o telefone. “Ecclestone deu a entender ser Arturo Merzário, outro piloto. Em instantes desligou e me comunicou que Merzário aceitara correr por US$ 30 mil. “Você tem 10 minutos para decidir, me falou.”

Alguns meses depois, em Mônaco, Ecclestone e Stuck jantavam juntos. “Ele me comunicou precisar contar algo. Confessou que aquele telefonema, no dia de eu assinar o contrato, não era Merzário, mas sua secretária. Tudo combinado.” Stuck ficou louco da vida, mas a Brabham era muito superior à March. “Disputei minha melhor temporada.” Conquistou dois pódios com o Brabham-Alfa Romeo de Pace, 3º na Alemanha e na Áustria.

Frank Williams não viajou para a Austrália, mas através de sua assessora, Silvia Hoffer, afirmou sobre Pace: “Sua carreira foi interrompida na infância. Com o carro certo, seria campeão do mundo.” Tim Schenken, ex-piloto, amigo de Pace, chefe dos comissários do GP da Austrália, enviou de Melbourne uma mensagem à Elda: “Saudades dos tempos em que eu, com minha mulher, Brigitte, e você com Pace saíamos para jantar.”

Schenkem recordou ainda: “Disputamos duas temporadas de Fórmula 2 no Brasil, no início dos anos 70, e Emerson nos convidou para ficar em sua casa, no Guarujá. Imagine se hoje um piloto faz um grupo dentre seus concorrentes e o recebe por dias em sua residência de praia. Jogávamos vôlei, futebol, comíamos churrasco juntos e no fim de semana nos transformávamos de novo em adversários numa atividade em que nossas vidas estavam em jogo. Não consigo imaginar nada parecido hoje.”

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